O consórcio governista está em polvorosa. A demora de Lula em distribuir os ministérios deixa inquietos os deputados e senadores governistas. Líderes das legendas governistas avaliam, em privado, que o presidente conduz mal a recomposição de sua equipe.
Lula faz chegar aos partidos um recado: quer garantias de apoio ao recém-lançado PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) antes de ratear os cargos. No Congresso, diz-se que o presidente alimenta uma ilusão. Os cargos devem vir antes do apoio, não o contrário.
O ministro Tarso Genro (Relações Institucionais) convocou para a próxima terça-feira (30) o conselho político. Integram-no os dez partidos da coalizão. Lula quer arrancar dos partidos, já nesse encontro, o compromisso de suporte congressual. Ouvido pelo blog, um dirigente partidário previu, em reserva, o que vai acontecer.
“É obvio que os partidos não vão se opor ao PAC. No máximo, haverá uma ou outra sugestão de mudança pontual. Mas as promessas de apoio serão meramente retóricas. Se os partidos, mais tarde, se julgarem desatendidos na composição do ministério, a unidade da coalizão, que já é precária, vai ruir em dois tempos.”
A inquietude é maior no PMDB, justamente o partido que o Planalto tenta transformar em esteio da coalizão. Trava-se nos subterrâneos da legenda uma queda-de-braço entre as bancadas da Câmara (90 depitados) e do Senado (20 senadores), as maiores do Congresso. A pacificação custará a Lula cinco ministérios –os três que já são controlados pela legenda e mais dois.
Lula tem outros planos. Tenciona entregar ao PMDB apenas uma pasta além das três já confiadas ao partido. É pouco, avaliam os deputados. Desenvolve-se entre os peemedebistas da Câmara um raciocínio numérico. Diz-se que o Ministério das Minas e Energia, hoje gerido por Silas Rondeau, é do senador José Sarney (PMDB-AP). O das Comunicações, ocupado por Hélio Costa, é do senador Renan Calheiros (PMDB-AL). O da Saúde, entregue a Agenor Álvares não é de ninguém.
Álvares sucedeu na Saúde ao deputado Saraiva Felipe (PMDB-MG), que deixou o cargo para concorrer às eleições do ano passado. Os deputados peemedebistas não o reconhecem como um representante do partido. Querem indicar outro nome. E, para “corrigir” a “defasagem” em relação ao Senado (Sarney e Renan), reivindicam mais duas pastas. Uma delas é a dos Transportes. Outro problema para Lula.
Nos Transportes, o presidente quer reacomodar Alfredo Nascimento, do PR (ex-PL). Ele também deixou a pasta no ano passado, para concorrer ao Senado. Elegeu-se pelo Amazonas. Lula gosta de Nascimento. E o quer de volta. Preterindo-o, contentará o PMDB. Mas comprará briga com o PR, hoje com 20 deputados.
Lula tem problemas também com o PT. Anunciara a intenção de encurtar os espaços de seu partido na Esplanada. Acha que a eventual eleição de Arlindo Chinaglia (PT-SP) para a presidência da Câmara vai facilitar-lhe a vida. Engano. O petismo avalia que, elegendo Chinaglia, ganha musculatura para reivindicar a manutenção e até a ampliação de seu quinhão no ministério.
Para complicar um pouco mais: partidos situados à esquerda da coalizão torcem o nariz para o olho grande de PMDB e PT. O PSB, que no primeiro mandato controlou a pasta da Ciência e Tecnologia (Eduardo Campos) e a da Integração Nacional (Ciro Gomes), gostaria de ocupar um terceiro ministério. Até o minúsculo PC do B, que mantém nos Esportes o apadrinhado Orlando Silva Jr., ambiciona mais um lugar na Esplanada. Há, de resto, a necessidade de abrir espaço para os noviços do governismo, como PDT. É ambição demais para pouco cargo.
(Josias de Sousa – Folha de São Paulo)