POR MANOEL SANTOS NETO
Compositor é homenageado com flores e músicas no seu enterro
Ao som de um surdo da Favela do Samba e dos atabaques e agogôs do Bloco Afro Akomabu, o cantor e compositor José Henrique Pinheiro Silva, o Escrete, foi sepultado, no final da manhã de ontem, 26, no Cemitério do Gavião. Uma verdadeira multidão acompanhou a pé o cortejo fúnebre, que saiu da praça Maria Aragão, com o caixão bem à frente colocado sobre um carro do Corpo de Bombeiros.

Familiares, amigos, artistas, intelectuais, sambistas, mães-de-santo, brincantes e dirigentes de grupos da cultura popular e militantes de entidades do Movimento Negro foram dar o último adeus ao famoso compositor maranhense, numa cerimônia carregada de emoção. Ao longo do percurso da avenida Beira-Mar até o Cemitério do Gavião, vários intérpretes, entre eles Tadeu de Obatalá, Paulinho Akomabu, professor Carlão, Luís Carlos Guerreiro e Gisele Padilha, revezaram-se sobre um carro de som, cantando as canções de Escrete, sambas da Favela e músicas do Akomabu.
Sob aplausos, o corpo de Escrete foi sepultado no momento em que muitas pessoas rezavam e integrantes do Centro de Cultura Negra do Maranhão (CCN-MA), da Favela do Samba, do Boi Pirilampo e do Bloco Akomabu, cantando e dançando, também gritavam "Viva Escrete, Viva!", com uma expressão de dor e sofrimento estampada em seus rostos.
Escrete, que tinha 54 anos, morreu às 7h da manhã da última quinta-feira, 25, na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Geral. Ele não resistiu a complicações decorrentes de insuficiência renal crônica, agravada por diabetes, cirrose e úlcera gástrica aguda. A morte do artista - que se notabilizou como um dos grandes personagens da cultura popular do Maranhão - causou comoção em São Luís, e mobilizou dezenas de pessoas que foram homenageá-lo no Memorial Maria Aragão, onde foi velado.
Os secretários de Estado da Cultura, Joãozinho Ribeiro, e da Igualdade Racial, João Francisco dos Santos, o ex-candidato a senador Ubirajara do Pindaré, Sílvio Bembém, a fundadora e ex-presidente do Centro de Cultura Negra, Maria Raymunda Araújo, além de diversas personalidades do meio artístico e cultural e do Movimento Negro acompanharam o cortejo, ao lado da multidão que saiu pela avenida Beira-Mar, subiu a rua do Egito, desceu a avenida Magalhães de Almeida, contornou a rua das Cajazeiras e a rua do Norte e alcançou a praça da Saudade, onde outra concentração de pessoas aguardava o cortejo.
Lágrimas e aplausos na hora da despedida
Autor de dezenas de sambas-enredos e durante muitos anos compositor da Favela do Samba, Escrete ganhou fama ao fazer um dos primeiros registros da música afromaranhense, com o LP "Malungos", cujas músicas foram levadas às ruas de São Luís pelo Bloco Afro Akomabu. Depois disso, Escrete gravou a música "Gaiola não é prisão para negro", em parceria com Joãozinho Ribeiro, e compôs "Sereia", juntamente com Carlos Gomes e Nicéias Dumont, que se transformou num hino do carnaval maranhense.
Parentes, vizinhos, amigos e políticos foram ao velório, prestar homenagens ao grande batalhador da cultura popular do Maranhão. Com o caixão envolto em uma das antigas fantasias do Bloco Akomabu, Escrete ganhou homenagens. À beira da cova, Joãozinho Ribeiro chorou, lembrando que Escrete tinha "uma imensa consciência social". Atual secretário da Cultura do Estado, Joãozinho Ribeiro, que foi parceiro de Escrete, declarou que o artista morto deixa um grande legado de dignidade para o povo do Maranhão. "A maior dignidade de um artista é a sua arte e Escrete resistiu com honradez o quanto pôde às dificuldades que enfrentou em sua vida", ressaltou Joãozinho Ribeiro.
Também presente na cerimônia fúnebre, o ex-gerente de Cultura do Estado, Luís Bulcão, frisou que Escrete foi um artistas de múltiplas qualidades. Bulcão elogiou o espírito de perseverança de Escrete. "A luta dele foi marcada pela teimosia e pela resistência, porque quando um quer resistir, aparecem 100 para querer tirar do mapa", disse Bulcão.
Tadeu de Obatalá e Paulinho Akomabu compuseram ontem e apresentaram ao público a música "Escrete Junto às Estrelas", que foi entoada ao longo do cortejo. "Escrete foi mais do que um parceiro e um amigo; nós perdemos um irmão", declarou Tadeu de Obatalá. Ele e Paulinho Akomabu foram às lágrimas no momento em que o caixão de Escrete desceu à cova.