Brasília – A deserção de políticos do PSDB e do PFL à candidatura presidencial de Geraldo Alckmin abriu na cúpula dos dois partidos uma discussão sobre a conveniência de intervir em diretórios estaduais. A idéia, debatida em segredo, soa mais como ameaça vã do que como algo efetivo. Além de não ser consensual, a tese esbarra na resistência do grupo de auxiliares mais próximos a Alckmin.
Embora desconsolados, os assessores mais chegados ao candidato fazem uma leitura realista do quadro eleitoral. Acham que o apoio a Alckmin não virá por decisões impostas manu militari. Avaliam que eventuais intervenções em diretórios estaduais apenas agravariam o problema. O único modo de conter a debandada seria uma recuperação nas pesquisas de opinião.
A crise em torno de Alckmin cresceu por conta de uma decisão tomada pelo governador tucano do Ceará, Lúcio Alcântara. Rompido com o presidente do PSDB, senador Tasso Jereissati (CE), Alcântara, além de esconder Alckmin na sua propaganda eletrônica, levou ao ar nesta segunda-feira imagens do adversário Lula.
Dando corda à disseminação no Estado de comitês batizados de Lu-Lu (Lula para a presidência e Lúcio para o governo), Alcântara expôs na televisão imagens de um discurso em que Lula cobre-lhe de elogios. Foi feito por no município cearense de Missão Velha em 6 de junho, no lançamento da pedra fundamental da Ferrovia Transnordestina. Logo a Transnordestina, uma das obras que compõe o discurso negativo usado pelo tucanato para tentar desqualificar Lula. O próprio Alckmin já mencionou o projeto ao listar o que chama de realizações “de mentirinha” do governo petista, uma “propaganda enganosa”.
Alcântara realçou no programa o entendimento “permanente” dos governos estadual e federal. Disse possuir “ótimo relacionamento” com Lula. E arrematou: “Quero continuar contando com a parceria do governo federal e, sobretudo, com a parceria do povo cearense (...)”.
Entre quatro paredes, Tasso Jereissati destila irritação ao referir-se a Alcântara. O ex-aliado dá de ombros. Ouvido pelo blog, um auxiliar de Alcântara disse que Tasso perdeu a autoridade para palpitar sobre os rumos da campanha ao tentar retirar o governador da disputa à reeleição. Quis convencê-lo a concorrer ao Senado, facilitando a candidatura adversária de Cid Gomes (PSB), irmão de Ciro Gomes.
Ao tentar associar a sua imagem à de Lula, Alcântara repete expediente usado por Mendonça Filho (PFL) em Pernambuco, Estado do vice de Alckmin, José Jorge (PFL), e do coordenador da campanha tucana, Sérgio Guerra (PSDB). Há uma semana, Mendonça, em tese um aliado de Alckmin, também levou ao ar imagens de Lula.
Acionada, a Justiça Eleitoral proibiu o PFL pernambucano de mostrar Lula em seu programa. Para contornar a proibição, a propaganda de Mendonça passou a citar Lula. Nesta segunda-feira, o locutor do programa realçou a suposta “parceria” que une Mendonça a Lula. Mencionou duas “obras importantes”: a Refinaria da Petrobras e, de novo, a mesma Transnordestina que o tucanato chama de “obra de papel”.
Repete-se com o PSDB o fenômeno que infelicitou a candidatura presidencial de José Serra em 2002. Alckmin acha que os quintas-colunas mudarão de comportamento a partir de sua recuperação nas pesquisas. Munido de dados internos, o candidato confia que a subida virá. O otimismo depende, porém, do teste das pesquisas.
Uma nova sondagem será divulgada pelo Datafolha nesta semana. Também o instituto Sensus registrou no TSE uma nova pesquisa. Haverá ainda dois levantamentos de âmbito estadual. A pedido do Diário do Grande ABC, o instituto Toledo e Associados fará uma pesquisa em São Paulo. Perguntará sobre a intenção de voto para presidente e para governador. O mesmo será feito em Goiás pela firma Serpes Pesquisas de Opinião, contratada pelo jornal O Popular.
(Josias de Sousa – Folha de São Paulo)