Escutas da Polícia Federal feitas para a Operação Saúva, que desmontou um esquema de corrupção em licitações no Amazonas, acabaram gravando, no final do ano passado, o vice-governador do Estado e candidato à reeleição, Omar Aziz (PMN), pressionando a Assembléia Legislativa pela aprovação de uma emenda constitucional que garantiu a ele, quando deixar o cargo, uma aposentadoria de aproximadamente R$ 20 mil. As gravações também mostram Aziz tentando impedir a imprensa local de divulgar a notícia.
As gravações foram feitas em dezembro no ano passado e janeiro deste ano. Aziz utilizava o telefone celular - que estava grampeado - do seu assessor Manoel Paulino da Costa Filho, um dos presos pela PF por suspeita de envolvimento nas fraudes em licitações. Nas conversas, Aziz, 47, tentou apressar a aprovação da emenda. Na época, ele temia não ser escolhido para compor a chapa à reeleição do governador Eduardo Braga (PMDB). "Nos temos até o dia 20 [para aprovar a emenda da aposentadoria]... Se algum jornal [ficar sabendo], você tem que me avisar com antecedência, tá certo, pra eu segurar, viu?", disse ele em conversa com o presidente da Assembléia, Berlamino Lins (PMDB), em dezembro. Em outra ligação, Aziz falou com o deputado Francisco Balieiro (PMDB) até sobre o horário em que a emenda deveria ser aprovada para não chamar atenção da oposição.
"Eu tô preocupado, se não sair agora [a emenda] não sai nunca mais, entendeu?", disse Aziz. Balieiro respondeu que a emenda ia ser aprovada "na surdina". Aziz completou: "Isso! Lá de madrugada".
A emenda constitucional foi aprovada em 21 de dezembro, alterando o artigo 278 da Constituição do Estado, que concedia a aposentadoria apenas a governadores. Assinaram a emenda Berlamino e os deputados Liberam Moreno (PHS), Vicente Lopes (PMDB), Wanderley Dallas (PMDB), Lino Chíxaro (PPS), Wallace Souza (PP), Arthur Virgílio Bisneto (PSDB) e Sinézio Campos (PT). A remuneração aprovada para o vice-governador corresponde a 95% do salário de um desembargador (R$ 22 mil).
Imprensa - No dia 26 de janeiro deste ano, uma nota sobre a alteração do artigo foi publicada no jornal "A Crítica", de Manaus. Com isso, Aziz iniciou uma operação abafa - para evitar que outros jornais também publicassem a notícia - que lhe custou oito horas e 16 ligações.
O vice-governador ligou para o superintendente de "A Crítica", João Bosco Bezerra de Araújo. "O único jornal que publicou... A única coisa que eu pedi", reclamou Aziz. "Pisei na bola com você, mas vou corrigir assim, mandando parar, tá?", respondeu Araújo.
Em seguida, Aziz ligou para o vice-presidente do jornal "Diário do Amazonas", Francisco Cirilo Anunciação Neto, e pediu para que ele desse "uma segurada" na história. "Deixe comigo", respondeu Anunciação.
Em seguida, Aziz contatou o empresário Samuel Hanan, que foi vice do ex-governador Amazonino Mendes (PFL). Amazonino é conselheiro do "Correio Amazonense".
"Samuel, "A Crítica" saiu numa matéria hoje sobre aquele negócio, entendeu? Eu queria que tu desse uma ligada [para a redação do "Correio"] pra reforçar, pra não deixar sair nada", disse o vice-governador. "Eu falei com o Amazonino. Ele vai pra lá [para a redação] agora pra tirar, inclusive tinha algumas notinhas em colunas, vai tirar tudo", disse Hanan.
O juiz Cassio André Borges dos Santos, mestre em direito constitucional pela PUC-SP, afirmou que a aposentadoria para vice-governador é inconstitucional porque fere o princípio da igualdade - o vice conseguiria se aposentar com apenas quatro anos de trabalho, diferentemente dos outros cidadãos do país.