SEBASTIÃO NERYHISTÓRIAS DA POLÍTICA
Rio - O grande poeta português Julio Dantas, do clássico "A Ceia Dos Cardeais", veio ao Brasil em 48, foi a Belo Horizonte. O prefeito era Otacílio Negrão de Lima. Desceu na estação de trem. As autoridades o esperavam.
Não conhecia ninguém. Sabia apenas o nome do prefeito: Negrão. Olhou para frente, abriu os braços e se dirigiu rápido para as autoridades:
- Doutor Negrão, meu abraço!
Não era o prefeito Otacílio Negrão. Abraçou Melo Viana, senador, mulato retinto, quase negro, politicamente incorreto.
ALKMIN
José Maria Alkmin, ministro da Fazenda, e Augusto Frederico Schmidt, assessor de inteligência de Juscelino, jantavam com o embaixador do Egito. A conversa corria sobre as influências árabes no Brasil. Schmidt provocou:
- Nosso Alkmin é um árabe puro. O que é que significa mesmo Alkmin?
O embaixador sorriu, ficou sem jeito, respondeu:
- "Al" é o artigo "o". "Kmin" é "mentira". "Alquime" é o ouro falso. Alquimia eram conhecimentos quiméricos da Idade Media.
- O senhor está dizendo então que eu sou "o mentiroso"?
Despediram-se às gargalhadas. Schmidt foi contar a JK.
- Alkmin já esteve aqui. Disse que "Alkmin" é "o valente".
SANTIAGO
Santiago Dantas foi à Polônia receber o titulo de doutor Honoris Causa da multisecular Universidade de Cracóvia (terra de João Paulo II). Na hora da solenidade, deu-se conta de que esqueceu o texto do discurso de agradecimento que tinha preparado para ser lido, como manda a tradição.
Chamou Marcilio Marques Moreira, diplomata e assessor, pediu algumas folhas em branco, levantou-se e, fitando-as com firmeza, pronunciou longo discurso em francês, como se estivesse lendo. Só Marcilio sabia.
JOSÉ BONIFÁCIO
Em maio de 76, na viagem do presidente Geisel a Londres, brasileiros que moravam lá levaram faixas para frente da embaixada do Brasil, contra a visita do "ditador". Um jornalista encontrou José Bonifácio, líder da Arena:
- Deputado, o que o senhor está achando das faixas e manifestos?
- Não estou achando nada, meu caro. Não sei inglês.
AUGUSTO DE LIMA
Em 40, Getúlio nomeou o historiador e intelectual mineiro Augusto de Lima Júnior, filho do poeta e da avenida do poeta, ministro plenipotenciário do Brasil em mais um centenário da Independência de Portugal.
Liminha chegou a Lisboa de discurso no bolso, feliz com a história e com a retórica. Mas no dia seguinte também chegou o ministro do Exterior João Neves da Fontoura, orador pomposo, acompanhado de ilustre comitiva, e comunicou que, na solenidade, ele ia falar em nome do Brasil.
Lima Júnior enlouqueceu. Telefonou para o hotel e disse ao ministro que havia chegado do Brasil um telegrama urgente do presidente para ele. João Neves correu para lá, para ler o telegrama Não havia telegrama nenhum.
JOÃO NEVES
Liminha saiu, fechou a porta por fora. Os funcionários já tinham saído, João Neves ficou lá sozinho, trancafiado na embaixada, sem chave e sem ninguém para chamar. Liminha foi à solenidade, leu seu discurso, orgulhoso.
Mal acabou, chegou João Neves, suado, esbaforido, indignado, e pior ainda, mentindo. Pediu desculpas pelo equivoco quando ao horário, que o fez atrasar-se. Queria matar Liminha. Voltou ao Rio, contou a Getulio, que riu:
- E você não sabia que o Liminha é maluco?
MÁRIO PALMÉRIO
Mário Palmério, embaixador do Brasil em Assunção, escrevendo seus romances e compondo belas guarânias ("Saudade" só não é mais popular lá do que o hino do Paraguai), fez da embaixada refúgio de políticos e intelectuais da oposição. Uma tarde, chega o então ministro do Exterior, Sapeña Pastor:
- Senhor embaixador Dom Palmério, nosso país deseja e precisa manter as melhores relações com o Brasil. Mas o senhor tem aqui na embaixada, exilados, mais de 40 inimigos do governo, causando os maiores problemas para nós. O senhor não podia tomar uma providencia para ajudar nosso governo?
- Pois não, senhor ministro, já estou tomando. Vamos lá em cima, no segundo andar, para o senhor ver a beleza de apartamentos que estou preparando para asilados de luxo.
- Mas, Dom Palmério, esta é uma brincadeira de mau gosto.
- Não é não, Dom Pastor. O general Stroessener, hoje seu presidente, em outros tempos já foi hóspede da nossa embaixada. Em qualquer eventualidade o senhor também poderá ser nosso hóspede.
O ministro continuou preferindo as guarânias de Palmério.
JÂNIO
Cassado na primeira lista do golpe de 64, Jânio foi para sua Londres querida. Tinha horror de encontrar brasileiro. Estava caminhando na rua com a filha Tutu e o assessor Ruy Nogueira Neto, um eleitor brasileiro o viu:
- Presidente, o senhor sabe quem sou eu?
- Ora, meu caro, se você, que é você, não sabe quem você é, logo eu é que teria de sabê-lo?
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