TRÊS HISTÓRIAS ELEITORAIS
Rio - Primeira história. Na entrada do Teatro Municipal do Rio, dias atrás, para a ópera Capuleti e Montechi, de Bellini, magnífico espetáculo com cantores, coro e orquestra do próprio teatro, sob a regência do maestro Sílvio Barbato, duas elegantes mulheres conversavam à minha frente:
- Você já decidiu seus candidatos?
- Não, ainda está cedo. Só agora vou começar a prestar atenção neles, para escolher. Aliás, só tenho um, para deputado federal, o Álvaro Lins, aquele que foi chefe da Polícia Civil, um homem bonito, sério, capaz. Vou procurar o comitê dele, para pegar material, ver o número certo.
- O comitê dele é longe, fica lá em Bangu, numa praça.
- O quê? Lá em Bangu? Você tem certeza?
- Tenho, sim, um dia desses passei em frente, de carro. Comitê grande.
- Já perdeu meu voto. Você acha que vou votar em um candidato que tem comitê em Bangu, que deve ter vindo lá daquelas bandas? Vou procurar outro.
E foram ver a história eterna de Shakespeare, em que a disputa idiota de duas poderosas e granfinas famílias de Verona acabou levando Romeu e Julieta ao suicídio, bem antes e muito longe de Bangu e de Álvaro Lins.
DIÁRIO DE PETRÓPOLIS
Segunda história. O jornal "Diário de Petrópolis" estava sem a capa, a página de fora, no fim de semana, na entrada da ecológica pousada Monte Imperial, em Petrópolis. Emanuele, simpática e competente recepcionista, jovem, linda e loura, como uma alemãzinha de Blumenau, me explicou:
- Sou eu que tiro a primeira folha, para os hóspedes não perderem a paz, não se perturbarem com essas notícias políticas, todas muito ruins. Mas deixo o resto, a parte social, da cidade, de turismo, de viagens, e os classificados.
E continuou de consciência em paz, protegendo os hóspedes da política.
"COLA"
Terceira história. Paraibano, 50 anos, muito tempo de Rio, porteiro de edifício residencial, bom edifício, no coração do Leblon, me pergunta:
- Em quem o senhor vai votar para presidente?
- Então diga primeiro seu candidato.
- Não sei ainda, doutor. Não resolvi. Acho que vou votar no Cola.
- Cola? Quem é Cola?
- Aquele lá de Alagoas, que já foi presidente. Vou votar nele de novo.
Expliquei que Collor não é candidato e que ele podia continuar votando em um candidato de Alagoas. Acho que ganhei o voto para a Heloísa Helena.
LULA
A campanha eleitoral oficial começou ontem. Ainda bem. A eleição ainda está assim, na mais absoluta alienação. E Lula fazendo o que os generais-ditadores juntos não fizeram: o uso escancarado, descarado, do governo, da máquina pública, do dinheiro público, em favor dele.
Todo dia ele soltava uma Medida Provisória, fazia um comício no palácio do Planalto e ganhava, à noite, as manchetes combinadas com os jornais de TV, descarregando dinheiro público para um pedaço do eleitorado ou uma região do país. No fim de semana, ia lá e faturava em comício aberto.
A Justiça Eleitoral virou noveleira. Só permitia campanha na televisão. Iam acabar desempregando o Benedito Ruy Barbosa, Glória Perez, Sílvio de Abreu, Jayme Monjardim, João Emanoel Carneiro. "Eleição é televisão".
LUIZ DULCI
Durante meses seguidos, o Ibope que trabalha para o governo e o palaciano Monteiro Neto da CNI, o Vox Populi que trabalha para o PT, o Sensus que trabalha para o governista Clesio Andrade da CNT, e o Datafolha que trabalha para a Folha, plantaram "pesquisas" semanais, às vezes duas por semana da mesma "fábrica", em todos os jornais de televisão (e nos jornais do dia seguinte), para "provarem" que "Lula já ganhou no primeiro turno".
Como a rainha de Sabá, Lula não diz nada de novo, desfila. Nos palanques, não apresenta programa, não fala o que vai fazer. Grita frases ditadas pelo Luiz Dulci e bem decoradas. Não vai aos debates das TVs, porque tem medo de dizer ainda mais besteiras do que já disse, aos montes.
Em quase quatro anos de governo, ninguém via o sério, competente e inatacável ministro mineiro Luiz Dulci. Os mensalões e sanguessugas rolavam escandalosos dentro do palácio, saindo para comprar aliados, partidos, senadores e deputados, e Dulci, discreto, lá no seu gabinete, escrevendo os discursos que Lula ia ler, ou decorar quando ia "falar de improviso".
"JORNAL NACIONAL"
A entrevista ao "Jornal Nacional", escondida, no Alvorada, mas sem Dulci ditar, foi um flagrante de quem é Lula. Memória privilegiada, enquanto repete o que lhe disseram antes para falar, ele vai bem. Mas quando precisa responder a perguntas, formular uma frase, abre todas as torneiras da burrice:
- "Ninguém combateu (sic) tanto a ética quando eu". Ou: - "Tudo no Brasil sobe, cresce, só o salário desce, cai (sic)".
Duas verdades que saíram sem querer, como vômitos. E atrás dele, constrangedoras, a solidão e a virgindade dos livros da biblioteca do palácio.
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