Eleição inédita atrai grande imprensa para o Maranhão
Como no caso Lunus
Folha de São Paulo dedica quase uma página ao pleito que envolve o governador José Reinaldo Tavares e o grupo Sarney
Como no caso Lunus - quando 1,350 milhão de reais em dinheiro vivo foi apreendido pela Polícia Federal no escritório da empresa da então governadora Roseana Sarney e seu marido, Jorge Murad, e jogou por terras as suas pretensões presidenciais -, com a proximidade das eleições de 1 de outubro, a mídia nacional se volta para o Maranhão. E dá destaque especial às mazelas da oligarquia quarentona, como foi o caso do jornal Folha de São Paulo, que enviou a São Luís a jornalista Elvira Lobato.
Em quase uma página inteira de jornal, a Folha destaca o poderio da família Sarney no Maranhão, e as condições em que disputa o governo do Estado, pela primeira vez sem contar com a máquina oficial, mas se contrapondo a isso com o monopólio dos cargos federais, que tem usado com maestria para fazer política.
Outra reportagem mostra a situação dos cooperativados da fábrica de confecção de Rosário, sonho vendido a centenas de pais de família do município e adjacências como uma chance para mudar de vida, mas que, com o calote aplicado na época da administração de Roseana Sarney, transformou-se em pesadelo para quem entrou nessa tremenda fria.
Veja as matérias:
ELEIÇÕES 2006 / MARANHÃO
Sarney é oposição pela 1ª vez em 40 anos
Roseana contrapõe força dos cargos federais no Estado à frente liderada por José Reinaldo
Elvira Lobato
Enviada especial a São Luís
Pela primeira vez em 40 anos, a família Sarney disputa uma eleição no Maranhão tendo contra ela a máquina do governo estadual, a maioria dos prefeitos e da Assembléia. A campanha começou com troca de acusações de corrupção e de desvio de verbas públicas entre o grupo da senadora Roseana Sarney (PFL) e os candidatos apoiados pelo governador José Reinaldo Tavares (PSB).
Cria política do ex-presidente José Sarney, Tavares rompeu com ele em 2004 e apóia três candidaturas adversárias de Roseana: a do ex-presidente do STJ Edson Vidigal (PSB), a de Jackson Lago (PDT) e a de Aderson Lago, do PSDB. A senadora desdenha da aliança: “Quem tem três candidatos não tem nenhum”. Com 63% das intenções de voto na pesquisa do Ibope em agosto, venceria a eleição já no primeiro turno.
Mesmo fora do governo, o sobrenome Sarney simboliza o poder no Estado. Deputado federal, quatro vezes senador, governador (1966-71) e presidente, José Sarney foi decisivo na eleição de todos os governadores que o sucederam. Roseana foi governadora de 1995 a 2002.
Ao se aliar a José Reinaldo Tavares, que foi homem de confiança de Sarney por 38 anos, a oposição perdeu a coerência do discurso. Tavares é acusado de usar verbas públicas para favorecer prefeitos aliados e discriminar os adversários. A mesma acusação existe contra a família Sarney em relação aos programas federais.
O candidato do PSDB ao governo, Aderson Lago, diz que continua de oposição, embora seu partido tenha uma secretaria no governo. “Sou oposição ao poder, e o poder no Maranhão tem CPF, endereço e se chama José Sarney”, afirma.
Ouvidos pela Folha, o governador e os três principais adversários de Roseana disseram que os Sarney dominam o Tribunal de Contas do Estado, o Tribunal de Justiça, os cargos federais e sobretudo a mídia.
A família Sarney é proprietária da principal rede de TV (TV Mirante, afiliada da Globo), do principal jornal (“O Estado do Maranhão”) e da principal rede de rádios, a Mirante. A segunda maior emissora (Difusora, afiliada do SBT) é da família do senador Edison Lobão (PFL), coordenador da campanha de Roseana Sarney. A Band local é de outro aliado, o ex-presidente da Assembléia Manoel Ribeiro. Há ainda o jornal “Veja Agora”, em São Luís, do cunhado de Roseana Sarney, Ricardo Murad.
Segundo o pedetista Jackson Lago, 53 dos 56 cargos federais no Estado foram indicados pelos Sarney. A última indicação foi em junho, com a posse de Gerardo Freitas Fernandes, primo de Manoel Ribeiro, na superintendência regional do Departamento Nacional de Infra-estrutura de Transportes.
Roseana Sarney é acusada de usar o programa Luz Para Todos, do governo federal, para favorecer prefeituras. O programa é administrado pelo Ministério de Minas e Energia, cujo titular, Silas Rondeau, foi indicado por José Sarney. O diretor nacional do Luz para Todos, José Ribamar Santana, é maranhense e indicado por Sarney. O governador registrou denúncia no Ministério Público Federal e se queixou com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff.
Roseana Sarney nega interferência no programa, mas diz que ajuda os prefeitos enviando ofícios. “Nesse campo, o governador faz pior”, diz ela, referindo-se ao uso de verbas públicas para favorecer aliados. O diretor do Luz Para Todos, José Ribamar, contesta a acusação.
Convênios de Tavares – A balança de acusações de uso indevido de recursos públicos é pesada tanto do lado da candidata Roseana Sarney, quanto do lado do governador. Tavares assinou 1.323 convênios com prefeituras e com associações de diversos municípios para repasses de verbas nos últimos dez dias de junho. Nas cidades em que o prefeito é aliado de Roseana Sarney, ele entregou o dinheiro a associações ligadas a políticos de sua base aliada.
Em Mata Roma, a Associação Comunitária Lídia Almeida, ligada ao deputado estadual Paulo Almeida Neto, do partido do governador, recebeu R$ 101,7 mil para construção de abastecimento de água. A Folha conversou com a mãe do deputado, Rosa Almeida, que diz ter deixado a presidência da entidade no início do ano. Indagada sobre detalhes dos convênios, disse: “Num sei, cumade”. O governador diz que não houve irregularidade nos convênios.
Pólo da primeira gestão de Roseana vira herança maldita
Da enviada especial a Rosário
A senadora Roseana Sarney (PFL) tem uma “herança maldita” de sua primeira gestão como governadora do Estado, que será usada contra ela na campanha: o pólo de confecção de Rosário, que deixou endividados 3.600 trabalhadores rurais. Eles foram enganados e assinaram fichas de empréstimo no Banco do Nordeste. Não há acusação contra ela de envolvimento no golpe.
A costureira Maria das Graças Santos, 58, recebeu uma carta do banco, há dez dias, cobrando o pagamento de R$ 623,3 mil. A ex-empregada doméstica Edilma Maria do Nascimento, 52, recebeu cobrança do mesmo valor, abandonou o emprego no Rio e voltou com medo de perder o único bem material que possui: uma pequena casa, sem reboco, em Rosário, a 60 Km de São Luís.
As famílias foram, involuntariamente, envolvidas no golpe arquitetado pelo chinês naturalizado brasileiro Chhai Kwo Chheng, que responde a ação criminal.
A então governadora endossou o projeto. Até hoje, existem as placas na fachada dos galpões com o mapa do Estado e o slogan de seu governo: “Maranhão Novo Tempo”. O projeto previa a produção de camisas que seriam exportadas para a China, por uma empresa de Chheng, chamada Kao-I, que está abandonada. Foram construídos cinco galpões, com 2.500 máquinas de costura, que trabalham de quatro a cinco meses por ano, quando há encomendas de fardas militares.
No período produtivo, a renda média mensal por trabalhador é inferior a um salário mínimo, segundo o presidente da Cooperativa Rosa Coop, José Tomaz de Oliveira Chagas, 50. Ele é vigia da escola pública municipal, está há dois meses sem receber salário e está endividado.
Chagas conta que o Estado organizou a cooperativa e a criação de 90 associações com 40 trabalhadores cada. Há trabalhadores rurais que devem ao banco, sem saber. O lavrador José Damião Oliveira, 48, diz que pensou que assinava a ficha de emprego.
Há situações dramáticas, como a do casal Genival Sales Santos, 38, e Marilene Brito Sales, 36, quatro filhos, e renda mensal de dois salários mínimos. Cada um deles deve R$ 623 mil. Ele é vigia de uma obra abandonada financiada pela Sudam, e família mora em um galpão de madeira ao lado da obra.
O procurador da República Marco Aurélio Adão disse que entrará com ação judicial para que sejam anuladas a dívida dos agricultores no BNB e que ela seja cobrada dos que armaram o golpe.
Outro lado – Roseana Sarney diz que não considera o projeto fracassado. “”Eu acho que deu certo, porque onde não existia emprego, hoje há de 500 a 600 pessoas trabalhando. É evidente que não aconteceu como a gente esperava.”
A candidata diz que apoiou o projeto porque acreditou que daria certo. (EL)