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Golpe do 'seqüestro por telefone' já faz vítimas em Imperatriz

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8 de agosto de 2006
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POR OSWALDO VIVIANI

EXTORSÃO PSICOLÓGICA

Um homem ligou para a dona da Funerária Pax, disse que seu filho – que havia saído – estava seqüestrado e exigiu dinheiro. Horas depois, a ‘vítima’ telefonou para a família e frustrou o golpe.

Uma modalidade criativa de seqüestro, “inventada” nos presídios paulistas e fluminenses – e que já mostrou a cara em alguns estados nordestinos – chegou a Imperatriz. Trata-se do “seqüestro de araque”, ou “seqüestro por telefone”, um tipo de golpe em que os bandidos se asseguram de que o membro de uma família de posses saiu e ligam para sua casa anunciando o “seqüestro” e exigindo dinheiro. Pelo menos duas famílias já foram vítimas desse golpe em Imperatriz. No caso mais recente, ocorrido na tarde do último sábado, 5, um homem ligou para Irene Maria Martins, de 54 anos, dona da Funerária Pax, uma das maiores da cidade. O bandido disse que seu filho Josué Martins Almeida, 28 – que havia saído – tinha sido seqüestrado por ele e seu grupo e exigiu dinheiro. Horas depois, a ‘vítima’ telefonou para a família e frustrou o golpe.

Nesse tipo de ação criminosa, os bandidos se apóiam basicamente na pressão psicológica sobre as vítimas. O responsável por manter contato com a família é sempre uma pessoa boa de conversa e inflexível, que não dá tempo para a vítima pensar.

Detalhes precisos sobre o “seqüestrado” e até uma espécie de “sonoplastia” são usados para convencer a família de que realmente um ente querido está nas mãos dos “seqüestradores”.

Pressão total – Irene Martins contou ao Jornal Pequeno de sua angústia ao conversar com o golpista pelo telefone: “Ele disse: ‘O gordinho está aqui com a gente. Ele está amordaçado no banco de trás do seu Santana prata de quatro portas. Nós vamos botar fogo no carro com ele dentro se a senhora não fizer exatamente o que a gente mandar. Pra começar, não bota a polícia no caso’. E, enquanto o homem falava, eu escutava ruídos ao telefone de alguém se debatendo, gemendo. A pressão é total. Eu tentei parar para raciocinar, mas o fato de o homem dar detalhes – o meu filho realmente é gordinho e estava num Santana prata de quatro portas quando saiu – me fez acreditar. Eu não tive nenhuma dúvida de que meu filho havia realmente sido seqüestrado”.

Passo-a-passo do golpe – De acordo com Irene, o golpe foi minuciosamente planejado. Mais ou menos às 14h do sábado, um homem, fazendo-se passar por um empresário de Imperatriz, conhecido da família, telefonou para ela relatando que o gerente de uma fazenda de sua propriedade em Senador La Rocque (município vizinho a Imperatriz) havia morrido de morte natural. O “cliente” pediu que Irene mandasse alguém para ir pegar o corpo e deu referências precisas sobre a localização da fazenda. Minutos depois, o mesmo homem ligou novamente, para saber se alguém já havia se dirigido ao local, usando a desculpa de que a mulher do “falecido” precisava de um calmante (Maracujina) e de fraldas descartáveis, pois tinha um bebê de seis meses. O filho de Irene, Josué, atendeu o telefone e confirmou que estava saindo e que levaria os produtos pedidos.

Eram 14h30. A partir daí, os bandidos tinham pelo menos duas horas (o tempo que leva para ir e voltar de Senador La Rocque) para aplicar o golpe. Eles tinham a certeza de que o filho de Irene já estava na estrada e estavam seguros de que não havia a possibilidade de contato de Josué com a família, uma vez que na região de Senador La Rocque por eles indicada os telefones celulares ficam fora de área.

Aproximadamente 15 minutos depois que Josué saiu, o mesmo homem que se dizia empresário, voltou a telefonar para Irene Martins. Ele anunciou o “seqüestro” e se identificou como “um bandido perigoso do Tocantins”. Foi nessa hora que Irene ouviu a “sonoplastia”, com ruídos de alguém se debatendo e gemendo ao fundo. Nervosa, Irene passou o telefone a outro filho, Cleidson, que escutou a exigência preliminar de comprar R$ 300 em crédito para o celular do “seqüestrador”.

‘Resgate’ de R$ 10 mil – Minutos depois que a exigência inicial foi cumprida, o bandido voltou a telefonar e exigiu o “resgate” de 10 mil. Nesse momento, mais de uma hora depois da primeira ligação, policiais civis e militares já acompanhavam o caso, tentando rastrear as ligações, que eram feitas em espaços de cerca de 10 minutos, com o “preço do resgate” baixando conforme o tempo ia passando.

Enquanto isso, Josué, o “seqüestrado”, tentava entrar em contato com a sede da funerária, que fica na rua Luís Domingues (centro de Imperatriz) para avisar que não havia encontrado o local em que estaria o corpo a ser transportado.

Como havia deixado seu celular na empresa (mais uma circunstância favorável aos bandidos), Josué telefonou da Delegacia de Polícia de Senador La Rocque. Desconfiado, o policial que atendeu na funerária não passou a ligação para ninguém da família de Josué. Só quando já eram perto das 17h é que Josué conseguiu dar um telefonema para sua mulher, da casa do prefeito de Senador La Rocque, José Oliveira Alencar, e acalmar a todos da família.

Sem saber que Josué já estava em casa, ao lado da família, o “seqüestrador de araque” voltou a telefonar, exigindo mais R$ 100 de créditos para seu celular. Quando foi informado de que seu golpe fracassara, ameaçou a família. “Sei onde todos vocês moram”, teria dito. “Não quero que meu maior inimigo passe pela angústia que eu passei. Aconselho a quem vier a ser vitimado por esses bandidos que não cedam. Ponham a polícia e até a imprensa no caso, porque isso é tudo o que os bandidos não querem”, desabafou ao JP Irene Maria Martins.

Adolescente 'seqüestrado' estava num 'cyber'

Este não foi o primeiro caso de “seqüestro por telefone” em Imperatriz. Há alguns meses, um importante empresário do ramo de calçados passou pela mesma experiência.

O “seqüestrado” teria sido seu filho adolescente, que na verdade só estava passando algumas horas de lazer num “cyber”. Sem poder entrar em contato como filho (que havia desligado o celular), e pressionado psicologicamente pelas ameaças dos bandidos, o empresário chegou a juntar R$ 1 mil e a marcar encontro com os “seqüestradores”, mas seu filho logo apareceu e desmascarou a farsa.

O Jornal Pequeno tentou saber quais providências a polícia está tomando para descobrir quem está aplicando o golpe do “seqüestro por telefone” em Imperatriz, mas o delegado Josenildo José Ferreira, que substitui o delegado regional Hagamenon de Jesus Azevedo (em férias), mandou uma funcionária informar que estava numa reunião e que só poderia atender a imprensa no final da tarde. “Eu repassei à polícia o número do celular do qual eram feitas as ligações e outras informações. Agora, vou exigir que eles rastreiem o número e investiguem até encontrar quem causou essa angústia a minha família”, afirmou Irene Martins.

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