POR EGON HECK*
Ainda impactados com a ausência de dom Luciano Mendes e dom José Mauro Pereira Bastos (bispo de Guaxupé, morto no último dia 14), somos agora surpreendidos pela dolorosa notícia da morte de nosso companheiro e irmão Franco. Quando a morte chega assim, de repente, surpreendendo todo mundo, ficamos perplexos, a perguntar: será verdade? No instante seguinte, a dor da ausência começa se aninhar na gente e aos poucos, como um filme editado às pressas, vão desfilando as imagens do amigo e companheiro de tantas jornadas e lutas.
Para nós, do Cimi, a dor é redobrada. Não sentimos apenas a perda do companheiro que, com sua sabedoria e seu sorriso, alentou tantas lutas pelos direitos dos povos indígenas e pela missão neste mundo afora, mas sentimos a súbita partida do pai, do irmão mais velho, do amigo, do animador da missão e da mística que anima nossas lutas pela vida e pelos direitos dos povos indígenas e dos excluídos. Mais do que isso, nos sentimos privados de quem tão profundamente acreditou e impulsionou nosso plano de pastoral.
Enquanto o coração vai pulsando ao ritmo dolorido da ausência, não podemos deixar de lembrar as belas e corajosas imagens do Franco, em seu batismo na questão indígena, como ele costumava afirmar, quando em Coroa Vermelha, por ocasião da Conferência Indígena 2000, ele enfrentou a repressão comandada pelo coronel Muller, na celebração das elites pelos 500 anos do início da invasão.
Muitos índios ficaram feridos e dom Franco ficou retido por algum tempo. Foi um momento forte em que o presidente do Cimi soube estar ao lado dos povos indígenas e dos missionários que ali estavam. Não se ausentou do confronto. E por ocasião da celebração dos 500 anos de Evangelização, teve a coragem de, juntamente com um pequeno grupo de bispos, registrar sua discordância com tais comemorações.
Ainda sob o impacto da morte ocorrida há poucas horas, fica difícil expressar o turbilhão de sentimentos que toma conta da gente. O que de melhor podemos fazer e dizer nessa hora é nossa profunda e eterna gratidão ao amigo e irmão dom Franco, pelo testemunho sincero, franco e profético que ele nos deixa.
Neste clima de partida de representantes de toda uma geração de lutadores, dos quais dom Franco talvez fosse um dos irmãos mais novos, lembramos o que repetia recentemente um companheiro de fé e luta: “Estamos enterrando nossos lutadores de uma geração de bispos que são testemunhas proféticas na luta pela vida, pela justiça e pela solidariedade”.
Campo Grande (MS), 17 de setembro de 2006.
(*) Da Cimi Regional Mato Grosso do Sul