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4 de setembro de 2006
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Franklin Douglas (*)

Quem inventa defunto para ganhar eleição não manipula pesquisa de opinião?

“O maior eleitor das eleições é a pesquisa. Ela desperta a visão de qualidades dos concorrentes, provoca ondas de adesão e conduz o eleitorado indeciso a uma decisão que, pela dinâmica das coisas, tende para votar no vencedor”. Nestas palavras, José Sarney expressa claramente o entendimento que tem sobre as pesquisas eleitorais. Publicou esta opinião em seu jornal – O Estado do Maranhão, no dia 14 de agosto de 1994, na Coluna do Sarney.

Em seu artigo “O lado oculto das pesquisas”, Sarney revela a sua astúcia em “bem” utilizar as pesquisas. Elas servem para legitimar a votação, mas também manipulações. No caso, bem orquestradas pela oligarquia maranhense. Essa “estratégia” foi bastante usada em 1994. Repete-se agora, em 2006. E, neste intuito, para Sarney os fins justificam os meios.

Justifica, para ganhar uma eleição, inventar um defunto. Justifica, para vencer um pleito, manipular pesquisa de opinião. E, em 1994, Sarney usou e abusou destas duas regras. Construiu, nas palavras do então candidato das oposições – Epitácio Cafeteira – a verdadeira “fraude psicológica”.

É esta fraude que o sarneyzismo busca repetir em 2006. Pesquisas que atribuem votos. Supostos votos que justificam liderança nas pesquisas. Liderança nas pesquisas que justificam mais votos. Mais votos que justificam crescimento e, por fim, vitória eleitoral...

Em 1994, o IBOPE se prestou a este serviço, tal como atualmente. No primeiro turno daquelas eleições, o IBOPE realizou cinco sondagens. O jornal O Estado do Maranhão repercutia os resultados da pesquisa com euforia, tal como hoje.

Atente, caro(a) leitor(a), aos prognósticos do IBOPE para aquelas eleições de 1994, registradas nas capas d´O Estado do Maranhão:

1ª pesquisa – em 12 de agosto de 94: “Roseana dispara na corrida às urnas – Ibope revela que a candidata da Frente Popular pode vencer no primeiro turno”. O Ibope dava a Roseana 47% dos votos, contra 32% para Cafeteira e 10% para Jackson;

2ª pesquisa – em 26 de agosto de 94: “IBOPE: Roseana sobe, Cafeteira desaba”. O instituto de pesquisa projetava 50% dos votos para Roseana, contra 24% para Cafeteira e 11% para Jackson;

3ª pesquisa – em 09 de setembro de 94: “Roseana vence no primeiro turno, diz Ibope”. Roseana obteria 50% dos votos. Cafeteira, 26%. Jackson, 9%;

4ª pesquisa – em 23 de setembro de 94: “IBOPE: dá Roseana no primeiro turno”. Roseana ficaria com 51%, enquanto Cafeteira com 26% e Jackson com 10%.

5ª pesquisa (a de boca-de-urna) – em 04 de outubro de 94: “IBOPE faz pesquisa de boca-de-urna e aponta vitória de Roseana Sarney”. Eleição decidida no primeiro turno ficando Roseana com 40% dos votos e Cafeteira com 22% e Jackson com 13%.

Não faltou, ainda, a Econométrica para apontar 57% dos votos para Roseana, às vésperas das eleições: “Econométrica dá vitória a Roseana” (OEST-02/10/1994-capa).

Mas, qual foi o resultado mesmo do primeiro turno das eleições de 1994? Para desespero de Roseana (“ ‘Segundo turno não me perturba’, diz Roseana” – OEST-09/10/1994), o TRE totalizava os votos da eleição com um resultado que nenhuma pesquisa do IBOPE ou da Econométrica anteriormente divulgara: segundo turno!

Roseana teria que enfrentar Cafeteira, tendo contra si mais de 52% de votos: a soma dos votos dados a Cafeteira - 30,79%, Jackson - 20,79% (que nas pesquisas nunca superara os 11%!!) e Francisco das Chagas (PSTU) – 1,83%. Para ganhar a eleição, Roseana precisava de um milagre. Foi mais fácil para Sarney inventar um defunto...

E assim surge Reis Pacheco, o ferroviário que, segundo Sarney, teria sido assassinado a mando de Cafeteira: “O que se sabe é o que não se sabe. Reis Pacheco foi expulso do Maranhão. É o método de Cafeteira: a algema ou a desova!”, sentenciaria Sarney em sua Coluna do Sarney, n´O Estado do Maranhão de 06 de novembro de 1994.

Sem deixar dúvidas em suas conclusões, Sarney registraria em seu artigo dominical: “A mim, quando fui dar pêsame pela morte de Hilton Rodrigues, Cafeteira me disse: ‘Esse homem, que bateu no carro do Hilton, só matando’ (...) Cafeteira é ódio. Um homem de vingança (...) Ele não pode falar em liberdade sem dizer o que ocorreu com Reis Pacheco” (Coluna do Sarney - OEST-06/11/94).

Acontece que o que ocorreu com Reis Pacheco é que ele, ao contrário do que inventara Sarney, estava vivo. Fora encontrado no interior do Pará. Mas sem tempo de, no horário eleitoral de Cafeteira, desfazer a mentira. A certidão de óbito estava sacramentada pela mídia sarneyzista e a oposição sem possibilidades de dar conhecimento ao povo maranhense. Estranhamente faltou luz na maioria dos municípios do interior do Estado onde havia repetidora de televisão para retransmitir o programa eleitoral. Exatamente no último dia do horário eleitoral gratuito, onde Reis Pacheco era apresentado no programa de Cafeteira: vivo! Vivinho da Silva, como se diz no popular!!

No segundo turno das eleições de 1994, a continuidade da denúncia em torno da chamada “Operação Granville” e o Caso Reis Pacheco foram os dois elementos motivadores do que Cafeteira denominaria “fraude psicológica”. Fraude esta que, inclusive, seria obstáculo ao próprio Cafeteira (49,4% dos votos) para não pedir a recontagem eleitoral de uma duvidosa vitória eleitoral de Roseana (50,6%), em 1994. A diferença foi de mínimos 18.060 votos – 1,2% dos votos.

Nesta etapa da campanha de 94, as pesquisas – por que demonstravam a vitória de Cafeteira – praticamente foram esquecidas pelo jornal da família Sarney. O Estado do Maranhão somente tocaria em pesquisa Ibope no dia 15 de novembro 94 (dia da eleição), para anunciar uma suposta virada de Roseana. Isto num esquisito gráfico onde Roseana sairia de 39% para 44% das intenções de votos, com uma seta para cima ilustrando o seu crescimento superior a estimativa dada a Cafeteira. Este com uma seta para baixo lhe atribuindo menos intenções de votos que Roseana: 45% (!?). Pela primeira vez na história da matemática o número 44 era maior que 45.

E assim Sarney inventou um defunto e manipulou pesquisas para ganhar a eleição de 1994. Nestas eleições de 2006 só não apareceu defunto, ainda... Por isso, é preciso muita atenção dos eleitores e eleitoras.

Isto porque, como diz o próprio Sarney, “O primeiro político que teve a visão realista das pesquisas de opinião pública e a utilizou de modo cruel e cínico foi, sem dúvida, o generalíssimo Franco, quando lhe perguntaram por que não fazia eleições na Espanha. Respondeu friamente: ‘Para quê? Gastar dinheiro? Se eu mando fazer pesquisas mensalmente e o resultado delas diz que o povo está ao meu lado, as eleições são desnecessárias” (O Estado do Maranhão - 14/11/1994. Coluna do Sarney).

Pelo visto, Sarney – inspirado no espanhol Franco – está pensando que, no Maranhão de 2006, seja melhor empossar logo Roseana no governo. Afinal, para que eleição se ela vence em todas as pesquisas de opinião?

A oligarquia Sarney pode inventar defunto, manipular pesquisa de opinião, mas agora não adiantará: a democracia e liberdade prevalecerão!

(*) Jornalista e professor da UFMA, é secretário geral do PT/MA. franklindouglas@elo.com.br

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