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Sonhos brasileiros

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Data de Publicação: 3 de julho de 2006
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Por: Manoel Rubim da Silva

Contador, professor da Universidade Federal do Maranhão e auditor fiscal federal

manoel_rubim@uol.com.br

Discute-se muito no Brasil medidas no sentido de fazer com que haja crescimento econômico com desenvolvimento social, vale enfatizar, crescimento sustentável, que reflita nos indicadores macroeconômicos e, principalmente, na educação, saúde, segurança pública, qualidade de vida, renda, provimento da justiça, moradia etc. No mais das vezes estamos sempre com os olhos voltados para o que acontece nos países tidos como desenvolvidos, ou mesmo adotando receituários de órgãos multilaterais, a exemplo do FMI, que geralmente “receita, para todos os pacientes, o mesmo fármaco, como se fossemos acometidos pelas mesmas doenças” e possuíssemos os mesmos “organismos”.

Recentemente, li um artigo da lavra de Sanford M. Jacoby, intitulado “Crescimento sem ortodoxia” que aborda de forma percuciente tais assuntos, podendo ser sintetizado na sua ementa: “A economia nipônica ressurge. Surpresa: a causa principal é a adoção de culturas econômicas opostas às sugeridas pelo neoliberalismo.” Barbosa Lima Sobrinho, que era um excepcional homem público, gostava de chamar atenção para a forma peculiar de capitalização do Japão, que lhe proporcionou um crescimento econômico e social admirável no mundo. Foi tamanha a sua admiração pela forma de capitalização e crescimento japonês, que editou um livro intitulado, salva falha de memória: Japão: “O Capital se faz em casa.” Naquela oportunidade, o Brasil endividava-se no exterior, com o propósito de financiar grandes empreendimentos para incrementar o crescimento deste país, gerando, então, um grande pavor, pois o tamanho da dívida externa ganhava contornos dramáticos.

No citado artigo de Sanford M. Jacoby observa-se uma acentuada crítica à prevalência do entendimento neoliberal de que a situação difícil vivida pela economia japonesa no período de 1990 a 2001, decorreria dos seguintes problemas presentes no Japão: mercados excessivamente controlados e protegidos pelo governo; falta de espírito empresarial; aversão dos empresários à demissão de empregados e falta de atenção, de interesse, para com os acionistas. Os arautos do neoliberalismo recomendavam para o Japão as seguintes providências que teriam sido adotadas pelos EUA, nos anos noventa, com sucesso: desregulamentação, empreededorismo, papel preponderante dos dividendos e do valor líquido.

Alguns governos japoneses teriam seguido o receituário dos neoliberais, ou seja, o mesmo que foi aplicado nos EUA, sem atentar para as peculiaridades dos japoneses. Assim é que no governo de Junichiro Koizummi e anteriores, foram efetuadas algumas desregulamentações e a privatização de vários setores como telecomunicações, transportes, energia, finanças e por fim os correios. Paralelamente, foram adotadas algumas práticas de um capitalismo mais selvagem, mais agressivo, com aquisições visando o incremento de ganhos por parte dos acionistas etc. Com o surgimento das crises corporativas no mundo, justamente provocadas pela ganância dos gestores de grandes conglomerados, tipo Enron, Parmalat, e outros, houve um certo questionamento dos caminhos tomados no Japão, que iriam de encontro com a cultura nipônica. Assim é que os acionistas majoritários de empresas como a Canon e Toyota, disseram um sonoro não aos caminhos buscados, sob inspiração dos cânones dos EUA. Voltaram à prática do emprego em benefício de uma identificação do empregado com a empresa, tão ao modo japonês. Afinal, na cultura japonesa, as grandes empresas são consideradas como uma comunidade composta pelos acionistas, empregados, clientes, fornecedores e credores. Intensificaram os reinvestimentos dos lucros gerados pelas empresas, ao contrário dos EUA, e aumentaram a produtividade “per capita” em matéria de inovação no Japão que é muito superior a européia e a dos EUA.

A propósito de soluções genéricas visando solucionar problemas econômicos sociais de países com culturas diferentes, é imperioso que se destaque as seguintes observações de Jeremy Rifkin, pensador social, autor de vários livros que fizeram sucesso no mundo, como o “Fim dos Empregos”: os “Sonhos Americanos e Europeus” são fundamentados em idéias diametralmente opostas, no que respeita a liberdade e segurança; enquanto a liberdade para os europeus se funda na integração, para os americanos significa autonomia, que os faria não depender dos outros, não estando sujeito às circunstâncias fora dos seus controles; a integração para os europeus, via a “inclusividade”, proporcionaria a segurança; destarte o “Sonho Americano” daria ênfase ao crescimento econômico, a riqueza pessoal e a independência, ao passo que o “Sonho Europeu” primaria antes pelo desenvolvimento sustentável, a qualidade de vida e a interdependência.

Por conseguinte, antes de pensarmos nas soluções para os problemas de desenvolvimento social e econômico deste país, antes de adotarmos soluções alienígenas para tais problemas, deveríamos questionar quais os nossos “sonhos”, no sentido de que possamos conscientemente praticar políticas públicas consentâneas com a nossa cultura, com a nossa história. Não creio que modelos americanos, japoneses ou europeus de desenvolvimento sejam adequados à nossa realidade. Afinal, somos um amalgama de culturas que demandam soluções criativas e não simplesmente copiadas de outros modelos, de outras culturas.

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