O texto a seguir – que consta no relatório “Trabalho Escravo no Brasil do Século 21”, divulgado na quarta-feira pela OIT – é do coordenador do estudo, Leonardo Sakamoto, cientista político e jornalista da organização não governamental Repórter Brasil. Ele traça o perfil de um trabalhador maranhense que viveu na pele a condição de escravo contemporâneo.
“A pele de Manuel se transformou em couro, curtido anos a fio pelo sol da Amazônia e pelo suor de seu rosto. No sudeste do Pará, onde boi vale mais do que gente, talvez isso lhe fosse útil. Mas Manuel acabou servente dos próprios bois, com a tarefa de limpar o pasto. ‘Fizeram açude para o gado beber e nós bebíamos e usávamos também’.
Trabalhava de domingo a domingo, mas nada de pagamento, só feijão, arroz e a lona para se cobrir à noite. Um outro tipo de cerca, com farpas que iam mais fundo, o impedia de desistir. ‘O fiscal de serviço andava armado. Se o pessoal quisesse ir embora sem terminar a tarefa, eles ameaçavam, e aí o sujeito voltava’.
Na hora de acertar as contas, os ‘gatos’ (contratadores de mão-de-obra a serviço dos fazendeiros) informaram que Manuel e os outros tinham ‘comido’ todo o pagamento, e se quisessem dinheiro tinham de ficar e trabalhar mais. ‘Eles dizem que a lei não entra na fazenda’. Manuel fugiu e resolveu ir atrás dos seus direitos.
Com base na denúncia de Manuel à Comissão Pastoral da Terra (CPT), uma equipe do governo federal entrou, em dezembro de 2001, em uma propriedade rural localizada em Eldorado dos Carajás, no sudeste do Pará.
Após ter seus direitos pagos pelo fazendeiro, Manuel disse que tomaria o rumo de volta ao Maranhão, para rever os filhos depois de quatro anos. ‘Quem dá queixa tem de sair, porque senão dança. Perde a vida e ninguém sabe quem matou’. Sua intenção era começar de novo, mas de forma diferente. Pois o cativeiro é apenas a ponta de um novelo que, desenrolado, começa na própria terra de cada trabalhador.
Manuel nasceu às margens do rio Parnaíba, numa cidade maranhense na divisa com o Piauí. Tem cinco filhos, o mais novo com oito anos.
Sua região tem água o ano inteiro por conta do rio. Terra é que é difícil. Morador de um vilarejo, Manuel não conseguiu área para fazer uma pequena plantação. Por isso, era obrigado a cultivar na propriedade dos outros e a dividir o resultado de sua produção de subsistência com o dono. ‘Se tivesse terra, eu não teria saído daqui para o Pará’, disse o maranhense”.