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GeralPor um saco de cimento

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10 de setembro de 2006
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Opinião

Breno Coutinho (*)

No dia 3 deste mês saí apressadamente da Comarca de São Luiz do Anauá, Roraima, onde exerço minhas funções judicantes, inclusive a eleitoral. Um parêntese: ainda que esse Luiz seja grafado com “z”, a designação da cidade é uma homenagem a esta minha querida terra natal, São Luís, acrescida do nome do rio que a corta, o Anauá. Daí que lá, mesmo no meio da mata amazônica, próximo à linha do Equador, bem ao norte do Brasil, sinto-me em casa. Afinal, lá é voz corrente que mais da metade da população é composta de maranhenses.

Mas ia dizer que o tempo me driblou, porque minha primogênita, nascida ludovicense, antecipou sua vinda ao mundo em mais de duas semanas do que havia sido programado, de modo que não assisti ao parto, como gostaria. Não dormi pelo resto da madrugada. Ansioso e com o coração aos pulos, tive de esperar pela abertura, às 6h, do único posto de combustível local, toquei para Boa Vista, submeti-me à tarifa cheia do bilhete aéreo, mas cruzei a mata e os largos rios da Amazônia a tempo de aqui chegar antes de ela completar um dia de nascimento. Ufa, valeu a pena!

Sim, mas a história aqui é outra.

Do lado de cá tenho na família materna um tio candidato a uma vaga na Assembléia Legislativa. Todos estão a mil, muitos inteiramente envolvidos na campanha. Minha avó, mãe do pretenso deputado, não vejo desde que cheguei, eis que ela está no interior dos Milagres, tentando convencer eleitores das virtudes do filho. Uma das irmãs do próprio baseou-se em Chapadinha, a serviço da campanha. Um cunhado do candidato, este sim, mergulhou de cabeça, e consta que já garantiu votos até na distante Carolina, afora os muitos que tem cabalado em São Luís. Até suspendeu a “pelada” dos domingos, incrivelmente, para depois de 1.º de outubro.

Da parte da esposa do estreante a ordem e a disposição são as mesmas, e uma boa colheita de votos é esperada em Nina Rodrigues, o forte de sua militância (dela). Meu irmão é pura disposição e entusiasmo. O carro cheio de adesivos, organiza carreatas, distribui nas rotatórias da cidade material de propaganda, agita bandeiras e, junto com parentes e amigos, tem feito disso uma rotina de fim-de-semana. Enfim, se trabalho de família valer, o homem está a meio caminho andado para o mandato.

Enquanto Larissa, a primogênita, dorme ou está sob os cuidados e extremo desvelo da mãe, converso com familiares. Numa dessas, um primo me revelou que enquanto pede votos para o tio-candidato, após expor as suas virtudes e bem-feitos, enaltecendo sua personalidade, liderança familiar e, principalmente, sua retidão na vida pública, como servidor de carreira, ouve quase de tudo como resposta. Um cunhado, por exemplo, disse-lhe que já tem candidato. A secretária do apartamento praticamente assegurou-lhe o voto. E a auxiliar que cuida de sua filha afirma (e ele acredita) que já está engajada na campanha. Alguns amigos e conhecidos prometeram-lhe analisar as propostas do candidato. E assim ele vai tentando “dar uma força”.

Certo dia ele abordou, na rua, uma senhora, a qual lhe disse na bucha: “o voto eu troco por um saco de cimento”, logo acrescentado que garantia mais quatro votos em casa. O baque da contraproposta confundiu-lhe o raciocínio e ele chegou a ficar em dúvida, antes de replicar, entre o dar e o não dar o dinheiro. Fez as contas e concluiu que, a considerar o atual preço do cimento, cada voto daquela eleitora sairia por mais ou menos R$ 5,00. Então tomou os 15 mil votos que, presumivelmente, são necessários para o candidato sonhar com a cadeira na Assembléia, e constatou que ele precisaria de R$ 75 mil de caixa para ser eleito. Por conhecer o candidato, ele sabe que esta via está totalmente descartada.

E a eleitora continuou, disse-me o parente: “Senhor, se a gente não receber algo antes, depois de eleito o candidato esquece do povo”.

A observação o trouxe de volta ao mundo da razão e ele tentou explicar, em linguagem acessível, que as duas condutas ali suscitadas (a compra e a venda do voto) são vedadas pela norma e que podem resultar na cassação do mandato do eleito. Disse-lhe mais que, ainda que não ela votasse no parente-candidato, deveria analisar as propostas de outros políticos, observando se as mesmas contemplam a fiscalização séria da aplicação dos recursos públicos; a participação efetiva na elaboração do ordenamento jurídico estadual, com o intuito de fortalecer as instituições, priorizando a destinação de recursos para os setores de segurança, educação, saúde, produção, turismo e lazer; redução da carga tributária, possibilitando impulsionar o mercado formal de trabalho, com geração de emprego e renda, a remuneração justa dos servidores públicos etc.

Como depois de tanta conversa a eleitora insistiu no cimento, ele não mais insistiu no voto.

Depois desse bate-papo, já só, fiquei a falar com meus botões: pobre Brasil, pobre Maranhão! A ausência de educação (que desperta o senso crítico) e a pobreza (que induz ao pedido indigno) ainda quase que imperam. As duas, ali, juntinhas, são as fontes do voto comprado, o voto sem compromisso. As duas produzem o ambiente típico e propício ao reino da corrupção, da “caixa preta”, do “valerioduto”, do “mensalão”, da máfia das ambulâncias e de tantas outras mazelas em que o País tem sido tão pródigo. É de estarrecer!

Mas há solução, acreditem. Dentro das instituições públicas e privadas ainda existem pessoas interessadas na mudança da situação. Conheço muitos magistrados, defensores públicos, policiais, promotores de justiça, procuradores, advogados, servidores, eleitores e políticos engajados na luta pela moralidade, pelo bem-fazer. Para se chegar a isso, se preciso for cassa-se mandato, mete-se na cadeia, corta-se na carne.

Voto pelo Brasil.

____________

(*) Maranhense, juiz de direito da Comarca de São Luiz do Anauá/RR.

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