Roseana Sarney mente várias vezes em entrevista à MirantePela primeira vez e depois de sete versões diferentes para a origem do dinheiro, a candidata do PFL ao governo do Maranhão, Roseana Sarney Murad, admitiu que era seu o R$ 1,3 milhão, em dinheiro vivo, encontrado pela Polícia Federal na sede da Lunus Participações, no início de 2002. “Fizeram aquela armação, colocaram o dinheiro todo em cima da mesa para tirar a fotografia e colocaram na televisão, e esse dinheiro me foi devolvido e pude pagar todas as minhas dívidas que tinha contraído durante a minha campanha”, disse Roseana Sarney durante entrevista no Jornal do Maranhão, exibido ontem pela TV Mirante.
Anteriormente a esta versão, o marido da candidata, Jorge Murad, havia apresentado, à época do escândalo, sete versões diferentes que acabaram por fazer desabar a pré-candidatura de Roseana Sarney à Presidência da República.
Mostrando-se nervosa durante os pouco mais de oito minutos de entrevista, a candidata caiu em contradição várias vezes. “Todas as minhas contas foram aprovadas pela Assembléia Legislativa, elas foram aprovadas pelos Tribunais de Contas da União e do Estado”, afirmou Roseana Murad.
Não é isso o que está registrado no Tribunal de Contas da União. Lá existem pelo menos seis processos correndo contra ela, por irregularidades várias cometidas durante seu governo. Um diz respeito ao conhecido escândalo do Pólo de Confecções de Rosário, dois se referem a prestações de contas no âmbito da antiga Sudam, de cujo conselho Roseana Sarney foi presidente, na condição de governadora; um quarto processo é referente à auditoria nas obras de construção da Penitenciária de Pedrinhas; o quinto trata de uma prestação de contas do Finam, e o sexto está relacionado a um convênio de R$ 4,6 milhões para reconstrução de uma ponte sobre o rio Itapecuru e a reconstrução de cinco mil casas, destruídas por enchentes nos seguintes municípios: Pedreiras, Bacabal, São Luiz Gonzaga, Arari, Duque Bacelar, Joselândia, Arame, Presidente Dutra, Santa Quitéria, Tuntum, Esperantinópolis e Timon. Por não ter entregue as obras contratadas, Roseana Sarney chegou a ser condenada, em 2 de abril de 2003, a devolver ao erário a importância de R$ 826.606,28, podendo ser pagos em 24 parcelas de R$ 34.441,92 cada.
A candidata informou, ainda, que herdou o projeto Salangô do governo anterior e o concluiu. A concorrência e o contrato, é verdade, foram firmados em 1993, durante o governo Edison Lobão, mas este último estendeu-se durante o primeiro mandato de Roseana Sarney, sendo concluído em 1998, depois de cinco termos aditivos. Dele sobrou um superfaturamento identificado de R$ 14 milhões nas obras de irrigação e várias irregularidades. “Se eleita for essa obra vai funcionar. Vou ajudar o trabalhador rural daquela região”, declarou. A então governadora teve o seu segundo mandato para corrigir os erros, mas não os fez.
Sobre a estrada Arame-Paulo Ramos, Roseana Sarney afirmou que pagou por obras já executadas e garantiu: “a estrada não é fantasma, a estrada existe”. Não, a estrada não existe. O que existe é uma picada esburacada, que nunca recebeu asfalto.
“A fábrica de Rosário, infelizmente, foi um projeto que acreditei muito, mas ele não se transformou, não foi pleno o projeto e hoje ainda existe”, disse Roseana Sarney, ao tentar explicar o que aconteceu no caso do Pólo de Confecções de Rosário. O entendimento do procurador Marinus Eduardo De Vries Marsico foi mais preciso: “É de se concluir que a responsabilidade pela aplicação dos recursos de modo diverso ao estabelecido no contrato firmado com o Banco Mundial é de inteira responsabilidade do Estado do Maranhão..., representado pela então governadora Roseana Sarney...”. No relatório, o então ministro-relator Lincoln Magalhães da Rocha, observou: “... Tanto o Governo do Estado do Maranhão quanto a empresa Kao I contribuíram para a não efetividade do investimento”.
Quando o chinês naturalizado brasileiro Chhai Kwo Chheng fugiu com boa parte do dinheiro destinado ao projeto pelo Banco Mundial e do Banco do Nordeste, em fevereiro de 1997, Roseana Sarney estava no final de seu primeiro mandato. Até 2002, porém, ao deixar o governo do Maranhão, a ex-governadora nada fez para minorar o sofrimento das milhares de pessoas que chegaram a Rosário atraídas pela promessa de empregos. A candidata prometeu, ainda, que “se eleita for governadora do Maranhão, eu vou fazer com que essa fábrica volte a funcionar e vou ajudar também os nossos cooperados a pagar as contas que eles têm no banco”. O parecer do procurador Marsico, antes de sugerir o indiciamento de Roseana Sarney, refere-se à dívida dos trabalhadores e defende que o BNB suspenda as restrições das associações e de seus associados, “uma vez que não houve qualquer conduta das associações que ocasionasse o prejuízo causado ao BNB”. Ele se refere ao fato de que os empréstimos no BNB foram abertos mediante pressão para assinarem contratos que sequer conseguiam ler. Da mesma forma, o dinheiro financiado foi liberado para pagamentos sem que tivessem conhecimento.
“Dizer esse negócio de que o Maranhão é o estado mais pobre da federação, sou contra. Eu não acho que o Maranhão é o estado mais pobre dessa federação”, declarou Roseana Sarney em outro trecho da entrevista. Os números do IBGE, porém, dizem outra coisa. De acordo com a evolução do PIB, o ano de 1998, marco dos quatro primeiros anos do governo Roseana Sarney e início do segundo mandato, foi o pior da década de 90. O PIB teve uma queda de 5,5%. As safras nos primeiros anos daquele governo tiveram quedas grandiosas, partindo de 1 milhão e 500 mil toneladas para chegar em pouco mais de 800 mil toneladas, em 1998, coincidentemente também ano da pior safra agrícola. O Maranhão deixou de produzir mais de 700 mil toneladas de grãos.
Não bastassem tais números, o PIB per capita, que mede a distribuição da riqueza, retrata a pobreza maranhense. O Estado está em último lugar no ranking nacional. Era de R$ 1.949,00, em 2002, contra R$ 1.578 do Piauí e R$ 2.219 de Alagoas. A participação do Maranhão no PIB nacional era de 0,85% em 1997, mesmo índice em 2002, quando Roseana Sarney deixou o governo. Além disso, o Estado possuía ao final de seu segundo mandato o menor IDH do Brasil (0,636), 83 dos 100 municípios mais pobres do país, menor porcentagem de população atendida pelos serviços de saneamento básico e coleta de lixo, maior taxa de mortalidade infantil, menor expectativa de vida, maior contingente populacional vivendo na miséria absoluta, maior percentual de analfabetos, menor escolaridade média, menor porcentagem de jovens nas universidades, menor número de professores com nível superior, menor oferta de ensino profissional, menor número de bibliotecas e laboratórios nas escolas públicas, menor oferta de energia rural.
“Despreparada” – Ao analisar as declarações da senadora na TV Mirante, o deputado Julião Amim (PDT) disse que Roseana Sarney atestou publicamente que continua despreparada e que não se preocupou nem em estudar a situação sócio-econômica do Estado. Disse ainda que ela desrespeita os institutos confiáveis quando afirma que não existe pobreza no Maranhão. “Ela pensa que o Maranhão é só o pedaço que ela conhece, ou seja, o ambiente em que foi criada, na riqueza. Roseana Sarney mostra que não pode governar o Maranhão porque não o conhece”.
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