Por: Afonso Celso Valois
(Pesquisador da Embrapa)
A Amazônia brasileira que abrange 60,44% do território nacional e 80% da Amazônia Continental, ostentando o maior ativo ambiental do Planeta, precisa contar com a redobrada obrigação do País para a sua sustentabilidade política, social, econômica, cultural, ética e de proteção ao meio ambiente, principalmente levando em consideração as notícias constantemente veiculadas em torno da ameaça à sua soberania pela cobiça e interesses internacionais, tendo em vista a grande extensão e a enorme riqueza de capital biótico e abiótico que abarca. Diante das atuais circunstâncias perante a real necessidade da manutenção da soberania e desenvolvimento sustentável da Amazônia brasileira, os seguintes tópicos apontam para uma profunda reflexão:
01 - Na Amazônia, os grandes empreendimentos empresariais com sustentabilidade devem coexistir harmonicamente com pequenos projetos de produção familiar, pois as 600 mil famílias de pequenos produtores sem o devido apoio, não poderão contribuir para a condução da Hiléia ao desenvolvimento sustentável aguardado por todos, com claros exemplos de agregação de valores dentro da própria região;
02 - Assim, um grande desafio na Amazônia é harmonizar os pequenos, médios e grandes produtores rurais, através do planejamento adequado, adoção de políticas públicas e tecnologias complementares, considerando a grande diversidade dos recursos naturais e a diversidade social e cultural, além das oportunidades da viabilidade econômica, social e ambiental do agronegócio empresarial e familiar;
03 - A Amazônia, na condição de possuir o maior ativo ambiental do Planeta, tem o grande desafio do exercício da gestão apropriada da abundância do seu capital biótico e abiótico, em cujo seio desse patrimônio mais valioso do mundo existe a grande utopia plausível que é a constante busca do desenvolvimento com sustentabilidade econômica, social, ético e cultural com a proteção ambiental, considerando a convivência harmônica entre o homem, o meio ambiente e a utilização de tecnologias apropriadas aos diversos nichos ecológicos da grande e importante região, que conta com 23 ecossistemas conhecidos;
04 - Uma outra oportunidade de grande relevância para a Amazônia refere-se ao uso sustentável da biodiversidade para o proveito da segurança alimentar e dos alimentos, nutrição e saúde dos habitantes, com ênfase na domesticação e utilização de espécies de plantas, animais e microrganismos autóctones;
05 - Dentro de uma visão holística, um aspecto que deve ser bem monitorado na Amazônia é quanto à mitigação e controle das várias causas que vêm sendo apontadas como principais responsáveis pela perda de espécies da biodiversidade ou mesmo pela erosão genética nas espécies e degradação ambiental, com destaque para as seguintes: a) expansão da fronteira agrícola, enfatizando as práticas do desmatamento e queimada; b) pressão populacional envolvendo o processo de urbanização; c) redução do tempo de pousio, citado nos casos da agricultura itinerante; d) políticas governamentais, como a construção de barragens, hidrelétricas e estradas; e) processo de contaminação do meio ambiente, como a aplicação de pesticidas na agricultura, atividades de mineração e outros fatores de poluição ambiental; f) ocorrência de pragas no sentido amplo, como insetos, fungos, bactérias e plantas daninhas; g) efeitos depressivos causados por espécies invasoras exóticas danosas; h) uso do extrativismo desenfreado nas espécies; i) pastoreio excessivo; j) substituição de variedades locais; l) mudança de sistemas agrícolas; m) conflitos humanos;
06 - A bioprospecção de espécies e genes de interesse é de grande relevância na Amazônia, tendo em vista encontrar espécies comuns, raras e extremamente raras, além de genes que compõem genomas funcionais, com a consciência de que os conhecimentos mais relevantes estão no domínio dos povos indígenas e das comunidades tradicionais, que devem ser incluídos nesse processo, resguardados os seus direitos pelas leis de propriedade intelectual e cultural, sob o marco regulatório do País, em observância ao correto acesso aos recursos genéticos e repartição justa e eqüitativa dos benefícios oriundos do uso desses recursos e dos conhecimentos tradicionais associados;
07 - Na Amazônia existe uma desigualdade de ecossistemas e de oferta de tecnologia. Assim perdura uma pressão preservacionista para manter áreas intocáveis para evitar a destruição do capital natureza. Em vista disso, na região são encontradas as seguintes situações: a) garantir a vida, na visão dos ambientalistas (preservação); b) praticar formas alternativas de fazer reservas de capital biótico para uso atual e futuro, na visão dos interessados em obter proveitos econômicos e geopolíticos (conservação);
08 - Atualmente existe uma grande preocupação de o cultivo da soja e de outros grãos se expandirem ainda mais na região, causando grandes derrubadas de florestas, cada vez em maior intensidade, culminando com uma forte erosão genética e perigo de extinção de espécies, dentre outras sérias conseqüências ecológicas, sociais, culturais e éticas. Somente a implantação de áreas protegidas não tem condições de brecar essa grande ameaça. Talvez as áreas indígenas consigam barrar o desmatamento, mas porque são ocupadas pelas aldeias, isto é, porque têm gente. Alternativa viável: “urbanização da floresta”, com a exploração sustentável de recursos madeireiros e não madeireiros, melhoria da qualidade dos produtos e transformação da produção pelo uso de agroindústrias, seguidos da necessária abertura de mercados internos e externos. Deve-se atentar para o fato de que as madeireiras são um dos setores que mais geram empregos na Amazônia, mas exploram as florestas de maneira inapropriada, causando sérios danos de degradação de áreas e muitas das vezes praticando a bioburla (a não consideração às leis ambientais) e usando terras devolutas. Têm que ser redobrados os cuidados constantes com a proteção da vasta biodiversidade que ocorre na Amazônia, especialmente no nefasto momento em que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) anunciou um devastador e perigoso desflorestamento na grande Hiléia, que alcançou 26.130 km² entre 2003 e 2004, sem olvidar que entre 2001 e 2002 o total foi de 25.476 km². Em 2005 a redução do desmatamento foi da ordem de 31% em relação ao ano anterior, o que demonstra a melhoria dos esforços e ações governamentais para a mitigação dessa nefasta prática na grande região;
09 - Proposta viável para a Amazônia: revolução científica e tecnológica com inovação (CT&I), com forte programa harmônico de pesquisa e desenvolvimento (P&D) e de consistente ação de transferência e adoção de tecnologia apropriada através da assistência técnica e extensão rural (ATER), que utilizem a biodiversidade em todos os seus níveis, inclusive para a produção de extratos, óleos, fitoterápicos, cosméticos, vacinas e outros produtos, com atenção redobrada para a criação, adaptação, extrapolação e uso de tecnologia para a geração de riquezas com inclusão social e extinção da pobreza, sem a depredação do meio ambiente;
10 - Na Amazônia há a necessidade da regulação de negócios do ar (Protocolo de Kyoto), da biodiversidade e da água. Deve ser aproveitada, ao máximo, a oportunidade da utilização das facilidades advindas da aprovação desse Protocolo, como o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) na obtenção de Créditos de Carbono oriundos da preservação da floresta, reflorestamento ou mesmo no controle da emissão de gases (carbono e metano) em lixões através da implantação de aterros sanitários especialmente nas grandes cidades da Hiléia, incluindo a correta destinação dos resíduos sólidos;
11 - Deve-se agir no sentido da agregação de valores no âmago da floresta, com os ribeirinhos, com inclusão social. Torna-se bastante desejável a tentativa de formar consistentes cadeias produtivas desde as populações tradicionais, afrodescendentes, quilombolas, mulheres trabalhadoras rurais especialmente as quebradeiras de coco babaçu, ribeirinhos, pescadores/agricultores, pescadores profissionais, pescadores artesanais e povos indígenas até aos centros avançados de biotecnologia e de outras ciências afins, incluindo o agronegócio familiar e empresarial;
12 - Na atualidade, a grande reivindicação para a Amazônia é a consistente presença do Estado, que talvez tenha sido retirada ingenuamente por orientação de países desenvolvidos (para deixar o caminho livre?). Na região existe uma invasão ideológica de ambientalistas, na maioria dos casos teleguiados por ONG estrangeiras que desejam ver a Amazônia engessada, longe de um requerido desenvolvimento sustentável para o bem-estar da sociedade amazônida (a recente demarcação contínua da Raposa Serra do Sol em Roraima talvez tenha sido um lamentável engano!). Há extrema necessidade de haver um respeito pela natureza, mas também é verdade que se deve usar o patrimônio biótico e a terra de maneira não destrutiva (com sustentabilidade e enfoque sistêmico), principalmente em proveito das cerca de 23 milhões de pessoas que vivem na grande região brasileira. Por exemplo, no início Carajás foi um grande entrave, mas agora reconhece os direitos dos amazônidas e paga “royalties”, beneficiando os municípios vizinhos; bons exemplos na atuação de mineradora também estão sendo praticados no Amapá. Não é ético e nem se deve imaginar a possibilidade de ser idealizado qualquer movimento com a finalidade de mobilizar a população contra o Estado, a harmonia e o bom senso sempre têm que prevalecer. Assim, na qualidade de outro grande desafio torna-se necessário o fortalecimento das instituições, no pleno estado de direito; cada brasileira e brasileiro especialmente amazônidas, têm o direito insofismável de ir e vir no seio da soberana região. “Amazonizar o Brasil é extremamente necessário”;
13 - Na Amazônia não deve ser permitido que áreas oficiais protegidas sejam financiadas por capital externo de ONG de cunho duvidoso e mal intencionadas, tendo em vista a total prática da proteção e soberania brasileira na Amazônia, pois ao Estado cabe essa responsabilidade! Deve-se evitar, a todo custo, a autonomia excessiva à ação de estrangeiros, especialmente em programas multilaterais desenvolvidos na Hiléia, pois sempre devem considerar a colocação em prática de projetos de interesse da Amazônia;
14 - Outro aspecto bastante evidente na Amazônia: inúmeros atritos entre agricultores de produção familiar (populações tradicionais, povos indígenas, afrodescendentes, quilombolas, seringueiros, ribeirinhos, pescadores, isto é, todos aqueles que vivem do uso da terra e rios) e os ambientalistas. Além disso, existem os grandes produtores sojicultores, cuja produção da famosa leguminosa está baseada em um sistema bastante organizado, bem como os grandes pecuaristas responsáveis pela elevada devastação das florestas e degradação de áreas, que devem ser cadastrados, instruídos e monitorados. A aplicação dos conhecimentos e das tecnologias apropriadas disponíveis para a sistematização da consorciação das pastagens com a agricultura e florestas (PAF) é extremamente necessária na Amazônia, inclusive para a recuperação da imensa quantidade de áreas degradadas na região;
15 - O grande momento na Amazônia é para o ordenamento territorial, com destaque para realmente efetivar o Zoneamento Ecológico e Econômico (ZEE), gestão social de territórios rurais e aplicação de consistentes políticas públicas para a correta alocação sustentável de núcleos urbanos e rurais, agricultura familiar, produção de grãos (soja, arroz, milho, feijão e outros), sistemas agroflorestais, pecuária, florestas, neoagroextrativismo, garimpos, áreas protegidas, rodovias, ferrovias, modernização das vias fluviais, aeroportos e demais benefícios. A “fome” que possa existir especialmente na Amazônia propriamente dita não se traduz na falta absoluta de alimentos, mas na necessidade da adequação dos meios de transporte, educação, saúde, energia, saneamento básico, infra-estrutura e apoio logístico. Vale mencionar a validade do direcionamento de esforços e ações para a organização de uma rede de educação, saúde, tecnologia e meio ambiente na Amazônia, como fulcro do bem-estar da sociedade amazônica, da produção primária da floresta sustentável e do agronegócio multifuncional;
16 - A criação e plena operacionalização da rede citada anteriormente irá proporcionar os seguintes resultados esperados, dentre outros: a) favorecer o fortalecimento da articulação e parcerias entre as instituições que tratam da educação, saúde, tecnologia e meio ambiente na Amazônia e contribuir para a independência, eficiência, eficácia, e efetividade compartilhada das mesmas; b) uso adequado dos bancos de dados existentes e incentivar a formação de outros acervos; c) preparo de instituições que trabalhem diretamente com a gestão nos quatro fulcros da rede; d) criar massa crítica especializada nos temas de legislação ambiental e saúde, vegetação, água, cobertura e uso sustentável da terra, sócio-economia, biodiversidade (plantas, animais e microrganismos), poluição do ar, água e solo, revegetação de matas ciliares, além da segurança biológica considerando a análise de risco de pragas, segurança alimentar, segurança dos alimentos e outras medidas; e) atuar como agente antecipador para evitar a prática criminosa da bioburla; f) apoio à prevenção contra o desmatamento e queimadas, além de socializar o incentivo à medidas que favoreçam o seqüestro de carbono e outros serviços ambientais; g) dar subsídios para a efetivação do zoneamento agroclimático, ordenamento territorial e gestão social de territórios rurais; h) implementar a sistematização do fluxo de informação para a tomada de decisão quanto à aplicação de políticas públicas; i) oportunizar a comunicação sobre a prevenção e orientação contra a ocorrência de doenças humanas como a malária, mal-de-chagas, dengue, aids, tuberculose, raiva, lepra, males de agentes causais desconhecidos e outras enfermidades endêmicas; j) acionar o processo de avaliação, gerenciamento e comunicação de riscos, perigos, danos e severidades que possam ocorrer no meio rural como doenças em animais (febre aftosa, mastite, brucelose, tuberculose, gripe aviária, etc) e pragas da agricultura (mandarová, sigatoka, mosca negra, mosca da carambola, ferrugem da soja, ácaros, besouro asiático, etc); l) possibilitar a vulgarização de um sistema de informação com ensinamentos preventivos e curativos, além de democratizar a destinação de orientações constantemente atualizadas ao tempo e à hora para o bem-estar sadio das comunidades rurais (principalmente daquelas mais isoladas) e urbanas; m) promover a conscientização pública e participação das comunidades envolvidas direta e indiretamente em atividades da rede; n) possibilitar o desenvolvimento social includente através de processos socialmente justos, economicamente viáveis, ambientalmente corretos e politicamente éticos, legais e transparentes; o) servir de piloto para a formalização, implantação e ampliação da rede no âmbito da Bacia Amazônica como um todo, em articulação com braços estratégicos localizados em regiões transfronteiriças com os demais países da grande Hiléia; p) aproveitar, articular e compatibilizar bancos de dados oriundos de esforços e ações já existentes na grande região sobre educação, saúde, tecnologia e meio ambiente;
17 - Na Amazônia, o incentivo à educação ambiental, educação alimentar e à saúde formal, bem como os programas de educação continuada para a capacitação na área ambiental e de saúde, através de cursos de curta duração presencial e semipresencial (videoconferência, etc) são estratégias e táticas permanentes com resultados práticos e duradouros, dirigidos ao público em geral e especialmente a profissionais ligados aos órgãos responsáveis pela implementação da legislação ambiental, do sistema único de saúde, bem como da educação. O aprimoramento dos processos de P&D, DTTA e CT&I no setor primário em articulação com os primeiros irá assegurar a prática do agronegócio familiar e empresarial nos moldes da sustentabilidade. Na região aumentar a qualidade e eficiência na gestão dos recursos naturais, da educação e saúde na gestão pública, bem como a geração de tecnologia apropriada e adoção especialmente pelos agricultores de produção familiar é um dos consistentes caminhos alternativos para a mitigação e extinção da pobreza e do analfabetismo, incidindo no fortalecimento da agregação de valores em ambientes sadios;
18 - A inteligente exploração de resultados advindos de ações e esforços de consistentes programas, planos e projetos governamentais implantados na Amazônia, como o Sistema de Proteção da Amazônia (SIPAM), Plano da Amazônia Sustentável (PAS) e Banco Compartilhado de Dados para a Amazônia (BCDAM), dentre outros, tem condições de oferecer à Hiléia as seguintes vantagens comparativas: elaboração e liberação de mapas sobre a cobertura vegetal, prevenção contra o desmatamento, determinar e monitorar índices de vegetação, identificar a ocorrência de incêndios florestais e queimadas, detectar áreas alagadas, proteção de bacias hidrográficas, previsão e alerta de enchentes e secas, monitorar o crescimento de áreas urbanas, poluição de rios e monitoramento, assoreamento de rios e necessidade da recuperação de matas ciliares, combate a processos de degradação e desertificação de áreas antropizadas, além de outros importantes temas de interesse da grande região. Aprimorar a tecnologia da informação para alcançar os locais mais longínquos na região a as comunidades isoladas é uma imperiosidade na Amazônia!;
19 - De maneira geral e considerando a interação educação-saúde-tecnologia-meio ambiente, a busca por uma Amazônia sustentável deve considerar os seguintes temas adicionais: zoneamento agroecológico com ênfase no ordenamento territorial e gestão de territórios rurais; avaliação da viabilidade e proceder a recuperação ambiental de áreas degradadas; caracterização de nichos ecológicos das áreas antropizadas; usar processos de combate à desertificação e tecnologias alternativas ao uso do fogo na produção agrícola; indicação de práticas e arranjos agroflorestais mais promissores; preservação e conservação da biodiversidade; estudos de mercado, escoamento e definição de centros de produção e comercialização; determinação das melhores combinações/associações das espécies de plantas e animais; estudos, definição e plena operação de cadeias produtivas monitoradas; porte dos indivíduos e competição por luz, água, nutrientes e espaço físico, visando ao uso em SAF; densidade de plantio e dinâmica de populações em sistemas agrícolas; sucessão de cultivos e fase produtiva; processo evolutivo das espécies; características físicas, químicas e microbiológicas do solo; agricultura orgânica, agricultura ecológica e permacultura; elevação da produção e produtividade; produção de alimentos com qualidade, livres de perigos físicos, químicos e biológicos, com certificação e selo verde; agregação de valores e uso de agroindústrias; manejo de bacias hidrográficas e identificação das mais críticas para efeito de intervenção imediata; determinação de níveis críticos de contaminação de rios para o monitoramento contínuo e controle efetivo; processos de repovoamento de peixes em rios ameaçados; quantificação, valoração e negociação de serviços ambientais (valorização), principalmente em relação ao seqüestro de carbono e à mitigação da emissão de gases de efeito de estufa; estabelecer consistente programa estratégico e inteligente de vigilância para a segurança biológica da agricultura, pecuária e florestas; sensibilização e construção da consciência pública sobre a importância da sustentabilidade dos ambientes amazônicos; mobilização social, educação ambiental, educação alimentar e trabalho participativo com a intervenção das comunidades; métodos modernos de transferência e adoção de tecnologia apropriada;
20 - Um ponto de grande destaque na Amazônia é a experiência de novos modelos de implantação e manutenção de rodovias e ferrovias. Por exemplo, parte do asfaltamento da Rodovia BR 163 tem certo o financiamento proporcionado por grandes produtores rurais. A modernização, humanização e sistematização do transporte fluvial na Hiléia são também de elevada importância na medida adequada da utilização sustentável dos enormes recursos hídricos naturais existentes;
21 - Outra necessidade na Amazônia é a geração de tecnologias regionalizadas para áreas de rodovias, ferrovias e ribeirinhas, para benefício especialmente dos pequenos produtores assentados para que não apenas vejam o “bonde passar”. Os assentamentos oficiais de reforma agrária também merecem uma atenção especial, como parte da obrigação de se pensar e agir em proveito das gerações atuais e futuras, dentro dos propósitos da sustentabilidade. Gerar e perenizar a multifuncionalidade do agronegócio social e comercial é uma enorme necessidade na Amazônia;
22 - Na Amazônia é prioritária a colocação em prática do fortalecimento da integração regional nas áreas de fronteira com os outros países amazônicos, pois o Brasil possui interesses de grande relevância, considerando que a sua Amazônia com 514 milhões de hectares está localizada na região baixa da famosa Bacia de 725 milhões de hectares. Esforços adicionais devem ser dirigidos para que sejam evitados o bioterrorismo, biossabotagem, agroterrorismo, agrossabotagem, biopirataria e penetração de espécies invasoras exóticas indesejáveis, além de envidar empenho para a segurança alimentar, nutricional e dos alimentos, bem como a manutenção da sanidade vegetal e animal, na qualidade de bons exemplos de segurança biológica da agricultura, pecuária e florestas. A Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), agora com escritório permanente localizado em Brasília (DF), tem um papel fundamental para o pleno sucesso desses propósitos de articulação regional na Amazônia Continental, com transversalidade. Apesar de a Amazônia brasileira possuir cerca de 20% da água doce líquida, de rios, do mundo, deve-se atentar para o fato de que os principais rios caudalosos da região não nascem no Brasil, daí a necessidade do fortalecimento da articulação com os países fronteiriços para também resguardarem as cabeceiras das nascentes dos rios. Esse fortalecimento transfronteiriço entre os oito países amazônicos e Guiana Francesa é também bastante desejável para levantamentos florísticos, evitar poluição de rios e penetração de espécies invasoras exóticas danosas, além da implantação e pleno funcionamento de rede regional para a elevação da educação, saúde, tecnologia e meio ambiente com o fito de assegurar o bem-estar da sociedade amazônida no sentido holístico. A revegetação das matas ciliares e enriquecimento de peixes em importantes rios caudalosos e estratégicos da Amazônia Legal são também da máxima prioridade;
23 - A segurança biológica na Amazônia deve se constituir em valiosa ferramenta para a manutenção da biodiversidade sustentável e para a prática da agrobiodiversidade rentável funcional, com cunho social, econômico, ambiental, cultural e ético;
24 - Assegurar uma maior coordenação e coerência entre as várias iniciativas, programas, planos e projetos atuais e futuros na grande região é também da mais alta relevância;
25 - Existe a grande necessidade da integração sistemática das dimensões ambiental e social às ações de crescimento e desenvolvimento econômico na Amazônia no plano federal, regional, estadual e municipal, incidindo nas próprias comunidades. A premência do fortalecimento do trinômio educação, saúde e produção especialmente a primária alcança imensurável significado na Amazônia;
26 - Deve ser concretizada a elaboração de uma estratégia e tática de desenvolvimento sustentável para a região como um todo, com múltiplos atores, que leve em consideração as oportunidades de aprimoramento da educação, saúde, tecnologia e meio ambiente, institucionais e políticas em toda a sua amplitude e inclua a infra-estrutura e apoio logístico às prioridades de desenvolvimento ambiental, social, econômico e cultural, tanto nas áreas urbanas como rurais;
27 - Na Amazônia é premente a colocação em prática da utilização de uma série de novos instrumentos de financiamento, considerando o apoio ao manejo florestal sustentável, manejo de ecossistemas agrossilvipastorís e o pagamento por serviços ambientais, especialmente o seqüestro de carbono levando em conta o Fundo Protótipo de Carbono;
28 - Na Hiléia torna-se imperativa a elaboração de projetos multiparticipativos para o desenvolvimento de estratégia e tática sustentáveis mais abrangentes e voltadas para os vários países da Bacia, de modo a expandir de forma substancial o intercâmbio de conhecimentos e experiências entre os mesmos. Para isso a OTCA teria uma participação primordial;
29 - Na Amazônia são definitivamente prioritários a avaliação, o cadastramento e o monitoramento de todos os tipos de ONG que atuam na região, principalmente para evitar o processo de fortalecimento de interesses internacionais na grande região. Além disso, torna-se premente que as próprias forças armadas, com a natural autonomia sobejamente nacionalista, aumentem os seus contingentes especialmente nas áreas de fronteira, com seus 11,3 mil quilômetros de extensão (medida atualmente considerada necessária mais do que nunca, prioritária, bastante estratégica e de plena segurança nacional para o nosso País!), e avaliem muito bem os pedidos para o treinamento em áreas de florestas de tropas daqueles países que não possuem florestas densas como na Amazônia, principalmente quando sabidamente forem ligados a outras nações ditas desenvolvidas que explicitamente e constantemente vêm cobiçando a Amazônia brasileira desde 1816 sobre o qual se tem notícias. Sabe-se que nessa época existia um mapa elaborado por país desenvolvido, com a intenção de criar um Estado Soberano na Amazônia, que envolvia ao norte a Guina e a Venezuela, e ao sul a linha reta começava em São Luís (MA), indo até Rondônia e Mato Grosso;
30 - Dentro do processo de convergência para a Amazônia, grande número de instituições nacionais, internacionais e estrangeiras desenvolve atividades na região, na maioria das vezes de maneira isolada, aleatória e sobreposta, com marcante desperdício de recursos no sentido amplo, sem o alcance desejado da eficiência, eficácia e efetividade. Sendo assim, torna-se evidente a lacuna de uma coordenação capaz de harmonizar a complementaridade de esforços e ações na grande região, além de instruir as demandas realmente necessárias para o desenvolvimento sustentável da Amazônia. Isso conduz à necessidade de haver uma instituição supra para a Hiléia, no nível da Presidência da República, ou até mesmo de um Ministério específico, para melhor perenizar essas e outras ações para o benefício da Amazônia.