O programa eleitoral do candidato a governador, Edson Vidigal (PSB), exibido na última sexta-feira nos faz refletir sobre a importância das palavras no campo da política, ou seja, o valor da retórica como parâmetro para coerência do pensamento e da prática dos políticos.
No programa, um dos melhores até aqui, o então líder da oposição Luiz Inácio Lula da Silva fala várias verdades sobre a situação política do nosso estado, notadamente sobre o poderio político e midiático do grupo Sarney no Maranhão como forma de manipular informações e dados, inclusive os referentes às pesquisas eleitorais.
O que saiu no programa de Vidigal, dito por Lula durante a campanha eleitoral de 2000, foi o seguinte: “sabe por que Roseana Sarney aparece bem nas pesquisas? Porque a Globo é do pai dela, o SBT é do Lobão, a Bandeirantes é de não sei quem. Só se vê a televisão falando bem deles o tempo inteiro. É por isso que ela lidera as pesquisas, porque passa o tempo inteiro, descaradamente, mentindo na televisão”.
Foram palavras duras onde o Lula expressa de coração o que pensava sobre a dominação política do grupo Sarney no Maranhão. Não foi à-toa que os jornais do grande clã tentaram – tentaram! –desqualificar o programa e também o candidato do PSB, Edson Vidigal.
A principal coluna política do jornal O Estado do Maranhão, por exemplo, diz que o candidato do PSB usou imagens do tempo em que Lula era adversário de Sarney para parecer que se tratava de fatos atuais. E para comprovar que Lula e Sarney são hoje tal como os irmãos Cosme e Damião reproduziu uma carta onde o presidente da República se solidariza com a candidatura Roseana Sarney.
Mas aí surge necessariamente uma questão: quer dizer que tudo o que o Lula disse da oligarquia Sarney no Maranhão no passado recente, todas as críticas do ex-líder sindical feitas em relação ao presidente do Plano Cruzado, enfim, os discursos inflamados proferidos nas ‘Caravanas da Cidadania’ pelo Maranhão, nada disso se pode levar mais em conta? Temos, nós maranhenses, que estornar das nossas consciências todos os discursos de liberdade e justiça social que Lula, antes de ser chefe da nação, fazia-nos crer serem verdadeiros? O que adiantou a mobilização de milhares das famílias pobres pelos quatro cantos do Maranhão feitas pelo PT estadual com Lula a tira-colo para que ouvissem da sua boca a frase “um outro Maranhão é possível”? O que dirão as quebradeiras de coco que Lula usou nas suas campanhas políticas dizendo ser vítimas da ambição e da exploração da elite política do Maranhão liderada pelo senador Sarney?
Não. A política não pode ser resumida a mero jogo de cena e de palavras. Lula não tem o direito de pedir aos maranhenses que esqueçam tudo o que disse de Sarney nos palanques. Pode até ser que o senador pelo Amapá tenha votos no Congresso Nacional que garantam ao governo manter sua base fisiológica unida, mas o povo maranhense não tem a obrigação, nem estômago, de achar que Sarney é tão imprescindível ao país a ponto do próprio presidente da República ter de renegar o seu passado, as suas palavras e seus companheiros de partido no estado em nome de um amor repentino por um ex-adversário.
Dessa forma, podemos afirmar que o programa do PSB deu início efetivamente à campanha eleitoral, pois até então este estava muito, digamos, diplomático, para uma conjuntura que exige luta de idéias e concepções onde os candidatos do campo de oposição à oligarquia devem mostrar que podem ser uma alternativa radical ao modo sarney-muradista de governar.
Espera-se que os demais programas também explorem as contradições de Lula no sentido de mostrar ao eleitor que o presidente comete um equívoco histórico ao apostar todas as suas fichas numa aliança conservadora em que o Maranhão só tem a perder. Mostrar que o senador Sarney não tem mais, se é que teve algum dia, uma visão, um projeto de nação; sua preocupação atual é apenas manter inexorável a sua dominação política no Maranhão, e, por isso, usa, como sabiamente disse o ex-deputado Roberto Rocha, o nosso estado como moeda de troca.
A Coligação da candidatura Vidigal não cometeu nenhum crime, nenhum sacrilégio. Fez, sim, um grande serviço de utilidade pública ao mostrar que um homem público não pode dizer uma coisa hoje, e amanhã dizer outra completamente diferente sem prestar contas com a sociedade.
Todo mundo tem o direito de mudar de idéia, de opinião. O que não é possível é jogarmos na lata de lixo princípios que dão ou deram sentido às nossas lutas e aos nossos ideais. Claro que o presidente também pode mudar de opinião sobre as oligarquias nordestinas, sobre o neoliberalismo, sobre a ética na política, etc.
O que não pode, o que é inadmissível é o presidente e o PT quererem impedir que a população conheça o que o então líder da oposição dizia sobre Sarney até pouco tempo. O que não podemos tolerar são retaliações que possam vir atentar contra o candidato oficial do PT e de Lula ao governo do Maranhão simplesmente porque as palavras do agora presidente, veiculadas no programa eleitoral gratuito, não fazem mais sentido que sejam ouvidas pelo povo. A palavra pode não valer nada para alguns políticos, mas para a grande maioria da população ainda é algo sagrado. Vale muito!
Robert Lobato é administrador de empresas.