Líderes da aliança com Lula podem sair mal das urnasRonald Freitas – Revista Época
A uma semana das eleições, todas as projeções sugerem que o PMDB poderá sair das urnas como o maior vitorioso nas disputas regionais. Nas estaduais, o PMDB tem chances de eleger até 11 governadores, o dobro em relação às últimas eleições, em 2002. Na Câmara dos Deputados, as apostas são que o partido elegerá a maior bancada, com até cem deputados, na avaliação da consultoria política Arko Advice, muito requisitada entre os analistas nacionais. No Senado, pode ocupar até um quarto das 81 cadeiras. “O PMDB será o principal beneficiário, pois muitos eleitores não perdoam o PT nem sentem saudade do PSDB”, diz o cientista político Murilo Aragão, da Arko. Confirmados esses prognósticos, estarão criadas as condições para o PMDB voltar a comandar a Câmara e o Senado, se for mantida a tradição parlamentar de o partido de maior representação indicar os presidentes das duas casas legislativas.
O cenário não poderia ser mais promissor para um partido que pretende ser o maior parceiro de um eventual segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O sonho peemedebista enfrenta, porém, alguns problemas inesperados. Os principais fiadores da aliança com Lula, os senadores José Sarney (AP), Renan Calheiros (AL) e Ney Suassuna (PB), podem sair das urnas enfraquecidos. Sarney corre o risco de não se reeleger para o Senado. O candidato de Renan ao governo de Alagoas está em segundo lugar nas pesquisas. O caso de Suassuna é o mais sério. Envolvido no escândalo das sanguessugas, ele poderá perder a eleição ou ter o mandato cassado pelo Senado.
Depois de conquistar dois mandatos pelo Amapá praticamente por aclamação, Sarney hoje é obrigado a caçar votos nas ruas. Na reta final da campanha, liderada por Sarney com folga quase o tempo todo, ele viu sua vantagem sobre a adversária Cristina Almeida (PSB) encolher para apenas 7 pontos, segundo o último levantamento do Ibope. Em dois meses de campanha, Cristina Almeida, negra, de origem familiar pobre e ex-superintendente do Incra no Amapá, subiu de 10% para 40% nas intenções de voto. Conseguiu isso seguindo uma estratégia em que apostou no bairrismo e colou em Sarney, que vem do Maranhão, a pecha de forasteiro.
Para enfrentá-la, Sarney foi obrigado a tirar o jaquetão de ex-presidente e fazer campanha na rua. No começo do mês, visitou comunidades ribeirinhas onde, muito sem jeito, ensaiou passos de marabaixo - a dança típica do Amapá, semelhante ao jongo africano. A visita e os tímidos passos de dança viraram peça de propaganda de Sarney no horário eleitoral na televisão. Até aqui, Sarney só tinha vivido disputas acirradas no Maranhão. No Amapá, sempre havia pairado acima dos políticos locais.
Em 1990, saído do mandato de cinco anos no Palácio do Planalto, ele ganhou a disputa para o Senado com uma tática simples. Deixava-se fotografar ao lado dos eleitores do recém-criado Estado com câmeras Polaroid. Em 1998, a campanha de Sarney limitou-se ao contato com correligionários que se encarregaram de divulgar sua candidatura. Até a semana passada, o corpo-a-corpo de Sarney nas ruas de Macapá tinha surtido pouco efeito. A rejeição dos eleitores a Sarney s chegou a 36%. A rejeição à adversária Cristina não passava de 24%.
Na Paraíba, quem passa por dificuldades é o senador Ney Suassuna. Ele não tem conseguido convencer o eleitor paraibano de sua inocência no escândalo das sanguessugas. Desde que seus assessores foram presos pela Polícia Federal por receber propinas da máfia das ambulâncias, Suassuna está atrás do ex-prefeito de João Pessoa Cícero Lucena, do PSDB. Mesmo se vencer, enfrentará problemas para permanecer no Senado. Logo depois do primeiro turno das eleições, o relator do processo contra Suassuna no Conselho de Ética do Senado, Jefferson Péres (PDT-AM), deverá pedir a cassação de seu mandato.
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