Israel impôs uma restrição ao tráfego abaixo do rio Litani, no sul do Líbano, ontem, 8, ameaçando atacar qualquer veículo em movimento e impedindo o acesso das agências humanitárias à área.
Em Nova York, uma delegação da Liga Árabe pediu ontem ao Conselho de Segurança (CS) da ONU que exija a retirada das tropas israelenses do Líbano, como condição para uma pausa no conflito entre o grupo terrorista libanês Hizbollah e Israel.
No 28º dia do conflito entre o Exército israelense e o grupo terrorista libanês Hizbollah, os confrontos se intensificaram no setor da fronteira, matando ao menos 19 libaneses e três soldados israelenses.
Equipes de resgate retiraram hoje também ao menos 28 corpos dos destroços de prédios atingidos em bombardeios na segunda-feira, elevando o saldo de mortos de ontem para 77 pessoas no Líbano, o mais alto desde que a guerra teve início, em 12 de julho.
Impedimento - As agências humanitárias da Organização das Nações Unidas (ONU) suspenderam totalmente o envio de ajuda ao sul do Líbano depois que o Exército israelense advertiu que bombardeará qualquer veículo em circulação.
Israel alertou a população libanesa, em panfletos jogados ontem pela aviação, que atacará "qualquer veículo que circule ao sul do rio Litani", o que inclui a cidade portuária de Tiro.
"Devido à insegurança, hoje não será enviado nenhum comboio ao sul", declarou a porta-voz do Programa Mundial de Alimentos (PMA), Christiane Berthiaume.
As agências da ONU abriram mão inclusive de pedir garantias às forças israelenses de que não atacariam seus comboios, segundo a porta-voz.
Nos últimos dias foi possível levar material de ajuda ao sul, mas em pelo menos duas ocasiões mísseis israelenses caíram a poucos metros dos comboios humanitários.
"Precisaríamos de pelo menos dois comboios por dia no sul - isto seria realmente o mínimo. O ideal seriam seis, mas estamos muito longe deste número", declarou Berthiaume. O PMA estuda a possibilidade de enviar ajuda a Tiro por via marítima.
Para a porta-voz do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Wivina Belmonte, depois de quase um mês de conflito, a ajuda humanitária que chega ao local é "insuficiente".
Na segunda-feira, aviões israelenses destruíram uma ponte improvisada sobre o rio Litani, que era o último ponto importante de passagem usado pelas agências humanitárias para o envio de remédios e outros mantimentos a milhares de pessoas isoladas no sul devido aos combates entre Israel e o Hizbollah.
A ONU estima que até 900 mil pessoas tenham sido desalojadas pela guerra iniciada há 28 dias. Cerca de 550 mil estão abrigadas de maneira improvisada em casas de parentes em Beirute e nas montanhas do norte. Outras 130 mil estão alojadas em escolas e outros prédios públicos.
O PMA disse ter levado cerca de 404 toneladas de alimentos para o Líbano até agora, o suficiente para alimentar 105 mil pessoas por uma semana. "É alguma coisa, mas não é o bastante. Há centenas de milhares de pessoas sem abrigo que precisam de ajuda", afirmou Berthiaume, porta-voz do PMA.
A Cruz Vermelha libanesa disse ter retirado 200 pessoas de duas aldeias próximas a Houla, no sul do Líbano, onde intensos bombardeios e confrontos provocaram uma nova onda de refugiados em busca de áreas mais seguras ao norte.
As agências humanitárias alertaram para a ameaça de que a falta de combustível, cada vez mais aguda, paralise usinas elétricas, estações de abastecimento de água e hospitais. Em Marjayoun, cidade isolada no sul do país, um hospital anunciou que vai ficar sem combustível já nesta quarta-feira.
Esforço diplomático - Representando a Liga Árabe, o chanceler do Qatar, xeque Hamad bin Jassem bin Jabr al Thani, afirmou que a retirada "é um elemento-chave de qualquer acordo de paz justo e global". O diplomata também disse que a força da ONU no sul do Líbano teria que ser reforçada.
"Qualquer resolução deve exigir um cessar-fogo total e imediato, e o recuo das tropas israelenses para atrás da linha azul [delimitada pela ONU para confirmar a retirada israelense em 2000]".
Al Thani também acusou o CS de se "mostrar apático" em meio ao "banho de sangue" no Oriente Médio.
"O que é mais lamentável é o fato de o Conselho se mostrar apático, enfraquecido, incapaz de parar o banho de sangue que tem se tornado a amarga rotina diária para grande parte do indefeso povo libanês", afirmou o ministro de Relações Exteriores do Qatar.
O ministro fez o pedido durante um debate público do CS sobre a situação no Líbano, representando a Liga Árabe.
"O que está acontecendo irá unir as sementes do ódio e do extremismo na região e fornecer um pretexto para aqueles que sentem que a comunidade internacional está tomando partido e que carece de integridade a respeito desta disputa", declarou o diplomata.
Ofensiva aérea - Bombardeios israelenses mataram ao menos 13 pessoas e feriram 23 na vila de Ghaziyeh, 5 km ao sul da cidade de Sidon, de acordo com equipes de resgate e fontes médicas. As bombas caíram no momento do funeral de vítimas de um ataque na mesma localidade, que matou 15 pessoas na segunda-feira.
Uma porta-voz do Exército israelense explicou que o prédio atingido ontem pertencia a uma autoridade do Hizbollah e que o ataque não foi perto do local onde ocorria o enterro. A fonte de Israel afirmou ainda que os moradores da vila haviam sido avisados para deixar o local.
Um ataque aéreo também matou uma pessoa em Rzoum, perto de Tiro e cerca de 35 km ao sul de Sidon. Outras cinco pessoas foram mortas quando aviões israelenses atingiram três caminhões que transportavam gasolina e outras duas caminhonetes perto da fronteira com a Síria.
Alguns dos mais intensos confrontos de ontem aconteceram na vila de Bint Jbeil, um bastião do Hizbollah que Israel tenta dominar há semanas. Três soldados israelenses foram mortos na localidade, segundo o Exército, que informou ainda que 35 membros do Hizbollah morreram em combates. O grupo libanês não confirmou as mortes de seus integrantes.