A verdade, esta pobre coitadaOpinião
Eudes Oliveira de Alencar
eudesalencar@hotmail.com
Desde pequeno, ouvia minha mãe dizer, quando me pegava em alguma mentira ou suspeitava que lhe tascaria uma: “Meu filho, nem que o sangue dê no meio da canela, fale a verdade!” Ainda pequeno, eu não entendia essa história de “sangue no meio da canela”. A expressão soava muito estranha, mas certamente eu entendia o sentido de ênfase tão esquisita, afinal o chinelo ou o cinturão ameaçadores me fariam entender até a teoria geral da relatividade.
A troco destas sutis pressões, levei para a vida este compromisso. Vivi situações difíceis em que tive que colocar à prova o aprendizado de que a verdade, seja em que circunstância for, é sempre melhor. Como qualquer ser humano, nem sempre estive à altura de tão nobre ensinamento, mas não desisti de me manter no caminho, graças a Deus. Penso que assim é com boa parte dos cidadãos deste vilipendiado país.
Há muito tempo, porém, descobri que a verdade, independente de quem fale, nunca muda. Parafraseio algo que li há algum tempo (se o leitor sabe o autor, por favor, me relembre). “Nada pode contra a verdade, a não ser a própria verdade.” A verdade a si mesmo se autentica. Por suposto, quando se trata do âmbito legal, a verdade deve ser seguida de provas apresentadas por quem fala. O ônus da prova é de quem acusa, lembra um princípio jurídico.
Todo este volteio é para mostrar meu estarrecimento diante do quadro atual na política brasileira. Não bastasse tudo que já se viu e suspeito que ainda não vimos tudo, deparamo-nos novamente com uma “eiscelência” maranhense protagonizando uma destas chacotas que não cabe nem numa república de bananas, como costumavam apelidar os americanos a qualquer país abaixo da linha do Equador.
Aliás, lembro-me do Otto (não é o cachorro do sargento Tainha), embora o sargento se pareça com o chanceler alemão, que disse certa vez que “Quanto menos o (zé) povinho souber como são feitas as salsichas e as leis, mais dormirá tranqüilo.” O chanceler de ferro (Otto Von Bismarck) criou esta frase antológica e alguém tratou de acrescentar que não comeríamos nem salsicha e nem gostaríamos de política. Da salsicha você pode até não gostar, mas da política não há como se livrar. Gostando ou não, somos seres políticos.
O senador João Alberto (PMDB-MA) volta aos holofotes como um legítimo representante do corporativismo entre os políticos – se bem que a coisa está mais para compadrio. Lembrando quem é sua “eiscelência” aos esquecidos: é o homem que afirmou em entrevista em abril de 91, ao final de seu mandato (abril de 90 a março de 91), que seu governo fora 90% honesto. Uma curiosidade. À época, numa tentativa canhestra, tentou explicar o ato falho dizendo o seguinte: “O que eu quis dizer é que só tinha conseguido combater 90% da corrupção deixada pelo governo muito corrupto do (Epitácio) Cafeteira” (Jornal do Brasil 15/04/99). Este cidadão a quem se referiu sua “eiscelência” é hoje candidato ao Senado na chapa em que aquele aparece como vice ao governo do Estado. Como é possível?
Alguém perguntaria se não é o caso de, depois de tanto tempo, esquecer o escorregão de sua “eiscelência”. A sábia Bíblia diz que árvore boa produz bom fruto e árvore má, um fruto ruim. De lá para cá, cate-se os frutos bons de sua eiscelência.
Mas, voltando à vaca morta. Sua “eiscelência” agora é presidente do Conselho de Ética do senado – isto não é uma piada – e nesta condição, no dia 17/08, manifestou-se quase como se dissesse que os três senadores (Magno Malta, Nei Suassuna e Seris Shessarenko) sairiam ilesos das acusações de serem partícipes da máfia dos sanguessugas (ele arquivaria os processos), porque, segundo sua “eiscelência”, o acusador é um bandido e de tal sujeito ele não aceitaria a palavra. Acontece que o “bandido” acusou seus pareceiros e as investigações levaram à produção de provas robustas contra os deputados e senadores. Olha a verdade aí se fazendo valer!
É de se perguntar. Que tipo de gente um ser humano se transforma quando, por obra e graça do voto da patuléia, é alçado a um cargo público? Nas atuais circunstâncias, a fábula “A Revolução dos Bichos” (1945) do George Orwell, é hoje, no Brasil, uma triste verdade. Ao final, os porcos, tendo tomado o poder, tornaram-se piores que os homens - seus opressores - e os bichos da fazenda que escolheram os porcos, novamente oprimidos ainda com mais crueldade, a olhar pela janela, dentro da casa os porcos negociavam com os homens e já não se sabia quem era homem e quem era porco.
Costume de cachimbo põe a boca torta. Tal foi a reação de alguns senadores e da imprensa, inclusive com ameaça do vice no Conselho de Ética, senador Demóstenes Torres, que afirmou que levaria o caso ao plenário do Senado e até mesmo Supremo Tribunal Federal. Diante disso sua “eiscelência” precipitado teve que voltar aos trilhos. Respondeu com bravatas. Sabe como é, a mulher de César deve também parecer honesta: “cortarei na carne, irei a fundo... blá, blá, blá”.
No caso dos políticos a questão da prova é, de certo modo, o de menos, pois algumas nunca serão encontradas. Como punir o senador Magno Malta, por exemplo, que recebeu a propina adiantada, na forma de um carro e ainda assim não fez a emenda?
A mentira é moeda comum entre os políticos. José Serra disse que falou a verdade, até assinou um documento dizendo que cumpriria o mandato de prefeito e nunca renunciaria por outro cargo, mas.... Questionado pela quebra da palavra (escrita e assinada) saiu-se com esta pérola do cinismo explícito: “Naquela época, eu disse totalmente a verdade do que eu pensava. O que houve de lá pra cá foi uma mudança nas circunstâncias”.
A verdade para estes senhores e senhoras é situacional. A campanha eleitoral mal começou e vi o candidato-presidente Lula mostrando feitos que não fez: Duas refinarias de petróleo, das quais só o terreno e papel existem. Sete novos campi universitários, nenhum dos quais plantou-se um único tijolo. O Geraldo Alckmin dizendo que fez 19 hospitais em São Paulo. Investigado, 17 deles são reformas, obras de seu antecessor e apenas 2 são novos.
A verdade é muito dura e crua. É com a mentira (deles) e amnésia (nossa) que se vai. Até quando? José, para onde?
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