HISTÓRIAS DA POLÍTICA
Rio - O MDB nasceu, em 1966, com 21 senadores e 140 deputados (herdados, sobretudo do PTB e PSB). Em novembro de 70, com um ano de AI-5, torturas, o horror do governo Médici, caiu para sete senadores e 87 deputados.
O general-senador Oscar Passos não conseguiu reeleger-se pelo Acre, deixou a presidência do partido. O vice Ulysses Guimarães assumiu. A luta armada destroçada, a imprensa amordaçada, a oposição reduzida a três letras: MDB. Muita gente propôs fechar o partido e entregar a chave a Médici.
Um punhado de jovens e valentes deputados, liderados pelo baiano Francisco Pinto (Marcos Freire e Fernando Lira de Pernambuco, Getúlio Dias, Amaury Muller e Nadir Rossetti do Rio Grande do Sul, Paes de Andrade do Ceará, Lisaneas Maciel do Rio, Marcondes Gadelha da Paraíba, Jaison Barreto de Santa Catarina) organizou-se no grupo dos "Autênticos" para "resistir no Congresso", liderados pela bravura de Oscar Pedroso Horta.
ULYSSES
A oposição tinha nome: Ulysses. Em 73, Geisel foi escolhido para o novo plantão dos generais, a ser aprovado pelo Congresso. Ulysses e Barbosa Lima desafiaram o regime e correram o país como "anticandidatos". O fruto veio logo. Em 74, o governo levou uma surra nas eleições: o MDB elegeu 16 senadores, inclusive Orestes Quércia, de São Paulo, o mais votado do país, contra seis da Arena. A ditadura começava a cair dez anos antes.
Em 74, Ulysses ensinou a lição e o caminho para o país construir "As 16 Derrotas que Abalaram o Brasil":
"No alto do morro, estavam dois touros. O touro velho e o touro novo. Viram lá embaixo o pasto cheio de vacas. O touro novo ficou aflito:
- "Vamos descer depressa e pegar uma dez".
O touro velho balançou a cabeça:
- "Nada disso. Vamos descer devagar e pegar todas".
ULYSSES (2)
Ulysses ensinou mais:
1. - "Deus manda lutar, não manda vencer. O destino do MDB não é a oposição, é o poder. 1974 não foi uma tempestade, foi uma tromba d`água".
2. - "Muitos são arrivistas, deslumbrados, Alices no país das maravilhas. Amadores, não são do ramo. Tocadores de flauta podem mais do que sabem".
4. - "O MDB vinha de trem. Agora, tomamos o avião. O Brasil precisa de um projeto político que comece por batizar a criança: se é uma democracia, então vamos ter uma democracia. Navegar é preciso. Viver não é preciso".
GEISEL
Em 75, na TV, Geisel atacou a oposição. Já havia resposta. Ulysses chamou Geisel de Idi Amin, ditador de Uganda: - "A oposição não irá importar o modelo adotado por Idi Amin Dada, o governo da força".
Em 79, veio, teve que vir, a anistia. Em 82, voltaram, tiveram que voltar, as eleições diretas para governador (o MDB ganhou em nove estados, sobretudo Montoro em São Paulo e Tancredo em Minas, e o PDT no Rio).
E a campanha das Diretas-Já, a partir de 83, incendiou o país. No comando, indisputável, o "Senhor-Diretas", Ulysses. Derrotadas as Diretas na Câmara em 25 de abril de 84, a candidatura de Tancredo no Colégio Eleitoral tornou-se irreversível, mais uma vez sob o comando de Ulysses, nas ruas.
Tancredo deixou o governo de Minas em agosto e, aliado à dissidência liberal do PDS, chefiada pelo bravo e correto Aureliano Chaves, foi eleito em 15 de janeiro de 85, com o ex-presidente da Arena e do PDS, Sarney, na vice.
SARNEY
Em março, Sarney comandou, no Senado, uma sessão solene para celebrar os 20 anos do fim da ditadura, com a posse dele na presidência da República, em lugar de Tancredo. Tudo bem, mas sem cortar Ulysses da foto.
Sarney não precisa disso. Deus lhe deu demais, cobriu-o com as mais generosas de suas bondades. Começou ganhando um apelido charmoso para um nome banal. Escritor de sucesso, fez, desde cedo, aos 24 anos, uma carreira política de foguete, como genuflexo sacristão da ditadura, para acabar, em um velório, como primeiro e dedicado presidente da re-democracia.
Sarney não precisava, não devia, não podia fazer o que fez, raspando veladamente de 85 o grande general da batalha da redemocratização, Ulysses.
Sarney sabe mais do que ninguém que só houve 85 porque houve Ulysses.
TANCREDO
A tesourada disfarçada, mas inequívoca e historicamente repulsiva na biografia de Ulysses, levou a um escárnio histórico, que Hélio Fernandes queimou em brasa: Antonio Carlos, Marco Maciel, Jorge Bornhausen, desfilando na passarela como Giseles Bunchen da resistência à ditadura.
Em 84, vendo a vitória inevitável de Tancredo, eles compuseram a pequena dissidência do PDS articulada por Aureliano e Tancredo, que virou a Frente Liberal, mas não a ponto de permitir que o Globo chame "o PMDB de Ulysses o outro lado (sic) da aliança que permitiu a vitória de Tancredo".
A resistência política à ditadura teve nome: Ulysses Guimarães.
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