Andréa Cordeiro Duailibe*
Mais que um teto, as idiossincrasias de uma casa
Quem não se recorda do filme A casa dos espíritos? Mais do que uma película cinematográfica, uma catarse poética por meio da qual desfilavam as angústias vividas pela família de Isabel Allende, durante o golpe militar no Chile dos anos 70.
O arquétipo apresentado denota o universo de uma família que habita uma casa de fazenda imersa numa espécie de realismo fantástico. Cada personagem estabelece uma relação com a casa e seus elementos de composição. De um lado, temos Clara que transferiu todo o impulso de vida para o mundo mágico de sua paranormalidade; de outro, Esteban Trueba, sujeito rígido, dominado pela racionalidade, provavelmente vítima de uma educação repressora.
A história é narrada pela filha, Blanca, que, aos poucos, tenta resgatar o seu passado, com base nos diários e nas cartas deixadas pela mãe. É a partir desse legado que Blanca consegue situar-se e compreender-se como pessoa.
Nossos primeiros contatos com o mundo exterior se dão dentro de um universo limitado por paredes; nossas casas. Aos poucos, este universo palpável vai se expandindo, até que um dia, começamos a explorar um espaço que extrapola as fronteiras de tijolo e concreto.
A casa como habitat é um ambiente de total interatividade, de uma riqueza de detalhes impossível de escapar aos olhos. Cada um de nós se relaciona com a sua casa de maneira específica, o que permite, aos olhos mais atentos, uma leitura de infinitas idiossincrasias.
As casas constituem a base das histórias de Zélia Gattai: em Senhora Dona do Baile, por exemplo, a escritora se refere à angústia da ausência de um lar e à maneira pela qual ela e a família contornavam o sentimento de desterro. Também em A casa do Rio Vermelho e em Memorial do Amor, a escritora conta as histórias que permearam sua vida ao lado de Jorge Amado, na casa de número 33, da rua Alagoinhas, no bairro Rio Vermelho, em Salvador.
A narrativa, cheia de saudosismo, se desenrola no período que vai desde a compra do terreno até os últimos dias em que Zélia nela morou, além de citar com freqüência os amigos sempre presentes. Zelosa com as palavras, a autora revela a intimidade e o aconchego da família na casa do Rio Vermelho, onde o casal viveu por 40 anos. A casa dos Amado ultrapassou os limites concretos e se encheu de vida e de amor, interagindo com pessoas, áreas verdes, unindo o casal em objetivos comuns. Cogita-se transformá-la, em breve, no Memorial Jorge Amado.
Muitos estudiosos têm buscado o lado nada palpável das habitações. Procuram por impressões que não aquelas deixadas por um objeto concreto, mas sim por um estado, no sentido sensorial.
A pesquisadora Ludmila Brandão, por exemplo, é autora do livro intitulado A casa subjetiva, que resultou de sua tese de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da PUC/ SP. À primeira vista, um estudo complexo, mas, na realidade, nem tanto.
Vinculada à noção de poética da arquitetura, a aplicabilidade de trabalhos desta envergadura reside na possibilidade que eles nos dão de reavaliarmos as propostas arquitetônicas situadas no universo automatizado e virtualizado em que vivemos.
A casa é apresentada como uma unidade fundadora da experiência de morar. Nesse sentido, Ludmila afirma que "... pertencemos muito mais às nossas casas do que elas nos pertencem".
O estudo fundamentou-se num processo classificatório, em que a autora desenvolve a temática em três "blocos" ou categorias: Rizoma - Casa Catedral, Território - Casa Encruzilhada e Nomadismo - Casas Contemporâneas.
O primeiro bloco mostra a casa da fazenda, denominação que teve sua origem na casa medieva, de portas abertas, abrigo de todos os habitantes circunvizinhos nos momentos de necessidade. Ela contextualiza com o ambiente rural repleto de subjetividades, intensidades e de tempos prolongados.
O segundo, a casa da cidade, refere-se a uma esfera essencialmente urbana, frenética, onde a vivência é intensa; um lugar que sintetiza a realidade do cotidiano, do tradicional ao moderno, habitada por uma família, portas com chaves, espaços para breves reuniões, vitrola tocando, jardim bem cuidado e cheiro de comida caseira no ar.
O terceiro, o mais curioso de todos, revela a face nômade do Homem Contemporâneo. A habitação divide sua identidade entre o homogêneo - o ideal de casa vendido pela mídia - e a singularização - o estímulo ao exclusivo. Baseia-se na necessidade de pertencimento a grupos e a tribos e a casa, neste caso, reflete o modo de vida contemporâneo, recheado de (im) possibilidades.
O homem contemporâneo é um indivíduo nômade. Vive em constante deslocamento, viagens de negócios, almoços de negócios, reuniões de negócios, laptop debaixo do braço. Sua casa é impecavelmente limpa e arrumada, "na moda", mesmo - a faxineira tem a chave. "Será que das casas só sobrou a home page?" - perguntou-se a doutora, num dado momento.
Críticas à parte, o processo de projetar passa também pela compreensão desses comportamentos. A figura do arquiteto aparece para auxiliar no trabalho de ordenação de todas as idéias e é muito importante que haja espaço para compartilhar impressões; só assim as demandas reais podem ser identificadas.
Nas palavras da Doutora Ludmila Brandão: "As casas são cidades (e as cidades, casas), exalam odores próprios, mas são também seus homens, como são seus animais, objetos, suas histórias, seus delírios".
O simples exercício de observação das casas das pessoas nos mostra muito a respeito delas, e, julgamentos à parte, toda casa é um santuário, porque nela reunimos um pouco de tudo, do esdrúxulo ao íntimo - às vezes, as duas coisas numa só.
O arquiteto e pesquisador austríaco Christopher Alexander estuda há alguns anos a relação das pessoas com suas casas. Descobriu que a maioria prefere uma transição maior entre a entrada externa e o primeiro ambiente. Concluiu que a entrada representa um espaço de extrema importância, pois é o elo entre dois mundos: a rua (o profano) e o lar (o sagrado). A entrada é entendida como um rito de passagem sem o qual a noção de "aconchego" fica comprometida.
Visto por um ângulo mais subjetivo - e mesmo mais inocente - privar alguém de sua casa é privá-lo de si mesmo. Portanto, casa é gente; a casa somos nós, pois somente faz sentido quando realizamos a alegria de para ela voltar. Afinal, nós voltamos pelo "quem", não pelo "quê".
*Arquiteta e Urbanista, professora do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual do Maranhão - andrea. duailibe@elo.com.br