Ódio mútuo
Aristóteles, o mago da filosofia mundial, utilizando-se de uma máxima, dizia que quando alguém elogia uma grande virtude de outrem é porque essa virtude é de grande utilidade para quem elogia. O vulgo, entre as tantas e incansáveis frases feitas da “filosofia” brasileira, define eleição como sendo o processo democrático da escolha do governante em que o candidato pede dinheiro aos ricos para comprar o voto dos pobres, e promete a ambos que vai proteger um do outro.
Entre uma e outra frase, sobra ao atual momento político do Maranhão o vilipêndio dos elogios de Cafeteira para Roseana Sarney e vice-versa. Inimigos figadais de outros tempos, cobrem-se, agora, mutuamente, de loas como a atestar o perceptível vigor da filosofia da Idade Média ou corroborar a força dos adágios populares e provérbios no Brasil.
Precisam elogiar-se entre si para passar a idéia de que se sentem fortes por conta de uma indescritível união de disparidades que no fundo não passa de um calejado jogo de interesses, a idéia de que podem enriquecer um ao outro em votos e poder.
A lógica e o conhecimento da política maranhense nos ensinam que é realmente do feitio de cada um deles comprar os votos dos pobres e não apenas tomando dinheiro aos ricos, mas acabando de tirar o que resta a quem já não tem nada. Os exemplos para essa afirmação podem ser encontrados nas próprias acusações de corrupção que já fizeram um contra o outro, agora perdoadas, esquecidas, ou guardadas para o futuro, quando os mesmos interesses mesquinhos haverão de separá-los novamente.
É uma política terrível essa que esquece a luta por um futuro de paz, justiça e tranqüilidade para os povos. Essa que lança uma candidata a governador e um candidato a senador nos espaços públicos. A primeira, interessada apenas em eleger os seus e o segundo preocupado apenas com o milagre de fazer deputada a sua filha inupta.
Um jogo de cúpulas embrutecedor faz com que os dois se movimentem juntos, disfarçando o ódio mútuo que por si nutrem e tentando encalhar a revisão dos costumes políticos que o povo aguarda há tanto tempo.
A traição e o servilismo parecem jungir as almas destes dois culpados, pelo menos momentaneamente. A dominação, a pilhagem e a exploração dos maranhenses, que são acusações deles contra eles mesmos, certamente figuram como peça central de uma engrenagem que reúne ódio político e falta de perspectiva eleitoral. Afinal de contas, sendo eles, como péssimos governantes que o foram, co-responsáveis pelo caos econômico e social do Maranhão, o que pode uni-los senão uma chance a mais de trabalhar pela dissolução de nossas esperanças?
Trata-se, unicamente, do jogo do poder, capaz de apagar memórias e até de enterrar virtudes. O mesmo jogo que tem servido para desbaratar a cidadania de tantos brasileiros e, principalmente, maranhenses, estes atolados no fosso dos mais indignificantes índices sociais.
Talvez perdure pelo menos até as eleições essa confabulação eleitoral (e não tem outro nome) que reúne as candidaturas de Roseana Sarney e Cafeteira, escoradas no ódio mútuo e na perseguição relativa. Talvez nem isso. O problema é que se essa coisa der certo o Maranhão haverá de pagar muito alto com a repetição de dores que já sentiu demais.