Brasília – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva admitiu ontem que a eleição pode ser definida apenas no segundo turno. Antes da crise deflagrada pela tentativa de compra de um dossiê contra o ex-ministro José Serra por integrantes do PT, os petistas diziam que a eleição seria definida já no dia 1º de outubro, ou seja, num único turno. “Se não der no primeiro e tiver segundo turno, não tem problema. Mas que vamos ganhar, isso tenho certeza”, disse Lula num encontro com 300 prefeitos ontem.
O ministro de Relações Institucionais , Tarso Genro, disse que a oposição quer “melar o processo eleitoral e gerar instabilidade política” ao explorar a compra do dossiê antitucano por membros do PT.
Ele conclamou os prefeitos a não permitirem “que os resultados das urnas sejam fraudados pela manipulação da informação unilateral e de forma absolutamente arbitrária”.
Tarso afirmou que desde o início da campanha sabia que esses seriam os dias mais “difíceis e problemáticos”.
Ele voltou a alfinetar a oposição e disse que “os debaixo ousaram levantaram suas cabeças” e que o governo vem sendo atacado de “todas as formas [pela oposição] numa tentativa de impedir a vitória de Lula”.
O encontro com os prefeitos acabou virando um ato de apoio a Lula no episódio do dossiê. Por mais de duas horas, prefeitos das cinco regiões brasileiras se revezaram fazendo discursos favoráveis à reeleição do presidente e mantendo o argumento de que o episódio do dossiê é uma manobra da oposição para impedir a vitória de Lula.
Em um ato político com cerca de 300 prefeitos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, considerou “deplorável” a negociação de membros do PT para a compra de um dossiê contra políticos tucanos. Segundo Lula, os envolvidos na compra do material “são tão bandidos quanto quem queria vender”.
O caso – A 15 dias das eleições, a Polícia Federal apreendeu vídeo, DVD e fotos que mostram o candidato do PSDB ao governo de São Paulo, José Serra, na entrega de ambulâncias da máfia dos sanguessugas. O material contra Serra seria entregue pelo empresário Luiz Antônio Vedoin, chefe dos sanguessugas e sócio da Planam, a Gedimar Pereira Passos, advogado e ex-policial federal, e Valdebran Padilha da Silva, filiado ao PT do Mato Grosso.
Gedimar e Valdebran foram presos, em São Paulo, com R$ 1,7 milhão. Eles estavam no hotel Ibis, e aguardavam por um emissário do empresário, que levaria o dossiê contra o tucano. O PT nega que o dinheiro seja do partido.
O emissário seria o tio do empresário, Paulo Roberto Dalcol Trevisan. A pedido de Vedoin, o tio entregaria em São Paulo o documento a Valdebran e Gedimar. Os quatro envolvidos foram presos pela Polícia Federal.
Em depoimento à PF, Gedimar disse que foi “contratado pela Executiva Nacional do PT” para negociar com a família Vedoin a compra de um dossiê contra os tucanos, e que do pacote fazia parte entrevista acusando Serra de envolvimento na máfia.
Ele disse ainda que seu contato no PT era alguém de nome “Froud ou Freud”. Após a denúncia, o assessor pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Freud Godoy, pediu afastamento do cargo. Ele nega as acusações.
Após o episódio, outros nomes ligados ao PT começaram a ser relacionados ao dossiê. Esse é o caso do ex-coordenador da campanha à reeleição de Lula, Ricardo Berzoini, presidente do PT. Seu ex-secretário no Ministério do Trabalho Oswaldo Bargas (coordenador de programa de governo da campanha) e Jorge Lorenzetti —analista de mídia e risco do PT e churrasqueiro do presidente— procuraram a revista “Época” para oferecer o dossiê.