O DINHEIRO DE GETULIO
MACEIÓ – Seu Calazans, dono do hotel Calazans, era o homem mais rico de Penedo, aqui em Alagoas. Na campanha eleitoral de 1950, Getulio ficou hospedado lá. Depois do comício, o povo queria chegar perto dele, falar com ele, pedir dinheiro.
O senador Hidelbrando Falcão, chefe político de Penedo, resolveu afastar o povo dali, para Getulio poder dormir :
- Minha gente, o doutor Getulio está muito cansado, a campanha exige muito dele, precisa repousar. E não está direito vocês pedirem dinheiro a ele. Fiquem tranqüilos que amanhã, logo que ele viajar, Seu Calazans distribuirá um dinheiro que ele vai deixar para vocês.
Uma semana depois, Seu Calazans teve vir passar uma temporada em Maceió. Ninguém conseguiu convencer o povo de que ele não tinha ficado com o dinheiro que Getulio tinha deixado para ele distribuir.
PESQUISAS E TVS
O Congresso e a Justiça Eleitoral fizeram uma reforma eleitoral fajuta, alegando que era preciso diminuir o custo das campanhas. Na verdade, o que fizeram foi tomar do povo o pouco que seria gasto com ele e entregar as campanhas aos institutos de pesquisas, às televisões e às empresas de aluguel de automóveis.
Mataram os comícios e, com eles, acabaram com os cantores e bandas animadores de comícios, acabaram com os foguetes dos comícios, acabaram com as festas populares dos comícios, as quermesses dos comícios, as comidilhas dos comícios, as camisetas e bonés dos comícios. E sobretudo acabaram com os discursos e apartes dos bêbados de comícios.
E concentraram as campanhas nas televisões, nas pesquisas compradas pelas televisões e nas carreatas de centenas de automóveis. Ficou tudo mais caro, muitíssimo mais caro. E sem que os candidatos tenham, como reunir o povo para falar com ele, discutir coisas e programas.
CHUSRRASCARIA
Quanto milhões escondidos custaram os “acordos” das televisões com os institutos de pesquisas? Houve candidatos atrás desses misteriosos “acordos”? Quem tem “bala” se arranja e negocia. Quem não tem se isola e se ferra. Nunca se viu o que vimos nesta campanha. Três vezes por semana, as televisões, sobretudo a Globo, apresentavam a churrascaria eleitoral.
Eram rodízios de pesquisas, dia sim dia não, em todos os jornais de televisão,que no dia seguinte viravam manchetes em todos os jornais. E dizendo e repetindo sempre a mesma coisa :
- Lula ganha a eleição no primeiro turno.
Claro. Presidente, há quatro anos toda noite nos jornais de televisão, é evidente que Lula saiu na frente. E o rodízio de ´pesquisas foi tramado, montado e financiado exatamente para isso. Para dar ao povo a impressão de que a eleição já estava decidida desde sempre e era só votar em Lula.
CADASTRO
Mas não é só. Descobri, aqui em Alagoas, o resultado mais gritante e criminoso dessa “reforma eleitoral” feita pelo Congresso e a Justiça Eleitoral. É o “cadastro”. Você sabe o que é o “cadastro”? Já tinha ouvido falar no “cadastro”? Eu nunca. Aqui ficou comum como pão de padaria.
O cabo eleitoral, qualquer que ele seja, do mais poderoso ao de esquina, faz um caderno com os nomes dos eleitores que ele controla ou diz controlar, com endereço, local de trabalho, numero da carteira de identidade e sobretudo do titulo de eleitor, e vende ao candidato.
Aqui, cada eleitor no “cadastro” custa de R$30 a R$50. Há quem venda 100, 200, 500, mil, 5 mil eleitores. Tudo no “cadastro”. O candidato compra, paga e recebe um documento garantindo que os votos vão sair.
CAMISETA
Candidatos a deputado federal estadual e mesmo a senador e governador compram os “cadastros” e é sobre eles que fazem o cálculo dos votos que vão ter ou poderão ter. A conversa é de todo instante :
- Fulano está eleito. Tem tantos votos em tantos “cadastros”. Ou : fulano ainda está lutando muito para fechar alguns “cadastros”. Se fechar, vai ser eleito. Se não tiver dinheiro para fechar tudo, não tem jeito.
A Justiça Eleitoral, os Tribunais Regionais Eleitorais, que sabem de tudo, não dizem nada. Mas se um pobre diabo de canto de favela conseguir dez camisetas com o nome de um candidato, vai ser enquadrado e seu candidato também. A camiseta é o crime. O “cadastro” é o cinismo.
E a camiseta ou o boné, de norte a sul do pais, sempre foram a roupa de festa dos pobres, dos miseráveis, para irem aos comicios ver e ouvir seus cantores populares e também ver e ouvir seus candidatos.
DEMOCRACIA
A batalha pela pureza do voto e pela transparência das eleições é uma guerra fundamental da democracia brasileira. Enquanto o dinheiro não deixar de comprar eleição, não teremos democracia assegurada.
Mas o primeiro passo é impedir que o Congresso e a Justiça Eleitoral
finjam estar defendendo o voto livre e não corrompido, atacando apenas a distribuição de qualquer brinde aos eleitores pobres, enquanto liberam os “cadastros”, os rodisios de pesquisas e a farra do noticiário dirigido, comandado, negociado pelos institutos de pesquisas e as Tvs.
Quem tem dinheiro negocia a eleição nas barbas do Congresso e da Justiça Eleitoral. E cada dia mais só os ricos poderão ganhar eleição.
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