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Editorial
Covardia, impunidade, inoperância nos caminhos do trânsito brasileiro

Covardia, impunidade, inoperância nos caminhos do trânsito brasileiro

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Data de Publicação: 19 de setembro de 2006
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Geane Lima Fiddan*

Tal como no inferno oriental da guerra, no Brasil 34 mil pessoas morrem por ano no trânsito, fora os aleijados, órfãos e viúvos, mas este fato e outros da mesma estirpe passam despercebidos por quase todos, quando na verdade este tema merece ser considerado por aqueles que operam nas vias.

Um veículo é uma arma, portanto é preciso responsabilidade para conduzi-lo. O ideal, segundo as autoridades responsáveis pelo trânsito brasileiro, é a educação. Sabe-se que este fato é relevante e contribui para a redução de acidentes, que, no entanto, voltam sempre aos patamares anteriores.

O trânsito é o reflexo da sociedade que temos. Há impunidade, e o poder público não consegue executar todas as leis. Isto acaba estimulando uma onda de acidentes e deixando muitas pessoas perplexas e confusas.

Em muitos países existem campanhas de trânsito que funcionam. Também acredito numa probabilidade de mudança aqui no Brasil. Mas, como todo trabalho que diz respeito à educação não ocorre da noite para o dia, só nos resta insistir na luta para que esta mudança aconteça.

Lembro que, quando trabalhei na Escola Bernardo Coelho de Almeida, todos os dias alunos, professores, diretores e demais pessoas que trafegavam naquelas proximidades tinham dificuldades em atravessar a faixa de trânsito mais próxima. Não havia fiscalização e os motoristas enfurecidos e estressados não respeitavam os pedestres, muitos inclusive dirigiam além da velocidade permitida.

Com as novas normas entrando em vigor, o Código de Trânsito Brasileiro impõe novas resoluções, exige noções de primeiro socorros e direção defensiva na tentativa de evitar tragédias maiores. Entretanto, não adiantam tantas leis se elas não forem cumpridas. Além do quê, as leis brasileiras são brandas, e se alguém dirigir com velocidade acima do exigido não acontece nada, basta uma multa e pronto.

Segunda-feira à noite, por exemplo, aproximadamente às 9h30, um motorista que dirigia em alta velocidade na Avenida Guajajaras, sem respeitar sequer o sinal de trânsito, atropelou um rapaz que por ali passava. O motorista fugiu covardemente sem prestar socorro. Eu estava parada, esperando o sinal abrir. Quando abriu, fui rapidamente atrás do motorista, anotei a placa do carro (HPN 4903), liguei para polícia e falei do ocorrido. A sociedade maranhense espera que a justiça seja feita.

No ano passado, coincidência ou não, eu e meu esposo estávamos vindo de Santa Luzia-MA e vimos quando um carro atropelou uma criança de mais ou menos dez anos. O motorista dirigia em altíssima velocidade e, além de atropelar e matar a criança, nem tentou socorrê-la. Naquele dia nós ficamos revoltados diante de tanta irresponsabilidade.

Este e outros fatos semelhantes acontecem todos os dias pelas cidades do Brasil. Atropelar, causar a morte, não prestar socorro e depois ter uma vida normal, como se nada tivesse acontecido, parece uma coisa banal diante de uma justiça que ainda é tímida.

Onde é que fica a dignidade daqueles que já não podem estar entre seus entes queridos? Como contar com a justiça?

Um aspecto que merece ser ressaltado é o Art. 302 do Capítulo XIX, que trata dos crimes de trânsito. Ele diz que, para quem pratica homicídio culposo na direção de veículo automotor, as penalidades são apenas detenções de dois a quatro anos. Contudo, sabemos que alguns motoristas imprudentes, envolvidos em acidentes fatais, mesmo deixando de prestar socorro – quando é possível fazê-lo sem risco pessoal –, de alguma maneira são protegidos pela lei.

Por outro lado, muitas pessoas com seqüelas entram no oceano da justiça e lutam pelos seus direitos, e, na maioria das vezes, são atingidas pelas ondas da lentidão.

Este é o meu caso. Meu filho, de 14 anos, também foi atropelado em Santa Luzia, e o motorista covarde não o socorreu. Como muitas pessoas que esperam pela decisão da justiça em Santa Luzia, estou há dois anos e dois meses esperando que a Dra. Lívia Maria Costa Aguiar (Juíza de Direito da 2ª Vara que responde pela comarca daquela cidade) analise e solucione este caso.

Desta forma é que a justiça brasileira, com montanhas de processos encalhados, nos mostra como realmente anda. Infelizmente, essa situação pode vencer qualquer um pelo cansaço.

*Professora e poeta

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