Cristina Almeida chama Sarney de covarde e senador desdenha da possível derrotaFolha de São Paulo entrevista candidatos a senador pelo Amapá
Continua repercutindo na chamada “grande imprensa” o risco que o ex-presidente José Sarney corre de não se reeleger senador pelo Amapá. Ontem, o fenômeno Cristina Almeida, que ameaça a reeleição do todo poderoso Sarney, foi abordada em matéria do jornal Folha de São Paulo, assinada pela jornalista Eliana Cantanhede. Os dois candidatos falaram à Folha por telefone.
Intitulada “Ex-policial ameaça reeleição de Sarney”, a matéria fala de uma mulher negra, ex-policial militar e pela primeira vez concorrendo a uma eleição, que “ganha notoriedade nacional ao ameaçar a reeleição de um dos grandes caciques políticos do país, o ex-presidente José Sarney (PMDB)”.
“Ele já foi deputado, governador, presidente (1985-1990) e disputa o terceiro mandato de senador pelo Estado, função que exerce há 16 anos (eleito em 1990 e 1998), apesar de ter nascido e construído sua carreira no Maranhão”, escreveu Eliane Cantanhede. Para completar: “Em maio, o Ibope dava 50 pontos de vantagem a Sarney. Ele tinha 58%, e ela, 8%. Mas, nas últimas rodadas, a diferença era de 7 pontos (47% contra 40%). O ex-presidente enfrenta 37% de rejeição, resultado de campanha de Cristina, que se refere ao maranhense como forasteiro, delicia-se com um site chamado Sarneyinternet e provoca, ironicamente: que o Maranhão tem quatro senadores e o Amapá só dois?
Cada Estado tem três senadores. Ao deixar o Planalto, Sarney foi disputar pelo Amapá, onde não tinha inimigos e teria uma eleição mais fácil.
A Folha ouviu os dois candidatos por telefone, em conversas separadas e gravadas.
Sarney é do PMDB, concorre numa coligação de sete partidos e diz que nunca se sentiu tão jovem e tão animado, desdenhando a possibilidade de derrota como sai na mídia nacional
Para Cristina, do PSB, que concorre numa chapa puro sangue (de um só partido), Sarney só se preocupa com o Maranhão: E é um covarde, acusa, referindo-se às investidas da coligação do adversário contra a imprensa e contra sites da internet.
AS ENTREVISTAS
Cristina Almeida:
“Sarney é um covarde”
FOLHA - Quem é a senhora?
CRISTINA ALMEIDA - Sou filha de agricultores do município de Itaubal, tenho sete irmãos e mais seis adotivos. Sou uma das menores, já nasci em Macapá. Sempre estudei em escola pública. Me formei em administração em Belém, voltei, fiz o primeiro concurso que apareceu e passei, virei policial militar em 1989. Depois, fiz outro concurso, larguei a farda e hoje sou administradora legislativa da Assembléia Legislativa.
FOLHA - É sua primeira eleição?
CRISTINA - É, é a primeira vez que concorro, mas sou militante do PSB há mais de seis anos e sempre assessorei políticos. Fui logo para um cargo majoritário porque sempre me angustiei, como amapaense, em saber que todas as unidades da Federação têm três senadores, menos o meu Estado. O Maranhão tem quatro senadores, e o Amapá, dois. A seção feminina do meu partido foi muito atuante, me escolheu, e o partido decidiu lançar um candidato majoritário do sexo masculino, para o governo, e outro do sexo feminino, para o Senado, que fui eu. Foi o grande motivo.
FOLHA - Não é uma disputa inglória, contra um ex-presidente?
CRISTINA - Estou muito confiante desde o início, porque comecei a perceber um crescimento muito rápido, que me deu estímulo dentro e fora do partido. E um fator muito importante é o índice de rejeição do meu adversário, porque ele, em vez de trazer benefícios para cá, leva para o Maranhão.
FOLHA - Não é o que ele diz. E a universidade federal, a ponte binacional, a energia elétrica?
CRISTINA - A Universidade Federal do Amapá já existe há 16 anos, mas nós só temos 14 cursos de graduação, e dois são recentes, porque um senador que está há anos lá em Brasília só conseguiu ampliar dois cursos. Por que não ampliar um curso por ano? Nós somos um dos Estados mais preservados do Norte, mas cadê um curso de engenharia florestal? Temos muito minério, cadê o curso de geologia? Cadê o curso de medicina? No Estado de Roraima, criado no mesmo dia do Amapá, eles têm uns 30 cursos. E eles não tiveram um ex-presidente lá. Nós somos um Estado isolado, onde você só entra e sai de navio ou de avião. Isso dificulta muito a vinda de indústrias para cá. Nós precisamos de um porto de grande porte. Você acredita nisso? Tudo vai para o Maranhão.
FOLHA - Daí esse movimento “Xô, Sarney” na internet?
CRISTINA - Quando as pessoas dizem isso, “fora Sarney”, “volta pra casa”, principalmente nos comícios, eu critico e digo o contrário: “Não, o Sarney nunca veio aqui, ele já é de fora”. Queremos é respeito ao Estado.
FOLHA - Seus ídolos na política?
CRISTINA - Na política nacional, sempre tive o sonho de colocar o Lula na Presidência. Como mulher guerreira da Amazônia, temos a Marina Silva, e aqui no Estado temos o nosso grande líder que é o João Capiberibe, candidato a governador.
FOLHA - O Sarney é um dos aliados mais de Lula em Brasília. Como é que vocês dividem o Lula no Estado?
CRISTINA - O partido recebeu aqui no Amapá o coordenador geral da campanha do Lula para a região Norte, o governador do Acre, Jorge Viana, que veio prestar apoio ao nosso palanque. A gente entendeu a mensagem. Acho que o Lula não teve outra alternativa, mesmo sabendo de toda a trajetória do meu adversário. Só tenho a lamentar esse apoio do Lula a ele.
FOLHA - Essa crise do dossiê está interferindo no Amapá?
CRISTINA - É impressionante como isso não chega aqui. Não conseguem enxergar o Lula metido nisso. Aqui, não afeta.
FOLHA - Como define Sarney?
CRISTINA - Acho ele covarde pelo que tem feito no nosso Estado, impedindo que as pessoas se manifestem, decidam, escolham o que é melhor para elas.
Sarney:
Sou estimado no Amapá”
FOLHA - O sr. corre o risco de perder a eleição?
JOSÉ SARNEY - Nunca considerei essa hipótese. Se tivesse considerado, não teria me candidatado. Tenho uma posição muito boa aqui no Amapá, sou estimado, reconhecido pelo que tenho feito pelo Estado. Nem considerei essa hipótese nem é esse o clima aqui no Estado.
FOLHA - Por que a diferença entre o sr. e sua rival, Cristina Almeida, caiu para 7 pontos, segundo o Ibope?
SARNEY - Nunca a diferença foi de 50 pontos. Eu nunca tinha apoiado candidato a governador, minha candidatura era suprapartidária e, agora, apóio um candidato a governador. Então, a tendência é de uma polarização e a minha votação acompanhar a do governador.
FOLHA - Por que se refere abstratamente ao candidato a governador, sem citar o nome?
SARNEY - Porque é abstrato. Das outras vezes, não tive candidato a governador e agora tenho. O nome é Waldez Goes e apóio, é um homem que pacificou o Amapá, tem poder de conciliação das forças políticas e espírito de unidade. Isso é o que também, ao meu modo, tenho tentado preservar: ser do diálogo, avesso a brigas e rixas.
FOLHA - De onde vem essa rejeição de 37% ao sr., apontada pelo Ibope?
SARNEY - Não existe uma rejeição de 37%. Nas pesquisas, que temos acompanhado diariamente, nunca apareceu esse número de rejeição.
FOLHA - E o movimento “Xô SARNEY” que circula na internet?
SARNEY - É uma campanha montada pelos meus adversários daqui, mas não reflete o clima na cidade e no Estado, onde nunca as pessoas nem sequer tomaram conhecimento de que isso existe. Meus adversários têm gosto de fazer campanha para fora, não aqui para dentro.
FOLHA - Não é muito forte o discurso de que o Maranhão tem quatro senadores e o Amapá dois?
SARNEY - Essa discussão nunca existiu por aqui porque tenho dedicado meu mandato a trabalhar muito pelo Amapá. Criei a zona de livre comércio, o porto de contêineres, conseguimos investimentos para um parque energético grande, para distribuição de energia no Estado. Conseguimos recursos para as BRs e estamos chegando ao Oiapoque com estrada que interessa ao Brasil, pois liga à Panamericana. Quem fundou a Universidade do Amapá fui eu, quem conseguiu escola técnica para Macapá fui eu.
FOLHA - Por que o sr. está em guerra com a imprensa e a internet?
SARNEY - Esse clima que a imprensa nacional vem transmitindo não reflete as coisas aqui. Não acredito que a imprensa possa embarcar num equívoco desses. Não estou em guerra contra ninguém. Não tive nada a ver com isso [ataques a blogs locais]. Mantenho meu velho estilo de nunca processar jornalista. A coligação não sou eu, são sete partidos e ela toma iniciativas. Tem site “morte ao Sarney”, mas não tomo conhecimento. Se consultado, recomendo que deixem para lá.
FOLHA - O governador do Acre, Jorge Viana, é do PT. O sr. apóia Lula, mas o governador foi aí para apoiar a campanha da sua rival. Foi desleal?
SARNEY - Isso não teve a menor importância. Ninguém tomou conhecimento da passagem do Jorge por aqui, até mesmo porque o Jorge não é líder nacional nem é líder no Amapá.
FOLHA - A Cristina Almeida pode virar uma nova Marina Silva?
SARNEY - Ela não tem esse perfil, é uma funcionária da Assembléia, muito ligada ao senador Capiberibe. Foi secretária dele e agora é sua candidata, não tem o perfil da Marina.
FOLHA - A crise do dossiê interfere na eleição dos Estados? No Amapá?
SARNEY - Quero confessar: não estou acompanhando em profundidade porque estamos tão envolvidos na campanha, no Estado. Pelo que soube, é coisa grave e o governo tem que agir com dureza porque é lamentável que isso tenha ocorrido. A gente só pode ficar indignado.
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