O MÊS DOS GRANDES PUNHAIS
Brasília - Horácio Carvalho, elegante, simpático, patrão civilizado, casado com Lily Carvalho, depois Lily Marinho, comandava o "Diário Carioca" com J.E. de Macedo Soares, inimigo de Vargas, articulista valente e primoroso, "príncipe dos jornalistas brasileiros", que o fundou em 1928.
Juscelino disse a Délio Matos, diretor financeiro do "Diário Carioca":
- "Devo a esse homem (Horácio) o governo de Minas e o da República"
Em 50, Juscelino queria ser governador de Minas, mas o fiel da balança política de Minas, o PR (Partido Republicano) do velho Artur Bernardes, estava aliado com a UDN, que em janeiro de 1947 elegeu Milton Campos governador e Artur Bernardes Filho, senador, derrotando Benedito Valadares.
Horácio Carvalho, amigo de Bernardes Filho desde a Europa, para onde foi deportado por Vargas depois do golpe de 37, costurou o apoio do PR mineiro a Juscelino para governador, indicando Clovis Salgado para vice.
Juscelino se elegeu e cumpriu fielmente a participação do PR no governo.
JANGO
Em 54, depois do suicídio de Vargas, numa conversa com Horácio, no Rio, João Goulart lhe disse que estava indo ao Rio Grande convidar Osvaldo Aranha para candidato do PTB à Presidência da República. Horácio reagiu:
- Então você, como político do Rio Grande do Sul, estará liquidado, porque a liderança gaúcha será do Aranha. Por que você não se liga a JK?
- Não tenho a menor intimidade com o governador Juscelino.
- Ora, Jango, podemos marcar um encontro de você com ele. Vou ligar para Belo Horizonte e perguntar se Juscelino pode vir para cá imediatamente.
JUSCELINO
Horácio ligou, JK foi ao Rio e acertaram a dobradinha do PSD com o PTB e Jango para vice-presidente, que garantiu a vitória dos dois. JK deixou uma carta com Horácio, autorizando-o a compor com Jango o ministério que caberia ao PTB. Depois, ofereceu o ministério da Agricultura ou a embaixada de Paris a Horácio, que recusou ambos:
- Embaixada é cargo para gente rica.
Em 55, na hora de JK renunciar ao governo de Minas para ser candidato a presidente, só podia fazer com a retaguarda tranqüila e segura. Mais uma vez Horácio e Bernardes asseguraram o PR, com Clovis Salgado assumindo o governo e sustentando o apoio de Minas a JK, inclusive militarmente, na tentativa do golpe udenista de 11 de novembro para negar posse a Juscelino.
MINAS
Como relembrava, dias atrás, na Internet, o Paulo Nassif, tempo houve em que a política de Minas era assim. Compromisso assumido, compromisso cumprido. Não só em Minas, mas também na maioria do país. Hoje, é o despudorado balé das traições, a permanente noite dos grandes punhais.
Não se fala em outra coisa aqui em Brasília, neste último mês da campanha eleitoral. Estado por Estado, cada um tem sua história mais rascante. E não se trata apenas de alianças distantes ou interpartidárias de repente rompidas. O que se vê, quase na totalidade, são partidos bichados como goiabas podres, cada qual correndo para um lado, faturando conveniências.
Já não se pergunta com quem alguém está, mas com quem não está mais e com quem passou a se aliar. A política brasileira virou casa de sexo múltiplo. Talvez por isso se diz que o Palocci voltará com grande votação. Ele se fez um símbolo, o ministro da Casa dos Amores vespertinos misturados.
AÉCIO
Impossível saber onde terminarão esta campanha os líderes dos quatro grandes partidos: PMDB, PSDB, PFL, PT. O que deles se revela aqui em Brasília são catecismos de maus costumes políticos e partidários. Estão com todos e com ninguém. Fazem todo tipo de acordos, seja com quem for, qualquer que seja o preço a pagar. O partido que se partilhe. Ou que se dane.
O rei da cocada preta da infidelidade partidária e do streep-tease político é o jovem e tão envelhecido governador Aécio Neves, de Minas. Os mineiros, aqui, hereditariamente discretos, já não se contêm: - Aécio desmineirou.
A última que se conta dele aqui é que está apoiando calorosamente, por baixo do pano e das mesas, o notório Newton Cardoso para senador, em troca da recompensa negociada de ter o PMDB de Minas comandando sua unânime e apoteótica entrada no partido, para a candidatura presidencial de 2010.
Não muito diferente do que está fazendo José Serra em São Paulo e do que já fez Tasso Jereissati no Ceará, com a candidatura do traído Alkmin.
GLOBO
Até que enfim algum sócio contou, oficialmente, o milagre do Grupo Globo. A "Folha de S. Paulo", sócia do "Globo" no "Valor" (o jornal que só vale quanto pesa) e associada no rendoso negócio das pesquisas da campanha eleitoral presidencial, confirmando o que já escrevi aqui, publicou anteontem: - "De acordo com relatório da "Globo", sua dívida total, que era de US$ 2,2 bilhões (correspondente a R$ 4 bilhões e 840 milhões) em 2004, cairá para US$ 632 milhões em 2 de outubro próximo".
Em dois anos, a "Globo" teve lucro líquido e pagou dívidas de US$ 1,568 bilhão. Está explicada a paixão Marinha por Lula e sua reeleição.
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