Dinacy Corrêa1
“Aqui, consegui muitos e grandes amigos. Sempre deixei bons rastros e saudade, em toda parte por onde passei” – estas palavras encerram o verdadeiro segredo do seu sucesso...
A noite, a seresta... ondas quebrando, o mar em frente... Olhares mútuos, comunicantes, sorrisos contagiantes... e tantos outros “antes”, texturizando a vida, na brevidade do instante. Circuito de amizade, a céu aberto, calor humano em volta de mesas... singelo banquete. No Reviver, o trabalho (para ele) tem sabor de festa!... E adivinhem de quem estamos falando?... Temos recebido solicitações do público para incluí-lo nesta Galeria! Mais uma dica? Lá vai, e com as próprias palavras do dito cujo: “Eu fiquei aqui de teimoso!” Agora deu pra captar, não é? Claro: ficar ali de teimoso, só sendo mesmo o Sousa...
Habituados a vocá-lo por um (sobre) nome que o identifica e populariza, assim com tanta sintonia, “caindo-lhe tão bem quanto uma luva”, nem nos damos conta, mas ele se chama Francisco José (!!). Simples como a água, como o pão... como ele mesmo, em sua índole de pessoa do bem: cordial, atenciosa, afável, acolhedora... o amigo bom, sincero, confiável... É assim, o Sousa: quem o conhece, jamais esquece.
Até maio de 1989, pode-se dizer, ele era “apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior” – da cidade de Brejo de Anapurus. Inverno rigoroso, e o jovem, então desempregado (após 08 anos de “batente cerrado”, no comércio lojista, aqui do Centro), quase desesperado... pôs-se a pensar, a refletir, a orar, até, em busca de uma clareira, ante circunstância tão desalentadora. E eis, relampeia-lhe uma idéia, uma inspiração... Passemos-lhe a palavra:
“A saída que encontrei, de imediato, naquela situação, foi o meu carro de cachorro-quente. Porque, mesmo no tempo em que eu estava empregado, já saía, com ele, nos fins de semana, e também pelo carnaval, para as feiras, as praias, os pontos mais estratégicos, da cidade. Mas, naquele momento de crise, eu decidi levar a sério, persistir, firme, no meu pequeno negócio” (deixemos que ele nos vá contando tudo, numa “conversa afinada”).
Mas, de onde te veio essa sintonia com o ramo?
“Acho que do meu amor pelo trabalho, da minha coragem de encarar a vida, da minha vocação para o comércio autônomo, informal, do meu espírito empreendedor. Nunca fui de cruzar os braços, esperando a sorte me bater à porta ou as coisas me caírem do céu. Sempre fui de ir à luta, de correr atrás, do jeito que pude.
E a preferência por esta área aqui do Centro Histórico?
“É que o Reviver2 tinha sido inaugurado, tornando-se a vedete das noites sanluisenses. E eu comecei a vir por aqui e me encantei com o momento, me empolguei com a euforia que contagiava a cidade, por conta de tudo aquilo, e quis me integrar no contexto, viver intensamente aquele clima de renovação, naquele tempo de resgate histórico e cultural da Praia Grande, compreende?”
Sim, continue...
“Comecei no canteiro central. À época, não podia ter nada aqui, assim de comércio informal de rua. Logo no quarto dia, me tiraram. Mas não me dei por achado e voltei. Botei meu carro na calçada do Odylo. Na semana seguinte, me tiraram de lá, pois “isto aqui é patrimônio histórico”...
E aí?
“Como eu sempre digo, fiquei aqui de teimoso! Continuei teimando e fui pra a Rua da Estrela. Em frente ao que é hoje a Praça Nauro Machado – entre a Câmara e as bancas de revistas. Mas, minha estabilidade durou apenas dois dias. O pessoal da administração veio e disse que eu não podia ficar ali. O administrador (Cordeiro) me abordou com educação e me pediu que viesse mais pra cá, recuando da área mais nobre”.
E assim se fez. Ele veio “recuando”, até as imediações dos chamados “frades de pedra” (fallus de pedra), próximo ao Odylo, de frente para a Avenida Beira Mar. “Não podia ficar na calçada porque era do Município; não podia ficar no pátio do teatro porque era Patrimônio Histórico” – recorda. E acrescenta (sem mágoa):
“O diretor do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, àquela época, mandava os policiais me intimarem a sair dali. Mas fui insistindo, persistindo, resistindo... com muita calma, muita paciência. Com seis meses, vim pra debaixo da árvore, no canteiro do estacionamento, onde fiquei, como todo mundo sabe, até janeiro de 2005”.
Cara, você é mesmo um herói da resistência! E o sucesso das vendas, estalou “assim” de imediato?
“Olha, no primeiro dia, vendi 03 cachorros-quentes, no segundo, 05, no terceiro, 04. E tudo começou a ir melhorando e resolvi ficar, lutar por este espaço, porque me identifiquei com o local, com as pessoas, fui me familiarizando com o pessoal da Cultura, do Teatro... Posso dizer que aqui fiz muitos e grandes amigos. Aliás, sempre deixei bons rastros e saudade, por toda a parte por onde passei. Na segunda semana, deslanchou de vez. As pessoas começaram a ter confiança, a gostar de mim... Começaram a se aproximar pra deixar recados... E o meu trabalho foi se caracterizando como um ponto de referência, um ponto de encontro e ganhando popularidade. Tanto, que o Jornal Chumbo Grosso, do DCE da UFMA, fez uma reportagem/propaganda, intitulada Ponto de Encontro, destacando o Cachorro-Quente do Sousa...”
Mas, e o segredo desse sucesso, pode ser revelado?
“Vamos ver se dá pra explicar. Na verdade, não tem segredo. É tudo muito óbvio. Acontece que sempre fui um consumidor exigente. E assim, concebo o meu cliente, adotando um ritmo sério de trabalho, procurando imprimir, no meu produto, garantia, qualidade e segurança. Tenho como regra básica não trair o meu cliente e respeitar o público que me prestigia com a sua presença. De forma que estou sempre empenhado em oferecer um produto de qualidade, com um certo diferencial de inovação e num preço acessível. Nosso cachorro-quente é feito com todo carinho, pensando no bem-estar, na saúde do nosso cliente. Quase tudo de fabricação caseira: maionese, salada, recheio... E tudo dentro dos conformes da higiene. Aqui na rua, eu emprego seis pessoas e em casa mais outras seis. Trabalhamos o dia inteiro, devidamente uniformizados, munidos de touca, avental, luvas, tudo em prol deste lanche noturno, para que ele se revista de um padrão de qualidade, à altura do mérito do nosso freguês, ao qual procuramos servir da melhor maneira que podemos”.
E a receita, em suas inovações, dá para mostrar esse “pulo de gato”?
“Bom, isso vem por conta dos ingredientes que utilizamos e o cliente percebe o diferencial. Por exemplo, nós introduzimos a batata frita, em rodelas, crocantes, por cima da camada que recobre o recheio-base, como num acabamento. E isso pegou! Uma salada de verduras e legumes, tudo cortado fininho... E o nosso pão (da Pão Nosso) é o melhor possível, desde a embalagem – em saco plástico, fechado por inteiro e pra levar, papel-alumínio, envolvendo tudo. Como já disse, o cliente sente o respeito, a consideração que temos para com ele. Outra coisa de que fazemos questão, taxativa, é não guardar o que sobra para o dia seguinte. Por isso, procuramos fazer a quantia certa. No inverno, temos prejuízos. É quando mais fazemos doações. Falar nisso, cada um de nossos fregueses tem direito a um cachorro-quente, cortesia da Casa, pelo seu aniversário. E os universitários, em fase de conclusão do Curso, no dia da defesa da monografia e/ou da colação de grau, têm o mesmo direito”.
Algum projeto especial para 2007?
“Pretendemos, para este ano, surpresinhas que o nosso cliente irá tendo,se Deus quiser no dia-a-dia, com o passar dos dias. Sem declinar, jamais, do fator higiene e qualidade (não será demais repetir), em respeito ao nosso cliente-amigo. Sabe, aqui as famílias trazem suas crianças, de até um ano, também seus avós, de 70, 80 anos, pra comer... Porque confiam na gente. E queremos sempre fazer jus a essa confiança”.
Bom, e a mudança, em 2005, aqui para os fundos da Câmara (atrás da banca de revista, à margem da travessa Boaventura, confrontando o Shopping do Cidadão), foi pra melhor? Está mais estável a tua situação? Porque já pegaram pesado contigo, anos atrás, ali do outro lado... Quem não se lembra? Houve até abaixo assinado...
“Pois é, em 2005, estavam fazendo uma triagem nos vendedores de rua e entramos num acordo. Aceitei, de bom grado, vir pra cá. Tá bom. Até agora, tudo tranqüilo e estou muito feliz. Porque, sabe como é; isto aqui, pra mim não é uma aventura, é como se fosse a minha própria vida. E eu não me vejo mais fora deste contexto. Aqui é onde tenho o meu círculo de amizades, é a minha segunda casa... Aqui eu me sinto mesmo como parte da história da cidade. E, apesar de ser tudo muito trabalhoso, muito cansativo (instalar, a partir das 17:00h. e desinstalar, lá para as 24:00h., 1:00h, 2:00h. da manhã, diariamente, toda esta estrutura, arrumar, desarrumar, carregar, descarregar...) eu faço tudo com muito prazer”.
Mudando o enfoque, vamos falar de Francisco José, o menino, o adolescente, antes de transformar-se no Sousa do Cachorro-Quente e integrar-se ao contexto histórico e cultural da Cidade Patrimônio Histórico da Humanidade...
“Nasci no dia 18 de agosto de 1962. Meus pais são: Raimundo Alves de Sousa, o Pedro da Luisa, piauiense, lavrador e açougueiro (marchante), e Luisa Maria dos Santos Sousa, dona de casa. Sou o 4º. filho de uma prole de 09 irmãos: Maria Luisa, Raimundo Nonato, Francisco José, falecido e cujo nome se repete em mim, numa homenagem, Aluisio, Antonio Pedro, Maria Benedita, Marilene e Manoel Messias. Passei toda a infância e adolescência na minha amada e venerada terra natal, Brejo de Anapurus. Fui alfabetizado pela Professora Conceição Dutra Ribeiro, grande e inesquecível mestra, digna de todo o meu apreço. Com ela, estudei a Carta de ABC e a Cartilha. O primário (Ensino Fundamental, até a 4ª. série), cursei na Escola Santa Rita (bairro Areia), com a Professora Irene Dutra (irmã de Conceição Dutra). Uma maravilha de educadora! Com ela, ia (e voltava), todos os dias para a escola. O Primeiro Grau Maior, estudei no Jarbas Passarinho, com vários professores, um para cada matéria. O 2º. Grau (Ensino Médio), fiz na Escola Cenecista (Ginásio Brejense), no centro da cidade. Por sinal, ingressar nessa escola, me foi um grande desafio! A diretora avisou logo meus pais: “ele não vai passar de ano”. Porque, todos os que vinham do Jarbas, iam ficando reprovados, ali, nas provas bimestrais, culminando com a reprovação fatal, no fim do ano letivo. Além disso, eu vinha de Guanabara (bairro), zona suburbana de Brejo. O pessoal não acreditou em mim... Daí, a surpresa: eu passei com notas e conceitos dos mais altos. E sempre fui, modéstia à parte, um dos melhores alunos da Escola. Minha infância e adolescência, em Brejo, foi assim: muito família, escola, amigos ...Vidinha simples, saudável, normal, de menino pobre, do interior”.
E a vinda pra São Luís?
“Cheguei aqui aos 22 anos (1984), para estudar e trabalhar. Encontrei muitas dificuldades e não consegui continuar meus estudos. Só trabalhei – e a duras penas. Primeiro, como ajudante de pedreiro (Ponta da Areia). Depois, como vendedor lojista, na Raquel Variedades (Av. Magalhães de Almeida), propriedade de Dona Benedita Araújo, a quem rendo, nesta oportunidade, a minha homenagem de gratidão, pelo ser humano generoso, divino e maravilhoso que ela é, que ela foi para mim: uma segunda mãe. E eu, para ela, também, um filho. Nesse tempo, eu morava num pensionato, na Godofredo Viana (hoje Lojas Star, Calçados). Aos domingos, ia almoçar na casa dela, conviver com sua família. Ela fazia questão. Preocupava-se comigo, com a minha solidão de jovem do interior, na cidade grande”...
Vai falando, quero muito te ouvir.
“Da Raquel Variedades, passei para o Armazém Gonçalves Dias, depois para as Lojas Ele e Ela – Modas, na Rua Grande. De lá, fui para a Prolivetti, mas retornei para a Ele e Ela, em 88. Em 89, fiquei desempregado e a conseqüência, já se sabe.
Durante esse percurso, você continuou morando na Godofredo Viana?
“Não! De lá, fui para a Treze de Maio (prédio onde funciona a Casa Arruda). Depois, morei em frente ao Santa Tereza, na Rua do Egito, ao lado do Fran Cabeleleiro. Depois, na 14 de Julho (onde hoje é o Hotel Praia Grande). De lá, fui para o Bacanga, para uma casa alugada na Rua Pereira Ramos, que onerava o meu salário. De lá, mudei-me para o Angelim (invasão). Finalmente, fui para o São Francisco, onde resido até hoje (Rua dos Cravos,1145)”.
E nessa grande aventura, aconteceu aquele encontro, pintou algum love story? Você é casado, Sousa? Construiu família?
“Sim! Sim! Em 87, quando era balconista no Armazém GD, encontrei aquela com quem, em 89, me amiguei, me amasiei, num consórcio familiar que, creio, já estava “escrito nas estrelas”, gravado em nossas almas, desde a eternidade. Porque, tenho certeza, encontrei, nesta vida, a minha alma gêmea, a mulher que me completa física, espiritual e existencialmente. Pintou, sim, um grande love story”(Louvado seja Deus!)...
E como foi esse bendito encontro, quem é essa bem-aventurada?!...
“Ela foi comprar tecido na loja e eu a atendi, como vendedor. Conversando, descobrimos que somos da mesma cidade. E foi aquela chama! Um toque divino, que faiscou pra todo lado. A partir desse momento, nos prendemos um ao outro pelos laços do Amor e da Fidelidade, da Amizade, da Fraternidade, da Consideração, do Respeito, do Afeto, da Compreensão... pode escrever com letra maiúscula, mesmo, porque ela é Tudo para mim e eu sou Tudo para ela. Como diz o ditado, ‘por trás de todo grande homem existe uma grande mulher’. Eu posso não ser um grande homem, mas tenho, sim, alicerçando a minha vida, uma grande mulher: Francisca das Chagas, fiel companheira, que esteve e está sempre do meu lado, mesmo nos momentos mais difíceis – como quando no tempo em que fomos morar no meu barraco, sem teto (invasão) no São Francisco. No inverno, o cobríamos com palhas. Mas, às vezes, a chuva forte desmoronava tudo. Tínhamos que nos levantar, altas horas, pra improvisar cobertura, erguer paredes... E ela sempre ali, firme, acreditando em mim... Hoje, superamos tudo e, coroando a nossa felicidade, temos nossos filhos, duas grandes bênçãos de Deus na nossa vida: Mateus (13 anos) e Letícia (08 anos)” – ambos estudantes do CESM Santa Terezinha, escola particular (este ano, Mateus passou para o Colégio Batista).
O Sousa é essa figura extraordinária, que mora no coração da gente e já faz parte da nossa história, da magia noturna do Reviver... E o Cachorro-Quente do Sousa, sabe-se, já é famoso, local e nacionalmente. A propósito, quando se viaja, para outros estados, é comum ouvir-se, da galera “pé-na-estrada”, referências das mais alentadoras, sobre esse já consagrado ponto de encontro, recomendado pelos lá de fora como uma das paradas imprescindíveis, no roteiro turístico aqui da Ilha do Amor – pela simpatia, pelo carisma do seu criador.
Bom, o Sousa está na página. Olha ele aí, gente!! Cuidado... Olha o vapor... Olha o vapor do Sousa...
1 Professora Estatual (SEEDUC e UEMA) E-mail: dinaletras@ig.com.br
2 Projeto de restauração e revitalização do Centro Histórico de São Luís, com ênfase na área da Praia Grande.