O dossiê contra tucanos foi montado para que o empresário Valdebran Padilha da Silva, filiado ao PT, arrecadasse dinheiro e quitasse dívidas relativas a propina - ou seja, Valdebran comprou emendas ao Orçamento, mas deixou de pagar por elas.
A versão foi apresentada à PF pelo suposto credor da propina: o empresário Luiz Antonio Trevisan Vedoin, 31, chefe da máfia dos sanguessugas. Vedoin disse que conseguiu no Congresso, subornando o deputado Lino Rossi (PP-MT), a elaboração de emendas para obras que seriam feitas por empresas de Valdebran.
Essa declaração de Vedoin aponta que, além da área de saúde, a compra de emendas ocorria também para liberação de verbas destinadas a obras públicas, ou seja, não eram apenas ambulâncias.
Conforme Vedoin, Valdebran devia R$ 291 mil em propina, relativa a emendas de 2000 a 2001. Atualizado com juros, o saldo devedor chegaria a R$ 700 mil.
"A dívida [com a propina] teve origem em várias obras de emendas do deputado Lino Rossi, que foram empreitadas por Valdebran", afirmou Vedoin.
Rossi é campeão no recebimento de propina por emendas destinadas à compra de ambulâncias. Vedoin disse que o deputado recebeu R$ 3 milhões. O parlamentar negou.
Conforme Vedoin, ficou acertado que Valdebran pagaria 15% a ele por emendas ao Orçamento e 10% para Rossi. Outra vez, o deputado afirmou ser mentira.
Sem dinheiro para quitar o compromisso, Valdebran "disse que se estivesse de posse do material [dossiê contra tucanos] poderia pagar sua dívida mais rapidamente", afirmou Vedoin.
Com aval de Vedoin, Valdebran foi a São Paulo negociar o dossiê e acabou preso junto com Gedimar Pereira Passos, contratado pelo PT, para analisar o material, em São Paulo.
Os dois estavam com R$ 1,7 milhão em dinheiro, incluindo dólares, que seriam usado na compra do dossiê - formado por um vídeo, um DVD e fotos que mostravam o então ministro José Serra (PSDB) na entrega de ambulâncias de empresas da máfia dos sanguessugas.
Fazia ainda parte do material uma lista de prefeituras que compraram ambulâncias com dinheiro do ministério da Saúde. Vedoin disse que as verbas só foram liberadas porque ele pagou propina ao empresário Abel Pereira, supostamente a mando do então ministro da Saúde, Barjas Negri (PSDB), em 2002, atualmente prefeito de Piracicaba (SP). Abel e Barjas negam.
Aviso - Ainda com relação à propina supostamente devida por Valdebran, Vedoin disse que avisou ao Ministério Público Federal, PF e Corregedoria do Senado "que iria cobrar dívidas a que tinha direito".
Seis cheques, que somam R$ 300 mil e foram emitidos por Valdebran, foram apreendidos pela PF na semana passada na casa de Vedoin. Ele disse que os cheques eram garantia para pagamento da dívida com a propina.
A Controladoria-Geral da União (CGU) identificou pelo menos dois casos em que empresas de Valdebran fraudaram licitação para ganhar obras realizadas com dinheiro de emendas. Trata-se da construção de um posto de saúde em Santa Cruz do Xingu (MT), cuja verba era de R$ 40 mil, e de um centro de convivência de idosos em São Félix do Araguaia (MT), com recursos de R$ 78,8 mil.