Opinião
Jorge Leão*
Os terapeutas da alma “perdem seu tempo” em longas consultas, ouvindo atenciosamente as dores da alma de quem sofre, a duras penas, as angústias pelo sentido da vida que se foi.
Eles empobrecem na matéria corroída, pois “perdem” seu precioso tempo com os lamentos subterrâneos alheios. Eles levam o mercado da medicina à falência, pois suas clínicas foram transformadas em escolas em miniatura. O capitalismo da saúde imediata das farmácias quer a cabeça destes sonhadores enlouquecidos...
Assim, o mundo controvertido da solidão aterroriza as prestações de psicoterapia em débito. Quem sentiria maior constrangimento senão os mercadores da doença fabricada, diante da calamidade de uma agência de publicidade sem planos de saúde prontos na cabeça dos assistentes fabricantes de imagens mortas?
Dores inconscientes são sinais do deserto da alma no transcurso da vida. Elas surgem como veículos de absorção do mundo pelo aparelho ilustrativo da imaginação criativa. O trabalho terapêutico alcança desse modo o limite da fala que processa a vivência psíquica desfalecida pelos ramos ressequidos da dor. Quando a pessoa deixa de criar imagens significativas, sua percepção da realidade enfraquece pela desconexão com a fonte interior da alma. Diz-se, servindo-se de uma metáfora religiosa, que o ser humano desligou-se de Deus.
Quando o paciente atormentado fala de si, algo de sua translúcida nudez resplandece no vazio infinito da ausência de significados. Por isso, a luta do indivíduo não é contra sua história, mas a favor de si mesmo, perdido na breve passagem do tempo pelo esquecimento de seu próprio ser. O ser humano adoece quando ecoa em seu horizonte a ausência do sentido da vida. Entra assim em cena a ação dos terapeutas da alma. Aqueles que escutam os apelos do ser no chão pedregoso do deserto de seus adoecidos interlocutores.
Os terapeutas da alma navegam pelo processo da dívida existencial a ser resgatada no tempo de suas consultas. Eles, orientados pela sinfonia do ritmo cotidiano de sua vivência, acabam mergulhando em seu próprio interior, mediante a escuta atenta, que corresponde, quase sempre, ao caminho da tragédia humana que trazem os relatos de seus pacientes. Assim, os médicos da alma estão a todo instante ligados ao caminho da dor de quem relata suas queixas, dialogando com os céus pela escadaria da terra.
Os pacientes vêem perdidas suas histórias, e pensam a pintura de sua regeneração pelas palavras do médico. Há inevitavelmente uma confiança inicial e uma mascarada expectativa por parte dos pacientes, a serem contempladas ou não durante as conversas com o terapeuta. Entretanto, ninguém busca ajuda sem minimamente aguardar uma resposta ao seu anseio. A esperança da cura constitui, por isso, o oxigênio do diálogo, segundo as trilhas descobertas no domínio da experiência humana comunicada e partilhada durante alguns minutos.
O tratamento segue como pistas que se alternam mediante avanços e recuos, numa luta constante pela recuperação da alegria de viver, que é consumada pela decisão por reconstruir a vida de quem sofre dores amargas no cerne de sua alma em lama, bem como pela recuperação de seu sentido mais profundo e verdadeiro. A doença encontra paulatinamente o seu ocaso, já que perde sua força imperativa na consciência do paciente transformado em agente de sua cura. As cores da alma curam as dores do corpo. A saúde lava as células da tristeza.
Assim, a fala poderosa do médico terapeuta encontra o Deus escondido nas lacunas do subterrâneo outrora abandonado da alma. Antes, um paciente fragmentado pela dor incessante. Agora, o ser ressurgido das cinzas do abandono rumo à felicidade de um olhar cristalino, na cumplicidade da consulta transformada em confissão. O médico transformou-se em amigo; o paciente, em ser humano repleto de vida. A saúde mora agora na morada da alma ressurreta.
*Professor de Filosofia do Cefet-MA