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Combustíveis alternativos, uma receita que pode dar certo

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Data de Publicação: 30 de julho de 2006
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Por Kátia Persovisan

(katiapsv@hotmail.com)

Colaboração: Eudes Oliveira de Alencar

Desde aqueles que são fabricados à base de mamona até aos mais esdrúxulos (improváveis) como os que são feitos à base de gordura de frango, o Brasil assiste o nascimento de novas alternativas para o abastecimento de veículos. O Maranhão também dá sua contribuição

A história da família Melo é o que se pode chamar de saga. Um dia, o patriarca da família, José Laurendo Araújo Melo, conhecido como Comandante Maranhão, lá pelos meados do século XX, teve uma idéia revolucionária: criar um combustível à base de gordura animal. O Comandante Maranhão morava entre as ilhas de Curatá e Pombas, próximas à cidade de Tutóia. Como era proprietário de uma frota de barcos e de aviões teco-teco, ele vivia pensando numa alternativa de baratear o custo dos combustíveis. Nessa época - longe ainda da degradação ambiental que a natureza vem sofrendo nos últimos tempos - as praias viviam cheias de tubarões. E foi a partir do fígado desse animal que nasceu a fórmula do combustível do Comandante Maranhão.

"Ele abastecia barcos e aviões com gordura do tubarão e depois ele foi diversificando. Juntava gordura de qualquer bicho: porco, galinha, etc. As pessoas ficavam curiosas em saber como ele conseguia transformar gordura animal em combustível. Ele não dizia a ninguém, só chamava o combustível de substância X", lembrou o neto, Luís Marcelo Buendia da Silva Melo, hoje herdeiro da fórmula.

Com a morte do Comandante Maranhão, a fórmula foi passada ao filho, José Laurendo Araújo Melo Filho, que foi embora para o Pará e depois se instalou em São Luís, com a mulher e os dois filhos. Com a sua morte, no ano de 2004, a fórmula ficou nas mãos de seus herdeiros que a aprimoraram especificamente para a gordura de frango.

Sem muito conhecimento de estratégia de mercado, os filhos fabricavam o produto de maneira artesanal e vendiam nas rotatórias da cidade em garrafas tipo pet de dois litros, destinado para a adição ao diesel. Inicialmente, havia a barreira do preconceito pelo desconhecimento do produto, mas aos poucos, eles foram conquistando uma clientela cativa que se encantou pelas propriedades do aditivo de combustível que melhora o desempenho do veículo movido a diesel, não gera fumaça e é mais barato que o próprio diesel. Um litro custa cerca de R$ 1,50 e com a gordura do frango também é possível ainda fabricar 19 outros produtos, desde ração para animais até graxas e lubrificantes.

Um grupo de empreendedores conheceu e testou o aditivo em seus próprios veículos. Surpresos com o resultado, eles propuseram sociedade à família Melo para que juntos pudessem trabalhar o combustível de forma industrializada, o que foi plenamente aceito. A partir daí, começou uma longa e difícil caminhada para agregar valor de mercado ao exótico aditivo à base de gordura de frango.

O primeiro passo foi dar um nome a esse aditivo e em consenso, batizaram-no de Biolubrás, hoje marca registrada. O produto também está patenteado e foi apresentado de maneira formal em outubro de 2005 na Feira Internacional de Produtos Exóticos, realizada em São Paulo. O grupo de empreendedores alugou uma van nova, que fez a viagem utilizando o aditivo de São Luís até à capital paulista. Lá na feira, foram cedidos dois stands onde o grupo pôde fazer a demonstração das qualidades do Biolubrás, bem como de seus produtos derivados. O então ministro da Agricultura, Roberto Costa, foi um dos que se surpreenderam com a idéia. Fez questão de testar em seu veículo e elogiou a iniciativa dos maranhenses. Diversos contatos foram feitos com empresários de todo o país e até com estrangeiros.

De volta para casa, o negócio ainda não deslanchou de vez, pois o grupo ainda estuda propostas de parceria com bancos, empresas particulares e aguarda laudos que atestem a qualidade do aditivo por parte de laboratórios governamentais. Entendimentos também já foram mantidos com a Fundação de Amparo à Pesquisa no Maranhão (Fapema), com a Petrobras, Ipiranga e Shell. Por enquanto, o produto continua sendo fabricado apenas como aditivo, uma vez que falta uma máquina que faça o seu refinamento. Uma máquina dessa custa algo em torno de R$ 48 mil.

Semanalmente, uma empresa que comercializa frango assado repassa para os empresários cerca de 600 kg de gordura que se transformam no aditivo, em ração, graxa, sabão, sabonete e demais subprodutos. Aqueles que já utilizam o produto há bastante tempo, só têm elogios. "Eu sinto que a potência do motor melhorou e o cheiro que sai do cano da descarga também. E não precisei fazer nenhuma alteração no motor", afirmou o empresário Lucena, dono de uma L 200, também um dos sócios do negócio. Ele adiciona um litro do aditivo à base de gordura de frango para cada 15 litros de diesel. "Mas já cheguei a colocar só ele e o carro rodou que foi uma beleza", confessou. Ele chegou ao cúmulo de colocar os olhos abertos bem na saída do escapamento. "Isso só para mostrar que a fumaça que sai não arde no olho", atestou.

Quem também fala bem do produto é o empresário Juvenal Galeno dos Reis, proprietário de uma Land Rover. "Tive um ganho de 30 por cento no desempenho do motor e hoje faço de 19 a 20 quilômetros com um litro do Biolubrás no meu diesel. Até a graxa já usei e só posso falar bem", afirmou.

Por que o frango?

Luís Marcelo, herdeiro da fórmula, conseguiu a proeza de armazenar o aditivo em temperatura ambiente sem que esta se solidificasse, o que geralmente acontece com gordura animal. E explicou que a gordura do frango é a melhor opção a ser utilizada, porque há grandes criatórios, o frango está pronto para o abate dentro de aproximadamente 45 dias, tudo isso facilita a contínua oferta da gordura. "Este é um combustível que não polui", garantiu.

Recebendo centenas de propostas para a comercialização do aditivo, Luís Marcelo analisou com cuidado junto com os outros sócios cada uma delas. "Tem muita gente que quer dar uma de esperto e chega aqui propondo sociedade, mas quer levar 50 ou até 60 por cento. Quando meu avô era vivo, muitas empresas grandes ofereceram dinheiro alto para que ele vendesse a fórmula, mas ele nunca quis", comentou. Hoje o aditivo ainda é usado de maneira restrita, pois não é muito conhecido na cidade. Luís Marcelo contou que donos de vans, táxis e proprietários de caminhões são clientes assíduos e sempre falam bem do produto.

Uma grande entusiasta, e sócia do negócio, é Maria do Carmo dos Santos Pinto, presidente da Consulcoopma. Ela também esteve no stand da feira em São Paulo e contou que a experiência vivida lá só serviu para animá-la ainda mais quanto à viabilidade desse biocombustível. Munida de números e documentos, ela também explicou que o combustível à base de frango oferece mais vantagens que aquele derivado da mamona. De lápis e papel na mão, ela fez as contas e mostrou que para obter mil litros de biocombustível de mamona, é necessária a plantação de 4,5 hectares de terra, sendo que 2.550 frangos com peso aproximado de 2,5 a 3 kg rendem mil litros de Biolubrás. "O plantio da mamona não traz valor agregado e a criação de frangos com certeza vai ajudar muita gente", disse. Há, entretanto, que se mencionar que o plantio da mamona está inserido num amplo programa de desenvolvimento social, e é acessível aos pequenos produtores por meio dos planos de investimentos de bancos estatais.

Entre os vários projetos associados ao Biolubrás, ela contou que pretende trabalhar com pólos onde as famílias envolvidas criariam os frangos destinados a esse fim. "O frango tem diversas utilidades, uma vez que para o combustível é usada apenas a gordura. Estaríamos gerando renda, oferecendo um frango mais saudável para a mesa do maranhense, já que chegaria sem a gordura, e uma chance para o próprio Estado", anteviu. Sem entrar muito em detalhes como pretende colocar em prática esse projeto, ela apenas antecipou que estão sendo dados os passos para que ele se concretize. "Queremos sócios que pensem em nos ajudar dentro dessa linha de pensamento, agregando ganho para todos", finalizou.

Caso parecido no Paraná

O caso da família Melo não é inédito no país. No Paraná, em 2004, a partir de um documentário da série de televisão National Geographic sobre combustíveis alternativos, mais o auxílio de um professor universitário e muita insistência, o autônomo João Cláudio Plath, de 44 anos, chegou à fórmula pouco usual de um novo combustível, feito à base de gordura de frango.

Além do componente animal, são acrescidos mais metanol, álcool e soda. "Mas o principal da fórmula é a gordura de frango. O restante é apenas para dar a reação", explicou. O combustível alternativo criado por Plath não é nada "de outro mundo". Ele informou que existem vários similares feitos com gorduras animais e vegetal, tais, como, por exemplo, o girassol.

Estudante de Ciências Biológicas, Plath começou a investigar a fórmula por quatro meses. Para isso, contou com a ajuda do professor Edmilson Canesin. Desde então, trabalha no aperfeiçoamento da idéia. A intenção é retirar da composição o metanol, que representa a maior parte do custo. O combustível movido à gordura de frango foi testado com sucesso em um Jipe e também em uma Saveiro. E as diferenças? "A principal é o cheiro de fritura", disse.

O litro do biocombustível de Plath fica 100% mais barato do que o diesel, por exemplo. Ele observou que o rendimento do veículo é "igual", fazendo a mesma quilometragem do que o diesel ou a gasolina. O autônomo contou que ganha a gordura de um supermercado. O material sobra quando os frangos são assados. A gordura é batida na máquina de lavar roupa e colocada ao sol para "decantar". "E a poluição é zero", lembrou. Plath defendeu o biocombustível, considerando-o interessante para tornar o País "auto-suficiente" nesse segmento.

Outras alternativas no Maranhão

O governo brasileiro autorizou este ano a mistura de 2% de biodiesel nas bombas de todo o país a partir de 2008. Até 2013, a mistura deve subir para 5%. Isso representa uma demanda de 800 milhões de litros por ano. Foi pensando nesse novo mercado que o governador José Reinaldo Tavares lançou esta semana, no Palácio Henrique de La Rocque, o Programa Maranhense de Produção de Biocombustíveis, que tem como objetivo incentivar o desenvolvimento da cadeia produtiva do Etanol no Estado e a geração de cerca de 120 mil empregos nos próximos cinco anos.

O estudo levantou ainda os principais aspectos logísticos de distribuição do etanol para atendimento do mercado interno e externo. De acordo com os resultados obtidos estão sendo coordenados esforços governamentais e firmadas parcerias com o setor privado e financeiro para consolidar essa cadeia produtiva na região.

Tudo isso chega em boa hora - o mundo está às voltas com um novo choque do petróleo. A guerra Israel-Líbano e outros conflitos no Oriente Médio deixam todos em polvorosa. À parte disto, com o aumento da demanda e as previsões de que no máximo em 40 anos o petróleo acabará, países produtores já começam a insinuar que o "ouro negro" será objeto de pressão política. O preço do barril já chegou ao recorde histórico dos US$ 75,00.

Este quadro de crise reforça a necessidade de se encontrar alternativas para o abastecimento de veículos. Uma das primeiras fontes alternativas bem sucedidas no mundo foi a produção de álcool, um combustível hoje testado e aprovado, que impulsionou a cultura da cana no Brasil nas últimas décadas. O açúcar foi nosso primeiro produto agrícola de exportação e base da colonização do país. Ao longo dos séculos a economia do açúcar alterou fases de muito vigor e de decadência.

Trinta anos atrás, para fazer frente à crise do petróleo (1973), a cana passou a ser utilizada, também, para produção em larga escala de álcool combustível.

Lançado em 1975, o Pró-álcool ofereceu vantagens para a modernização das usinas e financiou a construção de destilarias em diversos Estados.

Este projeto genuinamente brasileiro, em sua primeira fase, final dos anos 70 e até o ocaso do Proálcool nos anos 80, não ganhou a atenção mundo, exceto como curiosidade extravagante, coisa bem diferente agora, quando megainvestidores estão se associando a empresas nacionais para a compra e produção. O Japão, por exemplo, criou uma joinventure (associação de sociedades, sem caráter definitivo, para a realização de determinado empreendimento comercial, dividindo as suas obrigações, lucros e responsabilidades) em parceria com a Petrobrás para importação de etanol brasileiro.

Este novo choque de petróleo também deu fôlego novo para o biodiesel. Antigamente, mamona só servia para produzir óleo de lamparina, purgante e para a molecada brincar de guerra, mas esta planta nativa da África tem muitas utilidades. Dela, se extrai um óleo nobre usado como lubrificante de avião e que entra também na composição de cosméticos e tecidos. Nos últimos anos aumentou bastante o interesse pela mamona no Brasil e ela pode vir a se transformar no combustível do século XXI. É que a partir do óleo de mamona também é possível se produzir o biodiesel. Por enquanto, é a planta que melhor se adapta às condições nordestinas.

Expedito Parente, engenheiro químico, é professor aposentado da Universidade Federal do Ceará, em Fortaleza. Na década de 70, desenvolveu e patenteou o processo que transforma óleo vegetal em combustível. O biodiesel abastece caminhões, ônibus, tratores. As vantagens não se limitam à substituição do combustível fóssil, o biodiesel da mamona também é "saúde" para os motores, pois é capaz de aumentar-lhe a vida útil. E agregue-se o melhor de tudo, a terra e nós agradecemos por não ampliar o efeito estufa que segundo os melhores cérebros do mundo, é a causa da mudança climática grave que estamos vivendo. A Petrobras também está de olho nesse negócio. Acaba de apresentar o H-Bio, que produz diesel a partir da mistura de petróleo com óleo vegetal, feito a partir de várias fontes, em especial a soja. A tecnologia implica em acrescentar, em princípio, até 18% do produto verde ao material fóssil para a obtenção de um combustível idêntico ao comercializado hoje. A BR Distribuidora, subsidiária da Petrobrás, iniciou a venda desse biodiesel em 700 postos.

Mais informações

Biodiesel: pode ser produzido a partir de óleos vegetais, gorduras animais ou óleos residuais de fritura e pode ser usado puro ou misturado ao diesel de petróleo, sem que seja necessária modificações em motores automotivos ou estacionários (geradores de eletricidade, calor, etc).

437 mil hectares: é a área necessária para a primeira fase do H-Bio da Petrobras.

US$ 38 milhões - é o investimento inicial do projeto.

R$ 90 milhões: valor de três usinas de biodiesel a serem implantadas pela Petrobras nos Estados do Ceará, Minas e Bahia. (O Maranhão poderia ser um candidato, devido à localização estratégica, mas nosso atraso na produção de mamona ou outra planta nos coloca na espera).

Somente a adição de 2% por litro de biodiesel no Brasil a partir deste ano gerará uma economia R$ 1,2 bilhões por ano. Em 2008 o governo pretende aumentar para 5%. Um percentual de 10% de biodiesel (B10) misturado ao combustível fóssil eliminará toda a importação, uma economia de US$ 800 milhões para o país.

Plantas com potencial: amendoim, babaçu, dendê, mamona, girassol, pinhão manso, soja.

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