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PolíticaA batalha da quilombola contra o coronel Sarney

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26 de setembro de 2006

Fernando França - Folha do Amapá

DEU NA FOLHA DO AMAPÁ

A Folha do Amapá abriu debate entre os dois candidatos ao Senado que polarizam estas eleições: Cristina Almeida (PSB) e José Sarney (PMDB), para que o leitor/eleitor conheça as idéias de cada um. Contatamos a assessoria de imprensa dos dois candidatos e colocamos o mesmo espaço para cada um, com perguntas na mesma linha. Apenas a candidata Cristina Almeida respondeu às perguntas, enviadas por e-mail. José Sarney não mandou resposta. As perguntas foram enviadas ao assessor de imprensa Cleber Barbosa, por meio do e-mail cleberassessor@uol.com.br.

Para manter o equilíbrio, publicamos as perguntas enviadas.

Aos 40 anos de idade, Cristina Almeida tornou-se num fenômeno eleitoral do Amapá. É a principal adversária de Sarney nas eleições deste ano. Casada, foi criada no Bairro do Laguinho, mas tem raízes na comunidade de Carmo do Macacoari. Em 1989, aprovada em concurso, passou a integrar a primeira turma de policiais femininas do ex-Território.

Formada em Administração de Empresas pela Universidade da Amazônia, foi aprovada em 1990 em concurso público para o quadro da Assembléia Legislativa do Amapá, de onde é funcionária até hoje. Militante do movimento negro, ajudou na fundação do Instituto de Mulheres Negras do Amapá. Foi secretária estadual de Indústria, Comércio e Minério entre 2001 e 2002. No ano seguinte assumiu a Secretaria de Meio Ambiente e Turismo do município de Macapá. Mas foi no Incra do Amapá, quando assumiu a superintendência regional entre 2003 e 2006, que Cristina Almeida comprou briga com autoridades do Estado. Por meio de um levantamento fundiário descobriu que terras públicas da União estavam sendo griladas por autoridades influentes no Estado, denunciando-os ao Ministério Público e à Polícia Federal. Estreante na política, ela aceitou o desafio de enfrentar José Sarney e se transformou no grande fenômeno e surpresa destas eleições. Em 75 dias ela deu uma reviravolta: cresceu de 3% para 40% e ameaça a reeleição de José Sarney.

Por que a senhora quer ser senadora do Amapá?

Desejo ser senadora pelo Amapá para lutar pelos interesses de todas as pessoas que moram no nosso Estado, e um dos motivos que me levou a mais esse desafio pelo meu partido (o PSB) é o de acreditar que nosso Estado precisa urgentemente manter o equilíbrio federativo. Todos os Estados têm direito a três senadores, mas o Amapá tem dois e o Maranhão tem quatro. E a ausência desse mandato no nosso Estado tem dado uma perda socioeconômica muito grande para o Amapá. E essa perda é irrecuperável. O que então vamos fazer daqui pra frente se o povo me conceder esse mandato? Vamos esquecer esse tempo e esse mandato que faltou para o Amapá e recomeçar tudo do zero. E se o Sarney fez alguma coisa isso ficou restrito a quatro anos. Então estamos com um atraso de doze anos que poderia ter acontecido muita coisa e não aconteceu.

O que a credencia para se candidatar ao cargo de senadora?

A primeira credencial que possuo é a minha naturalidade. Eu sou amapaense e me sinto no direito de defender os direitos do povo que mora no Amapá. Eu nasci aqui, me criei aqui, conheço a realidade do meu Estado e nesses anos acumulei experiência administrativa por onde passei. E é por isso que volto a reforçar: tenho sim como trabalhar muito mais pelo meu Estado. No mandato de senadora da República, com a experiência de gestora pública, vamos fazer muito. Pois na última experiência que tive dentro de um órgão público federal (ela foi superintendente regional do Incra do Amapá entre 2003 e 2006) mostrei que é preciso romper com as limitações que impediam nossa luta pelo povo. Acredito que precisamos estar no espaço de decisão de poder.

O seu principal adversário, José Sarney, é considerado uma pessoa muito influente no País. Isso, de alguma forma, lhe intimida?

Em nenhum momento. Muito pelo contrário. Essa influência que ele diz ao povo durante a campanha eu não vejo ele usar em benefício do Amapá. Ele não me intimida. Outro ponto que considero importante relatar é quanto ao fato das pessoas acharem que essa influência vem do cargo de presidente da República que ele exerceu, mas vale lembrar que o senador Sarney não foi eleito presidente pela vontade popular, e sim ocupou o cargo pela circunstância do falecimento de uma pessoa que o povo brasileiro acreditava que ia mudar o País, que foi Tancredo Neves.

O que a senhora fez pelo Amapá durante os cargos públicos que exerceu?

Contribuí muito como gerente geral de projetos da Secretaria de Indústria e Comércio do Amapá (Seicom), onde me tornei posteriormente secretária; no incentivo da agroindústria do Estado. Participei de um governo onde o governante era tido como inovador num tempo que o nosso Estado vivia uma realidade muito diferente da que vivemos hoje. Foi a partir de 1995, quando o Capiberibe assumiu, que passamos a desenvolver realmente o Amapá, buscando soluções voltadas para nossa vocação econômica e atrelada à realidade da região em que vivemos. Foi a partir daí que passamos a agregar valor aos nossos recursos naturais e eu contribuí nesse sentido, trabalhando na agroindustrialização no Amapá, valorizando os produtos locais desde o artesanato até as essências vegetais. Trabalhamos, inclusive, no setor do turismo porque na época o Departamento Estadual de Turismo era ligado a Seicom. Fui também secretaria municipal de Meio Ambiente, onde desenvolvemos vários projetos voltados para o setor ambiental. Lá fizemos um trabalho belíssimo de arborização e sinalização turística da cidade e esse projeto foi paralisado depois que deixei a secretaria. Vale ressaltar que eu tinha um desafio dentro da Semam que era o de pôr para funcionar o nosso Parque Zoobotânico. E no momento que íamos fechar um acordo com o Parque Zoobotânico do Estado do Pará, no dia em que o diretor daquele Parque vinha a Macapá assinar esse contrato, o prefeito de Macapá rompeu com o PSB e fui obrigada a entregar o cargo. Agora a experiência mais diferente de todas que já havia ocupado foi quando assumi a superintendência do Incra no Amapá e foi lá, dando seqüência ao trabalho iniciado pelo Cláudio Pinho, que fizemos fazer valer a reforma agrária no nosso Estado. Foi quando se entregou, em toda história do Amapá, o maior número de títulos definitivo de terras. Tivemos um trabalho reconhecido nacionalmente que foi o de regularização das áreas quilombolas do Amapá. Foi a primeira vez que se fez no Amapá um levantamento fundiário sobre a situação das terras públicas amapaenses. E essa era uma solicitação da Comissão Pastoral da Terra, que cobrava uma posição do Incra sobre a situação da grilagem de terras no Estado e nunca havia sido atendida. E eu fui a mulher que briguei pela legalidade e moralidade que deve envolver o setor fundiário do Amapá. A elite amapaense envolvida nas irregularidades pensava que fosse ser mais uma que ia ficar à frente do órgão. Levantamos todas as irregularidades existentes e encaminhamos ao Ministério Público e à Polícia Federal. Um outro avanço significativo na nossa administração diante do Incra está relacionado à moradia. A maioria dos candidatos promete resolver a questão da habitação e os conjuntos habitacionais financiados pelo Incra em assentamentos rurais eram geridos pelos próprios diretores do órgão. Eu mudei isso. Inverti a situação e coloquei nas mãos dos agricultores, através de cooperativas e associações, a gestão dos recursos destinados à construção de casas populares e dessa forma ajudamos a construir mais de 600 casas.

Ao que a senhora atribui o seu crescimento nas pesquisas, já que seu adversário foi eleito com folga nas duas eleições anteriores para o Senado?

Atribuo ao fato de eu ser amapaense. Outro ponto é que faço parte de um partido que tem a maior liderança política desse Estado, que se chama João Alberto Capiberibe. Outro fato que me levou a ganhar pontos nas pesquisas eleitorais é que o povo do Amapá, que mora aqui no Amapá, tem a consciência de que o Sarney não usa seu mandato a favor do Estado.

A senhora acredita que tem condições de bater Sarney nas urnas?

Não tenho a menor dúvida. Desde o início da campanha, embora os amigos me aconselhassem de que essa eleição seria difícil e eu nunca neguei isso e tenho consciência disso, eu sempre acreditei que é possível vencer essa eleição. A dificuldade vem da diferença da própria estrutura de nossas campanhas. A minha campanha está sendo feita somente com cartaz e santinho, nem bandeira eu tenho o suficiente para uma campanha. É possível sim tirar da vida pública, em respeito a nossa população, um oligarca que em 16 anos de mandato pouco veio ao Amapá. E quando ele visita o Estado já se sabe que só se reúne com a elite e nunca com o povo. Quando vem ao Estado ele só se reúne com aquelas pessoas que ele manipula, com aqueles que dependem dele para resolverem seus processos em Brasília.

O que a senhora encontrou de mais difícil e diferente nessa campanha?

A manipulação das informações através dos meios de comunicação, porque a informação também é responsável pelo crescimento de um Estado. Se a informação em uma campanha eleitoral for usada para beneficiar pessoas que não possuem compromisso com o povo, o Estado não cresce. Outra coisa que me chamou a atenção é a opressão exercida contra o povo. As pessoas estão oprimidas, acuadas a não participarem de reuniões ou eventos políticos que envolvam os candidatos do PSB. Eu tenho pouco tempo de televisão, então estou em desvantagem (43 segundos) e o meu adversário conseguiu impedir por duas vezes que meu programa fosse ao ar por verdades que falei. Ele também vem manipulando quase todos os meios de comunicação no Amapá e isso dificulta sim a compreensão do povo. Vou contar um caso que me foi relato pelos evangélicos. Disseram aos evangélicos que não votassem nos candidatos do PSB porque nós seríamos macumbeiros. Isso é um desrespeito à própria forma de eu me vestir. Todos sabem que a cultura negra tem um passado muito bonito e a forma das negras se vestirem sempre foi essa; a própria mídia nacional mostra isso atrás das novelas, jornais e de todos os meios de comunicação. Mas ao mesmo tempo o meu adversário não deixa de se incomodar com a minha forma de vestir, que não é um marketing político e sim um respeito à minha cultura. Agora ele vem tentando me imitar dançando marabaixo, e olha que ele nunca foi numa festa da Santíssima Trindade e do Divino Espírito Santo, além de nunca visitar uma comunidade quilombola nesses 16 anos em que visita o Amapá. Agora só falta mesmo ele colocar um turbante para imitar. Eu deixo aqui uma mensagem ao meu povo que é o povo quilombola: o senador Sarney só está fazendo encontro com a comunidade negra porque sua adversária é uma negra. Se essa adversária fosse branca ele jamais reuniria com os quilombolas desse Estado. Eu sempre fui uma pessoa dedicada à cultura negra e sempre contribuí com todas as manifestações culturais do nosso Estado.

Se a senhora fosse traçar um perfil do senador José Sarney, como a senhora o definiria?

Eu o definiria como uma pessoa desleal, medrosa, que não encara o adversário nos olhos, uma pessoa que age por trás. Sarney é um político que intimida os eleitores, que manipula os meios de comunicação para benefício próprio. Pois eu teria vergonha de fazer o mesmo que ele vem fazendo dentro do nosso Estado, exigindo que todos os candidatos de sua coligação peçam voto para ele, exigindo que o povo vote nele. Vivemos numa democracia, onde o povo tem direito de escolher em quem deseja votar. Sarney é um cidadão que nos bastidores, longe do povo, age de uma forma subumana, onde ameaça pessoas para que votem nele. Digo isso porque conheço uma pessoa que foi obrigada a deixar de me apoiar sob a ameaça de ser presa.

Na hipótese de uma derrota, a senhora pretende continuar na política?

Sem dúvida nenhuma. Mas eu não estou pensando em derrota nesse momento, embora eu saiba que numa luta devemos estar preparados para ganhar e perder. Porém, na disposição e vontade do povo que tenho percebido, nas pessoas que estão me acompanhando, na forma diferente que o PSB vem conduzindo esta campanha com a participação popular através dos núcleos de base, eu me sinto vitoriosa. Mas se eu não vier a me eleger, e já disse numa reunião da executiva do partido, eu não vou recuar dessa luta e estarei sempre à disposição do PSB e do povo para as próximas eleições.

SARNEY

. José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, o José Sarney, nasceu em Pinheiro, no Maranhão, em 1930. É membro da Academia Brasileira de Letras. José Sarney é formado em Direito e já foi professor, jornalista, mas foi da política que fez sua profissão. Foi deputado federal, governador do Maranhão, presidente da República, senador. Foi filiado à UDN (União Democrática Nacional). Durante a ditadura militar filiou-se então à Arena (Aliança Renovadora Nacional), partido de sustentação dos militares. Com a abertura política mudou novamente de partido indo para o PMDB, concorrendo ao cargo de vice-presidente na chapa que elegeu Tancredo Neves presidente da República, através de um colégio eleitoral formado por deputados federais e senadores. Com a morte de Tancredo, ele assumiu a Presidência. Enfrentou no seu governo o dragão da inflação, a pior crise econômica do País. Ameaçado de não conseguir mais nenhum cargo eletivo no Maranhão, veio para o Amapá em 1990, elegendo-se, sem concorrente, o primeiro senador pelo Estado onde está há 16 anos.

Aos 76 anos está passando pela campanha mais difícil de sua carreira política. Ameaçado de perder o mandato para a amapaense Cristina Almeida, ele pela primeira vez se viu obrigado a fazer campanha corpo a corpo, andar em pontes, fazer comício, viajar pelo interior do Estado e pedir voto no Amapá. A 10 dias da eleição, José Sarney mudou de marqueteiro e traçou novo perfil de marketing para tentar salvar sua reeleição.

Por que o senhor escolheu o Amapá para ser senador em 1990?

Não enviou a resposta.

Por que o senhor quer se reeleger senador pelo Amapá?

Não enviou a resposta.

O que o senhor já realizou de fato pelo Amapá em 16 anos de mandato?

Não enviou a resposta.

Caso o senhor seja eleito novamente senador, o senhor aceita a sugestão do presidente Lula para novamente ser presidente do Senado?

Não enviou a resposta.

Esta campanha está sendo diferente das duas anteriores quando o senhor foi eleito com folga, já que as pesquisas apontam uma pequena diferença entre o senhor e a adversária Cristina Almeida?

Não enviou a resposta.

O senhor credita isso a algum erro de sua campanha, como as ações movidas pela coligação a qual o senhor pertence contra os veículos de comunicação do Amapá?

Não enviou a resposta.

Em algum momento o senhor sente a sua reeleição ameaçada pela adversária Cristina Almeida?

Não enviou a resposta.

Se o senhor fosse fazer um perfil da sua principal adversária, Cristina Almeida, como o senhor a definiria?

Não enviou a resposta.

Na hipótese de uma derrota, qual seria o seu comportamento futuro?

Não enviou a resposta

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