Alcançado pelo blog no interior de São Paulo, onde faz campanha para tentar reeleger-se para a Câmara, o presidente do PMDB, deputado Michel Temer, admitiu pela primeira vez que seu partido pode cindir-se em dois. “É preciso dar uma solução para essa divisão permanente. Ainda que seja a divisão em definitivo. Melhor ter um partido menor, mas numa única direção, do que um partido grande e dividido, que não é nem sequer levado a sério. Depois da eleição pode acontecer isso”.
A hipótese de criar uma nova legenda ganhou corpo nos últimos dias nos diálogos travados nos subterrâneos do Congresso. Por isso o blog discou para Temer. “Nesses dias que estive em Brasília, ouvi muito essa história de gente querendo criar um novo partido”, reconheceu Temer. “Não acho improvável que a idéia prolifere. Vai depender muito do resultado das eleições.”
Temer informou que, abertas as urnas, vai procurar os governadores e as lideranças eleitas pelo partido. Tentará conciliar os interesses das duas alas que disputam a hegemonia no PMDB, o grupo governista, liderado pelos senadores Renan Calheiros (AL) e José Sarney (AL), e o naco oposicionista.
“Hoje, os peemedebistas estão muito conscientes de que não vale mais a pena manter o PMDB nessa posição dividida”, disse Temer. Defenderá o seguinte: “Ou o PMDB vai inteiro para o governo que se instale ou fica inteiramente na oposição. Se continuar como está, dividido, o partido vai se desfigurar de uma vez”.
Segundo o raciocínio de Temer, “não adianta ao presidente eleito levar uma parte do PMDB para o governo e outra parte ficar na oposição. Manter a coisa como está não dá mais. Eu não me disponho mais a isso”. E quem ficaria com a legenda do PMDB caso a desunião conduza à formação de um novo partido? “Isso vai depender muito do resultado das eleições e das consultas que nós fizermos”, respondeu Temer.
Na opinião do deputado, o próximo presidente da República, seja Lula ou Geraldo Alckmin, “não vai querer um PMDB fragmentado. Isso será um transtorno para o governo. Como foi nesta legislatura”.
Rememorando o passado recente, Temer disse que é preciso “fazer Justiça ao José Dirceu”. Lembrou que, em dezembro de 2002, antes da posse de um Lula recém-eleito, o futuro chefe da Casa Civil o procurou para negociar a participação do PMDB no governo que se instalaria no mês seguinte. Acertou-se que o partido ocuparia “três setores do governo”: os ministérios das Minas e Energia e da Integração Nacional e uma terceira pasta, a ser definida.
Temer chegou a entregar duas listas tríplices, para que Lula extraísse delas os nomes dos ministros do PMDB. Para a pasta das Minas e Energia, foram indicados os senadores Hélio Costa, Pedro Simon e Amir Lando. Para a da Integração Nacional, os deputados Eunício Oliveira, Nilton Montes e Paulo Lima.
Na noite do mesmo dia em que Dirceu tricotou o acordo com Temer, Lula anunciou o seu primeiro ministério. Não havia na lista nenhum peemedebista. Na manhã seguinte, Dirceu telefonou para Temer, desculpando-se. O deputado lamentou que o interlocutor houvesse sido desautorizado.
Depois, no curso do governo, Lula viu-se compelido a servir-se de quadros peemedebistas para recompor sua equipe. Mas o fez de modo fragmentário, estimulando a divisão do “aliado”. Hoje, na bica de obter um segundo mandato, o presidente prega o estabelecimento de uma coalizão com o PMDB. A mesma que desautorizara em 2002.
(Lúcio Távora – Folha)