Por: Eudes Oliveira de Alencar
eudesalencar@hotmail.com
No Meio do Caminho
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Carlos Drummond de Andrade
Paixão
De vez em quando Deus me tira a poesia.
Olho pedra, vejo pedra mesmo.
O mundo, cheio de departamentos, não é a bola bonita caminhando
solta no espaço.
Adélia Prado
Sugiro que você, leitor, após a leitura deste texto, abra sua Bíblia em Gênesis 28. Adianto em rápidas palavras a história. Assim, você entenderá o que faz a poesia de Drummond por aqui e a Adélia também. Os leitores mais atentos lembrarão de outro texto publicado nesta Página com a temática de “Jacó e a Pedra”, mas este não trata do mesmo assunto. Aliás, recomendo a leitura de Drummond, as várias faces do Fernando Pessoa, o Vinícius e seu inesquecível, para mim, “Porque hoje é sábado” e a doce Adélia Prado com seus toques divinos. Recomendo “Direitos Humanos”, não mais que algumas linhas que ficam falando na gente, por horas, dias...
A história. O personagem é Jacó. Homem habilidoso, mas dado a alguns atalhos que você certamente desaprovaria. Onde já se viu, passar a perna no próprio irmão? Mas de deixar o queixo caído é que ele não fazia estas traquinagens sozinho, tinha a ajuda da mãe, o verdadeiro cérebro das artimanhas perpetradas por Jacó.
Ele estava fugindo do irmão Esaú que, com ira assassina, sentindo-se logrado, esperava a morte do velho Isaque, pai de ambos, para dar cabo à sua vida. Interessante, este nome (Jacó) significa trapaceiro. Como é que alguém coloca o nome de filho com tal significado? A viagem era também em busca de uma esposa entre seus familiares que viviam distante, que seria do agrado da família, coisa que seu irmão não deu a mínima gerando certo desconforto aos pais. Casar-se, na época, era coisa séria. De que família é a moça ou o rapaz? Conhecem a Deus? O que fazem? Estas coisinhas hoje foram relegadas em nome de amores com prazo de validade para acabar.
Enfim, o que Jacó fez era mais ou menos um jogar-se na vida.
Em certo lugar da viagem, anoitecia, ele procurou abrigo numas ruínas. O lugar fora, em algum momento, um lugar de adoração a Deus. De tão cansado pegou uma pedra e a improvisou como travesseiro. Dormiu profundamente e sonhou. O sonho fantástico era assim. Deus aparecia ao seu lado, ao pé de uma escada que dava no céu e por esta, anjos subiam e desciam. Que susto! Que maravilhoso!
Deus falou com ele. Apresentou-se. Digamos que foi o primeiro “muito prazer, como vai?” de Deus para nosso personagem. Jacó acordou sobressaltado. Deus estava ali e ele não sabia. Aquele lugar de aparência tão desolada era a casa de Deus e ele não sabia. A porta do céu. Tomou a tal pedra-travesseiro, colocou-a em pé, derramou azeite sobre ela como símbolo de consagração do lugar, marco do seu encontro, fez juramentos e partiu.
Quando falamos de pedra incontáveis idéias nos perpassam a cabeça. Lembramos da pedra no sapato, como incomoda! A pedra de responsa, que na gíria regueira maranhense ganhou a conotação de música de qualidade. A pedra de amolar, útil para afiar instrumentos de corte. A pedra de ara, não muito comum para nosso entendimento protestante, mas trata-se de uma pedra colocada no altar católico e sobre ela se põe o cálice e hóstia consagrada para a missa.
Pedra de escândalo, aquele ou aquilo que se torna a causa de escândalo ou desentendimento. A pedra de toque que foi durante muito tempo uma pedra de quartzo ou de basalto negro, que servia para verificar a pureza de ouro ou prata quando se riscava sobre a superfície destes metais. A pedra de tropeço, que dispensa explicações. A pedra filosofal que supostamente teria a propriedade de transformar qualquer metal em ouro. A pedra fundamental que o homem insensato dispensou conforme nos conta Jesus em Mateus 7.26.
Quem não tem pecado, pois que atire a primeira pedra. Pedra que rola, não cria limo. Eu avisei, eu cantei a pedra! E você botou uma pedra sobre o assunto. E os brasileiros? Pagam tantos impostos que quando descansam, para sobreviver, carregam pedras. Quisera se revoltassem e com os votos tratassem os farsantes políticos com quatro pedras na mão, estes que têm um coração de pedra. Mas, cansados (os brasileiros), dormem em berço esplêndido, canta o hino, dormem como pedras, talvez se explique porque brasileiro, manso como é, tem o coração mole a ponto de comover as pedras. Mas um dia, há de acontecer, não ficará pedra sobre pedra e sua construção de confiança, de pedra e cal, assombrada pelo jogo de pedras para ver a sorte, receberá um lápide de pedra se não buscarem no Senhor, a Pedra Angular, de onde todo fundamento de vida deve nascer.
Jacó não pensava nestas coisas todas, são devaneios meus. Ele estava inebriado pela visão, por Deus falar com ele. Betel, casa de Deus, é como chamou o lugar. Hoje certamente um lugar daqueles não combinaria com as atuais casas de Deus. Ar condicionado, tapetes, cortinas vitrais, poltronas, arquitetura imponente. Coisas salomônicas. Mas... será que Deus fala ou o que se vê são manequins movidos por titereiros? Haverá alguma conexão com o céu? Pelo menos, em algumas há anjos demais, isso ninguém pode negar. Mas, biblicamente falando, quem quer isso?
Numa mesma metáfora, Paulo nos chama de lavoura de Deus e edifício de Deus (1 Co 3.9), donde se pode concluir, que somos (devemos ser), nós mesmos, templo vivos, casas de Deus. Pouco adiante, nesta mesma carta, ele nos chama de Santuário do Espírito Santo (1 Co 6.19). O lugar ou o espaço físico de adoração é o de menos e bote “de menos” nisso, se os adoradores não forem adoradores em “espírito e verdade”. (Jo 4.23). Se não for assim, melhor derrubar o templo e reconstruí-lo, ou vamos questionar que Jesus seja capaz de fazê-Lo?