O grande livro ensina, em Eclesiastes (3,1-3) que “tudo tem o seu tempo determinado” debaixo do Sol. “Há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de colher; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derrubar e tempo de edificar...”. Na vida pública, há pessoas que perdem a noção do seu próprio tempo. É o caso dos ex-presidente da República do Brasil.
Em qualquer lugar sério do mundo, aos ex-presidentes é reservado, depois do exercício do mandato, uma posição de respeitoso recolhimento. Protegidos por vantagens do Estado –salário, transporte e carregadores de mala—, funcionam como os velhos pajés indígenas. Tornam-se os sábios da tribo. Pessoas às quais, de raro em raro, pode-se recorrer em busca de um ou outro conselho.
No Brasil não é assim. Há hoje no país quatro ex-presidentes vivos: José Sarney, Fernando Collor de Mello, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Os dois primeiros estão metidos na refrega eleitoral. O terceiro só não vai às urnas porque foi preterido pelo próprio partido. E o quarto deu para verter a própria amargura sobre manifestos extemporâneos.
Excetuando-se Collor, cujo passado não recomenda como conselheiro, os demais teriam credenciais, mais ou menos viçosas, não importa, para vestir o manto de pajé. Recusam-se, porém, ao recolhimento. Metem-se na refrega política com o vigor de jovens iniciantes. Comprometem as próprias credenciais na mesquinharia das disputas cotidianas.
Num país em que a política se confunde com a safadeza, parece despropositado tratar-se de uma questão como o retiro de ex-presidentes. Mas, numa época em que germinam as bases de uma reforma política, talvez seja o caso de arrumar um lugar no ordenamento jurídico para acomodar esses personagens.
Tome-se o exemplo dos EUA. Os presidentes que deixam o cargo voltam-se para fundações batizadas com os seus nomes. São erigidas em seus Estados de origem e guardam toda a documentação referente aos respectivos ciclos no poder. Não se imagina, por absurdo, que possam rebaixar-se em disputas para governos locais ou para o Congresso.
Há também o exemplo da Itália. Ali, os ex-presidentes ganham, ao deixar o cargo, cadeiras honoríficas no Senado. Não têm direito a voto. Mas podem subir à tribuna, de onde distribuem conselhos à tribo.
Entre nós, até ex-presidentes escorraçados vão às urnas com enorme sem-cerimônia, como faz Collor. Outros sujeitam-se a virar subordinados de seus sucessores, ocupando embaixadas no exterior, como fez Itamar Franco. Há ainda quem busque refúgio em Estados remotos, com receio de não ser eleito em seu próprio torrão, como fez e faz Sarney. Há também quem constranja a própria biografia passando o chapéu entre o empresariado para custear uma fundação com o seu nome, caso de FHC.
Algo precisa ser feito com os nossos ex-presidentes. É constrangedor, para o país e para os próprios, vê-los pedindo votos, padecendo derrotas temporãs, pendurando apaniguados na engrenagem estatal ou simplesmente perdidos em algum lugar situado entre a fronteira da amargura e do ciúme.