POR OSWALDO VIVIANI
CRIME SEM CASTIGO EM IMPERATRIZ
Em 17 de janeiro de 1995, o comerciante Ezir Leite Jr. foi enforcado e enterrado numa cova rasa. Dos 7 executores do crime, um morreu, 4 estão livres e 2 estão foragidos. Irmãos sírios apontados como mandantes negam participação no assassinato até hoje.

Eram cerca de 8h30 da manhã de uma sexta-feira, 13, do ano de 1995, quando o comerciante Ezir Souza Leite Júnior, de 22 anos, filho do dono da Distribuidora Tropical (uma das maiores de Imperatriz), recebeu um telefonema de um homem que se dizia policial. Ele queria marcar um encontro para levar Ezir Jr. a um local onde supostamente estavam guardadas mercadorias desviadas por um funcionário da distribuidora.
Após o telefonema, Ezir Jr. ligou para sua mãe, Etiene Moura de Matos Leite, contando o ocorrido. Ela aconselhou o filho a não ir sozinho ao encontro. Pediu que o jovem chamasse seu pai – Ezir Souza Leite – para acompanhá-lo.
Assim, Ezir Jr. e o pai, cada um em seu carro, foram ao local marcado – o Posto Santa Marta, diante da Tocauto, na BR-010. Lá, os dois encontraram Cristiano Alves de Brito, o homem que havia telefonado para Ezir Jr. momentos antes.
Enquanto seu pai atendia a uma ligação no celular, Ezir Jr. foi atirado num Passat branco por Cristiano e outros homens, sendo levado do posto sem que seu pai percebesse.
O jovem só reapareceria oito dias depois. Seu corpo foi encontrado enterrado numa cova rasa, numa chácara localizada na estrada que leva ao município de João Lisboa, pouco depois das instalações da TV Nativa.
Crime mal apurado – Por cinco anos – de 1995 a 2000 – o caso Ezir Jr. foi tratado pelas autoridades policias como um simples seqüestro com o objetivo de auferir dinheiro. Afinal, poucas horas depois do desaparecimento do comerciante, a família recebeu um telefonema em que era exigido o resgate de R$ 1 milhão em troca da vida do jovem.
Fortaleceu a hipótese do seqüestro por dinheiro o fato de a localização do corpo só ter sido possível depois da prisão de Gabriel Felipe Fernandes, que já havia sido condenado por seqüestro em Goiás.
Os delegados Benedito Oliveira (da Polícia Federal, já falecido) e Luciano Abreu (Polícia Civil), que estiveram à frente das investigações desde o dia do desaparecimento de Ezir Jr., encerraram as investigações poucos dias depois de ter sido encontrado o corpo da vítima.
Segundo a versão dos dois delegados, os autores do crime seriam Benito Miranda Muradás (que usava nome falso de José Bento Alves Coutinho), Cristiano Alves de Brito, Edvan Sousa (o “Bebelégua”), Josué Barbosa dos Santos e Gabriel Felipe Fernandes.
Benito Muradás seria assassinado em 2000. Cristiano (caseiro da chácara em que Ezir Jr. foi morto) e “Bebelégua” estão foragidos até hoje. Josué e Gabriel foram presos, mas respondem ao processo em liberdade.
Embora vários elementos de prova naquela época já apontassem para o comerciante sírio Hassan Yusuf – dono do Armazém Nádia, concorrente da Distribuidora Tropical – como mandante do crime, os delegados que presidiram o inquérito simplesmente ignoraram os fatos. Muradás, apontado pela polícia como idealizador do seqüestro, já havia sido “cobrador” de Hassan. Os comparsas de Muradás no crime, Edvan Sousa (“Bebelégua”) e Cristiano Brito, também chegaram a trabalhar para Hassan, sob o comando de Muradás, no serviço de “cobranças”, que muitas vezes exigia certa dose de truculência dos “cobradores”.
Mais indícios: pelo menos um carro de Hassan foi usado pelos seqüestradores e provavelmente uma arma também, citada em depoimento de Muradás.
MP reabre o caso – Esquecido por cinco anos na 2ª Vara Criminal de Imperatriz, o “caso Ezir Jr.” foi “desenterrado” pelo Ministério Público Estadual em fevereiro de 2000, depois de pressões da sociedade civil imperatrizense, organizada no Fórum pela Vida e Contra a Violência.
Um grupo de seis promotores foi indicado pelo procurador-geral para conduzir as investigações, agora numa linha que convergia para o crime de encomenda. Ainda em 2000, a pedido do MP, foram presos pela Polícia Federal Francisco Machado Portela, o “Dourado”, e Raimundo Alves de Brito, o “Guina”.
Então proprietário da Fazenda Lagoinha, “Dourado” também mantinha estreitas ligações com Hassan Yusuf. Foi “Dourado” quem sugeriu ao comerciante sírio que fizesse de Muradás seu “cobrador” e quem deu fuga ao pistoleiro, dias depois do assassinato. “Dourado” devia dinheiro para a vítima, quantia que somente foi paga após o seqüestro e morte do credor. Na noite da véspera do crime, “Dourado” tentou atrair Ezir Jr. para sua chácara, que fica a 500 metros do local que posteriormente foi utilizado como o cárcere do comerciante. Ele queria que o rapaz olhasse uns cavalos, que seriam usados para abater sua dívida. Ezir Jr. preferiu não ir. Disse a “Dourado” que não entendia nada de cavalos.
Já “Guina” teve seu envolvimento revelado por Cristiano Alves de Brito, seu tio. Cristiano afirmou que seu sobrinho conhecia o plano do seqüestro, tendo visto a chegada da vítima amarrada, sendo ainda responsável pelo envio das cartas dos seqüestradores à família da vítima, pela destruição e ocultação do seu celular, e por vigiar o local em que Ezir Jr. foi mantido encarcerado até o dia de sua morte.
Além de pedir a prisão de mais dois envolvidos no crime, os promotores do MP também apontaram a participação no seqüestro de um irmão de Hassan, o médico Jamal Yussuf, que teria dado a ordem para seqüestrar Ezir. Consta dos autos que Hassan, ao contratar Benito Muradás para “todo tipo de serviço” avisou-lhe que aguardasse as ordens de Jamal.
Após preencher oito meses do ano de 2000 com uma intensa investigação, o Ministério Público Estadual denunciou, em 2000, Hassan Yusuf, Jamal Yusuf, Francisco Machado Portela, o “Dourado”, e Raimundo Gonçalves de Brito, o “Guina”. Os dois primeiros foram apontados como mandantes do assassinato de Ezir Jr. Os dois últimos como co-autores da execução. Entretanto, o Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão, por meio dos desembargadores Dulce Clementino e José Pires da Fonseca, concederam um “habeas corpus” a Francisco Portela (que responde ao processo em liberdade) e impediram, com salvos-condutos, a prisão de Hassan e Jamal Yusuf. “Guina” chegou a ser preso, mas já está em regime semi-aberto.
Segundo o Ministério Público, Hassan e Jamal resolveram seqüestrar Ezir e posteriormente liquidá-lo por ganância comercial. Queriam abalar o concorrente, cujos negócios vinham prosperando muito, e assumir a hegemonia no comércio de secos e molhados em Imperatriz.