Professor de Física há sete anos, o maranhense Antônio Ferro, 30 anos, vem se destacando no ensino da matéria. Recentemente participou da International Conference on Physics Education 2006, realizada no Japão, que reuniu profissionais da área de instituições renomadas como Cambridge.
Ferro teve o projeto sobre ensino de vetores escolhido para ser apresentado e discutido na ocasião. A idéia foi criada para a Escola Crescimento e está sendo aplicada há quatro anos.
O Jornal Pequeno conversou com Antônio Ferro para saber mais detalhes do projeto, da carreira e dos desafios no ensino da Física.
Jornal Pequeno - Como começou sua carreira no ensino de Física?
Antônio Ferro - Iniciei como professor particular e substituto em algumas escolas até que entrei na Escola Crescimento há cinco anos.
JP - Como surgiu a idéia do projeto, que foi apresentado no Japão?
AF - Após uma conversa com Lúcia (minha esposa), enxergamos a possibilidade de aproveitar as atividades escoteiras no cotidiano escolar, e dias depois, durante o planejamento na escola, que na época era feito em conjunto com os professores das áreas de conhecimento, organizei a atividade juntamente com o professor Neemias Lacerda, de Geografia. Elaboramos as aulas que seriam desenvolvidas até a realização da atividade.
JP - Assim como a conferência do Japão, você participou de outros eventos do segmento? Quais?
AF - Participei da Escola de Verão do Instituto de Física da USP (que tem pré-seleção), da Escola de Verão do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) no Rio de Janeiro (também tem pré-seleção de participantes), participei da organização da Escola de Verão Professor Luis Pimentel, na Ufma; Encontro de Físicos do Norte Nordeste, em Fortaleza (apresentei um trabalho como este), Simpósio Nacional de Ensino de Física (Rio de Janeiro - 2005). Este ano sou representante na Olimpíada Brasileira de Astronomia e atualmente faço parte da comissão organizadora do próximo Simpósio Nacional de Ensino de Física que ocorrerá em janeiro/fevereiro de 2007 aqui em São Luís.
JP - Na sua opinião, qual o grande desafio no ensino de Física?
AF - Aproximar o estudo da Física da realidade, mostrando aos alunos como a disciplina está presente nos acontecimentos diários, e não apenas para uns poucos “escolhidos”. Bem como a importância das ciências para o desenvolvimento de um País.
JP - Existem muitos alunos resistentes à matéria devido à dificuldade com cálculos e também por não conseguirem perceber a utilidade do que está sendo ensinado? A que você atribui essa postura?
AF - A postura resistente da maioria das pessoas em relação à Física se deve ao fato de não terem encontrado, no ensino médio, um sentido para tantas fórmulas que apareciam do nada, como se os cientistas simplesmente sonhassem com tudo. Esta imagem ainda está presente, pois o foco de muitas aulas está somente na resolução de questões, que foi um modelo adotado na década de 70 e sobrevive até hoje por falta da realização, aqui no Brasil, das propostas pedagógicas mais modernas de maneira efetiva. Que fique claro: não há como trabalhar a Física sem os cálculos, mas é possível apresentá-los de uma forma mais coerente para o aluno, partindo de experiências e situações cotidianas concretas para construção do formalismo físico.
JP - A iniciativa melhorou a nota dos alunos?
AF - Sim, pois após a atividade o relacionamento dos alunos com a disciplina evoluiu muito, a ponto de vários alunos buscarem outras formas de obter conhecimentos mais profundos sobre a Física como, por exemplo, a Olimpíada de Física, na qual a escola tem tido bons resultados.
JP - O projeto que foi apresentado no Japão é amparado na interdisciplinaridade. Para ensinar outro assunto você já relacionou, fez a ponte da Física com outras áreas, além da Geografia?
AF – Sim. Todo ano realizamos atividades que relacionam a Física com a Biologia, Matemática e Educação Física.
JP - O que inspirou a criação do projeto de vetores?
AF - A inspiração veio da concepção que tenho de que a Física está no cotidiano, e este tópico do conteúdo sempre pareceu distante da realidade do aluno. Somada a esta visão tive a minha experiência no movimento escoteiro que forneceu a formação necessária para realização da atividade.
JP - Para quem está a algum tempo afastado dos livros de Física, como você explicaria o projeto?
AF - Ele consiste no fato de que quando precisamos nos deslocar entre pontos presentes em um mapa, como por exemplo, em uma viagem, devemos estabelecer um percurso. Para chegarmos a uma decisão sobre qual o melhor caminho levamos em conta aspectos como a direção, o sentido que iremos tomar e a distância a ser percorrida. Quando realizamos esta escolha construímos um vetor.
JP - Você tem dois filhos que já iniciaram os estudos. Você estimula a curiosidade sobre a Física?
AF - Como todas as crianças eles são curiosos e cheios de “experiências”. Na nossa família esse estímulo acontece diariamente e não só com ciências, mas mostrando a eles todas as áreas possíveis de conhecimento.
JP - Quais são seus planos para o ensino de Física?
AF – Atualmente, estou tentando concluir artigos que enviei para revistas nesta área e também estou trabalhando no desenvolvimento de tecnologias para o ensino de Física para portadores de necessidade especiais.