Tratamento da insônia agora engloba depressãopatricia_bogea@hotmail.com
70% da população tem insônia em algum momento da vida, podendo ser aguda ou crônica e se manifestar de diferentes maneiras
CONSTANÇA TATSCH
Os médicos do sono tratam a insônia, cada vez mais, juntamente com a depressão. Segundo especialistas, as doenças estão fortemente ligadas.
Com isso, médicos que assumem casos crônicos estão alertas para uma depressão preexistente, em que a insônia surge como um sintoma, ou para a possibilidade de o quadro depressivo se instalar após algum tempo, como conseqüência. Cerca de 90% dos casos de depressão apresentam insônia crônica associada.
“É um novo conceito. Isso guia a prática clínica e a pesquisa. A ligação é muito forte entre depressão e insônia. É uma via de mão dupla, um fenômeno simultâneo”, explica Flávio Alóe, do Centro para os Estudos do Sono do Hospital das Clínicas.
Geralmente, a insônia começa antes da depressão, continua e termina depois. Quando o insone chega sem o problema, entre 6 e 12 meses depois, a doença se instala.
Os medicamentos também seguem essa linha de conduta. O consumo de antidepressivos com efeitos sedativos estão crescendo mais de 100%, de acordo com Dalva Poyares, neurologista e coordenadora do Instituto do Sono da Unifesp. “Essa é a última moda. Nos próximos anos vai ter uma chuva de antidepressivo-sedativo. Sabe-se que a depressão faz parte da evolução da insônia”, diz.
A outra opção é combinar um hipnótico com um antidepressivo. Para Flávio Alóe, essa é a melhor solução. “A pessoa toma um antidepressivo potente e, se tiver insônia, toma dois remédios. Os dois em um, não são nem um antidepressivo forte, nem um hipnótico seguro”. O médico diz ainda que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) está ficando cada vez mais rigorosa, exigindo remédios com um fim específico. Independente da solução, a maior preocupação dos médicos e da indústria é apostar em medicamentos seguros, com menos efeitos colaterais.
Acredita-se que 70% da população tenha insônia em algum momento da vida. A doença pode manifestar-se na forma aguda, causada por algum problema pontual como morte de um familiar ou perda do emprego, ou na fase crônica que os sintomas permanecem por muito tempo. Ela também pode ser inicial, quando a pessoa demora para dormir, de manutenção, quando acorda e tem dificuldade em cair no sono novamente, e terminal, quando acorda antes do desejado. “Algumas pessoas têm a insônia psicofisiológica, quando as causas são psicológicas, como hábitos errados”, afirma Geraldo Lorenzi, coordenador do Laboratório do Sono do Incor. Elas têm um nível de alerta elevado, por isso são mais sensíveis aos hábitos que podem interferir no sono, como ter horários regulares, fazer refeições leves e evitar exercício físico à noite, não ingerir muita cafeína ou bebida alcoólica nem fumar demais e ter um ambiente adaptado ao sono (escuro sem televisão), também é desaconselhável ficar rolando na cama.
Segundo Lorenzi, não se deve tratar a insônia como ‘uma besteirinha’. É necessário acompanhamento médico e o tratamento vai depender da causa do problema.
Os remédios para tratar a insônia, possuem efeitos colaterais que vão da dependência ao aumento de peso. “Muitas pessoas são prisioneiras dos remédios para dormir”. A declaração do coordenador do Laboratório do Sono do Instituto do Coração do HC, Geraldo Lorenzi, revela o perigo da automedicação.
Antidepressivos ou hipnóticos possuem efeitos colaterais que precisam ser observados. Também é fundamental ter orientação especializada para saber qual tipo é adequado.
Os hipnóticos podem causar dependência, gerando até mesmo pequenas crises de abstinência. Outro problema é a tolerância, quando deixa de fazer efeito no organismo.
Já os antidepressivos, considerados mais seguros, podem causar aumento do apetite, diminuição na libido, sedação, alterações de pressão e náuseas.
“Com certeza, muita gente toma [remédio sem orientação]. Tecnicamente é proibido, mas, na prática, as pessoas conseguem”, diz Lorenzi.
Existem cerca de 20 sais compatíveis com o tratamento da insônia no país. O consumo de remédios para dormir fica atrás apenas de antiinflamatórios e de cardiovasculares.
Ainda assim, a situação está melhorando, com medicamentos que podem ser tomados a longo prazo.
Tomo antidepressivo e me sinto melhor para dormir
Depoimento
Acho que tenho insônia desde menina, mas não me dava conta. Depois que já estava adulta, casada, com filho adolescente, ficava muito preocupada com a hora em que eles chegavam à noite. Foi piorando e há um ano fui procurar ajuda médica.
O médico chegou à conclusão de que eu não tenho nada físico, e que é meu estado emocional. Sou uma pessoa muito sensível, tudo é motivo para eu ficar magoada, preocupada, ansiosa, e, isso somado, me causa insônia.
Demorava para dormir, acordava muitas vezes e demorava para pegar no sono novamente. Dormia quatro horas, picadinho. De manhã, queria dormir e tinha que levantar. Ficava muito irritada. Você vai ficando nervosa.
Estou tomando remédio há um ano, um antidepressivo, e estou bem melhor. Não sei se ele dá sono, sei que me sinto melhor para dormir. Não estou 100%, mas 75% melhor.
Com o remédio, acho que ganhei um pouco de peso, mas foi só isso. Ainda acordo no meio da noite, mas estou tentando educar minha cabeça, ir para a cama e desligar.
O médico recomendou terapia e vou começar semana que vem. Se não estivesse sendo ajudada por profissionais, estaria muito ruim.
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