O governo de Israel concordou ontem em suspender os ataques aéreos no sul do Líbano por 48 horas, informou o Departamento de Estado norte-americano. O período seria usado para investigar o ataque ocorrido na madrugada em um vilarejo de Qana, que resultou na morte de pelo menos 56 pessoas, entre elas 37 crianças.
Segundo Adam Ereli, porta-voz do Departamento de Estado americano, o acordo incluiria também a abertura, dentro de 24 horas, de um corredor humanitário para possibilitar a fuga de civis libaneses interessados em sair da região de combate. O trabalho seria coordenado por forças da ONU (Organização das Nações Unidas).
O secretário geral da ONU (Organização das Nações Unidas), Kofi Annan, convocou uma reunião de emergência ontem após o ataque. "Estou profundamente consternado", afirmou. Em discurso incomum, ele disse que a depredação, da sede da ONU em Beirute mostrou a falta de ação rápida e eficiente do órgão no conflito.
Se efetivada, esta será a primeira concessão de Israel no conflito com o grupo terrorista libanês Hizbollah, que já dura 19 dias. No sábado, Israel rejeitou a proposta de uma trégua de três dias para permitir o atendimento às vítimas do conflito e o envio de comida e medicamentos ao sul do Líbano. A proposta havia sido feita na sexta-feira pelo coordenador de assuntos humanitários da ONU, Jan Egeland, ao Conselho de Segurança da entidade.
Mais cedo, o primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, rejeitou a idéia de uma trégua e declarou não haver prazo para o fim dos confrontos. "Apesar desse penoso incidente [contra civis no Líbano], não pedirei às forças de defesa que cessem o fogo ou que modifiquem suas operações. Continuaremos agindo sem hesitar contra o Hizbollah", disse.
Morte em Qana - Um prédio de três andares situado em uma colina de Qana, o qual servia de abrigo a famílias que haviam fugido de outras cidades do sul do Líbano bombardeadas nos últimos dias pelo Exército israelense, desabou após ataque de Israel. De acordo com um sobrevivente, 63 pessoas estavam no edifício no momento do ataque.
Dentre as pelo menos 56 vítimas, 37 eram crianças (que dormiam no momento do bombardeio) e 16 eram mulheres, segundo fontes da polícia libanesa e das equipes de resgate ouvidas pelas agências internacionais de notícias.
O Hizbollah ameaçou revidar. "Esse massacre bárbaro, que representa uma mudança grave e perigosa no curso da guerra, pode levar a reações contra o mundo mudo e cúmplice, que deve assumir suas responsabilidades, porque esse massacre horrível, como outros, não permanecerá impune", disse o grupo em comunicado.
Pouco depois do ataque, o primeiro-ministro libanês, Fuad Siniora, descartou a possibilidade de qualquer negociação, pediu uma investigação internacional sobre o bombardeio e exigiu um cessar-fogo imediato e incondicional. Também foi desmarcado o encontro que ocorreria com a Secretária de Estado Americana, Condoleezza Rice, que está em Israel – ela volta aos EUA hoje para estudar um projeto de cessar-fogo.
O ministério israelense das Relações Exteriores, por sua vez, lamentou a morte dos civis e afirmou que abriria um inquérito. "Israel lamenta a morte de inocentes. Não queremos que civis sejam afetados pela guerra entre Israel e o Hizbollah", declarou o porta-voz do ministério, Mark Reguev. "Israel faz todo o possível para evitar essa situação e fez muitos pedidos aos civis para que abandonassem a zona de combate."
Esse foi o ataque mais sangrento de Israel ao Líbano desde que começou o combate, em 12 de julho. O estopim do conflito foi o seqüestro de dois soldados israelenses levado a cabo pelo grupo terrorista libanês Hizbollah. A violência já deixou cerca de 500 mortos no Líbano, entre eles mais de 450 civis, 20 soldados libaneses e 37 terroristas, e mais de 52 mortos em Israel, sendo 19 civis. Entre os mortos no Líbano, há sete cidadãos brasileiros, dos quais três crianças.