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Dinacy Corrêa

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Data de Publicação: 29 de julho de 2006
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Dinacy Corrêa

No timbre melódico do nome, a síntese, o carisma de uma personalidade marcante e o condão de reabrir esta Galeria com sua edificante história/lição de vida.DELINE CUTRIM DE LIMA: por trás de uma aparente deficiência, uma essência eterna.

Quem se encontre na região do Aterro do Bacanga, vindo da Avenida Beira Mar, já ultrapassando o Terminal da Integra ção, o Circo da Cidade, seguindo rumo ao Portinho, para cruzar o Anel Viário... Olhando na direção do Desterro, há de notar, rente à muralha do Convento das Mercês, no final da Rua da Estrela (a rua teria que ter mesmo a sua estrela), a casinha cor-de-rosa, contrastando com a grandiosidade e o vermelho-ocre do monumento ancestral. Ali mora Deline Cutrim de Lima (01.09.1965). Sanluisense do Centro Histórico. Filha de Isabel Silva Cutrim (funcionária pública – telefonista do Procuradoria Geral do Estado) e de Delfim Viana Pereira Lima (feirante da antiga Casa das Tulhas - falecido) e irmã de Denis, Denílson e Denise Cutrim de Lima – família que permanece reunida e mutuamente solidária.

Conhecer esta figura simpática, em todo o seu carisma e potencial expressivo/comunicativo, mais que um prazer é uma edificação. Imagine-se que, enquanto muitos de nós, ainda quando no pleno vigor da juventude cronológica ou no gozo de uma saúde perfeita, ficamos, tantas vezes, a nos lamentar por pequeninas coisas, situações, as mais frívolas (“ih... tá chovendo”... “sol quente!”... “comida ruim...” “com uma sede destas e a água nem tá gelada”... “acordar cedo, ai!”... “aula no sábado...”, “fazer redação”... “ler aqueles livros todos... saco!” e etc. etc..), na sua digamos insustentável leveza do ser, Deline tem coisas e causas mais sérias e nobres com que se preocupar. E até adoraria, poder (por exemplo) assistir aulas, mesmo aos sábados, fossem quais fossem as condições meteorológicas ou os deveres a cumprir. Sua vida que, pode-se inferir, desdobra-se na intersecção de duas etapas marcadamente significativas, tendo no ano de 1979 um divisor de águas, tem sido uma incansável luta em defesa de sua identidade, de sua afirmação ontológica – como numa dialética do ser contra o nada (e numa linha muito mais heideggeriana que cartesiana, na medida em que ela reage, inconformada, ante a alternativa de condicionar o seu existir ao mero pensar (cogito ergo sum), como solidão lógica, defendendo o seu direito de ser/existir, num estar-no-mundo-junto-com-os-Outros, como um Ser verdadeiramente social e comunicativo...). Mas, ouçamo-la, que contará um pouco da sua saga existencial...

“1979. Eu tinha 14 anos e estudava na Escola Modelo Benedito Leite, já concluindo a 8ª. série do Ensino Fundamental. Já sofria de escoliose (desvio na coluna), desde que nasci. Sentia dores nas costas, mas não tinha deficiência física. Ia para a escola todos os dias, a pé, brincava no recreio, participava normalmente das atividades. Foi então que o meu médico, aqui de São Luís, me indicou uma cirurgia para corrigir a escoliose. Fui fazer essa cirurgia em Salvador. Depois de toda uma bateria de exames, o médico baiano me liberou para a intervenção cirúrgica. Colocaram-me algumas vértebras de platina... Depois da operação, vieram as dores terríveis e a limitação física. A partir daí, não pude mais andar e fui perdendo, paulatinamente, os movimentos. Cheguei aqui em São Luís (1980) usando o colete de gesso. Não houve, aqui no Maranhão nem na Bahia, um diagnóstico para a minha doença. Só por volta de 1988 é que um grupo de médicos do Sara Kubitschek diagnosticou o meu caso e condenou a cirurgia. Trata-se de uma fibro-displasia ossificante progressiva, uma doença incurável (até o presente), que vai calcificando, gradativamente, os músculos, que vão endurecendo, ossificando-se. Segundo esses médicos (do Sara), se eu não tivesse feito a cirurgia, talvez a doença não tivesse se manifestado, ou pelo menos não teria tomado a dimensão que tomou”.

Sem palavras. Hoje, portadora de deficiência física, irreversivelmente cadeirante, limitada na quase totalidade dos movimentos, ela poderia, talvez, lamentar a sua (literalmente) dolorosa via crucis, revoltar-se contra tudo, apegar-se ao seu breve passado de independência físico-motora, quando, então, em pleno despontar da adolescência, podia curtir, com autonomia, os triviais prazeres da vida... Ou dizer, com o bardo português, na voz poética de Álvaro de Campos (Aniversário): “...Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças/ Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida”... Sua retórica, entretanto, tem outra conotação: “Quando pensei que perdera a esperança, ganhei força interior; quando olhei para minha situação, vi que não estava sozinha; e quando olhei para o Outro, encontrei o sentido da vida” – ela dirá, otimizando a paráfrase. De forma que não lamenta pelo que foi ou pelo que supostamente teria sido, mas regozija-se, serena e corajosamente, pelo que verdadeiramente é, além das circunstâncias e aparências.

Como ela mesmo explica: “No começo, foi terrível. Caí em depressão, perdi a motivação para a vida. Era como se meus sonhos todos tivessem virado um pesadelo que nunca iria ter fim... Sofri, chorei muito. Queria me alegrar, viver feliz e isso me parecia impossível. Como esquecer? Como aceitar? Uma coisa é já se ter nascido com deficiência; outra coisa é encontrá-la, no meio do caminho, como aquela pedra do poema de Drumond. Mas, o tempo foi passando e quando pensei que não, estava superando as crises, equilibrando-me na corda bamba das minhas limitações, enxergando novas luzes no meu horizonte. Compreendi que tinha que me adaptar, fazer as pazes com a minha realidade e procurar viver, grata e prazerosamente, cada instante. Validar, cada vez mais, a minha presença neste mundo, lutando pelo meu direito de ser e de viver com dignidade, junto com os outros, com os meus irmãos de condição”.

E assim tem sido. Antes, muito antes, do fraterno convite, o humano chamado “Levanta-te e vem para o meio!” ela, partindo da sua problemática individual, já abraçara a causa, empunhara a bandeira da inclusão social. E para isso, teve que lutar muito. Primeiro, por si mesma, em termos de estudos, trabalho, direitos de cidadania... Depois, pela classe. E tudo com muita fibra e determinação. Nada lhe chegou fácil, “caído do céu”, ofertado “de bandeja” ou de “mão beijada”, como diz o ditado. Ouçamo-la, mais uma vez:

“Depois que melhorei das dores, que me libertei do colete de gesso, quis voltar a estudar e não consegui. Nenhum colégio me aceitou aqui em São Luís. Depois de muito pedir, insistir, implorar, consegui uma vaga no Garcia de Rezende. E assim pude prosseguir nos meus estudos. Mas tudo sob um prisma muito restrito: fiz as provas de admissão em casa e cursei todo o Ensino Médio nessa condição. Os professores vinham aqui me dar aulas e toda a assistência didático-pedagógica. Tudo bem, agradeço por tudo, por terem me dado essa oportunidade, mesmo assim, senti o gosto amargo da exclusão. Não participei da vida escolar(!!). Foi uma inclusão com ares de exclusão”.

Querer viver e conviver, poder ir ao encontro do Outro para trocar experiências, completar-se na sua finitude...Quebrar o falso estigma de que a pessoa com deficiência não é produtiva... eis a grande questão/reivindicação sócio-existencial de Deline, extensiva a todo esse contingente humano – problemática que ainda se impõe à categoria, com travos de desreipeito e de mágoa. E ela desabafa...

“Eu moro aqui no Centro Histórico, nasci e me criei aqui... Mas ainda me acho inválida no meu bairro. A cidade não nos dá condição de ir e vir com dignidade, as pessoas, não estão preparadas para nos aceitar e às vezes até nos tratam de uma maneira insensível, que nos diminui... O Centro não tem acesso para cadeirantes. E eu queria participar da vida social e cultural do meio em que vivo. Inclusive, sou católica por tradição, mas não vou à Missa, porque as Igrejas daqui também não nos dão acesso. É mesmo muito difícil a vida das pessoas com deficiência aqui em São Luís” – conclui.

E narra um episódio:

“Naquelas eleições em que foram introduzidas as primeiras urnas eletrônicas aqui no Maranhão, fui votar no antigo Centro Caixeiral, na Benedito Leite. As seções eram no andar superior. Eu estava com minha irmã e a gente esperava que alguém nos ajudasse a me levar lá pra cima. Então, veio o oficial do TRE e disse: ‘Você não pode votar’. E para minha irmã: ‘Vota por ela!’ Isso me deixou pra baixo. Dentro de mim explodiu um grito de revolta que não queria calar: Eu não sou EU?! Não tenho identidade?! Perdi a minha consciência de ser humano, o direito de ser cidadã?!”

Quando chegou em casa, indignada, ela redigiu uma carta-denúncia, que enviou ao Jornal O Estado do Maranhão, iniciativa que surtiu efeito, porquanto, nas eleições seguintes, já havia urnas no térreo da referida zona eleitoral.

Como se pôde ver, ainda se nos parece distante, a realização plena do “Levanta-te e vem para o meio”... De todo modo, a Campanha da Fraternidade 2006 deu essa grande largada, esse grito de conscientização e libertação, que está repercutindo positivamente na sociedade, louvado seja Deus! Dias melhores virão...

O primeiro emprego veio também na esteira de muitas lutas e graças ao Projeto do Fórum (primeiro projeto de habilitação e reabilitação das pessoas portadoras de deficiência física aqui no Maranhão). Ela ainda com a palavra:

“Depois do incidente da votação, passei a me interessar por movimentos em defesa do portador de deficiência física. Vi no jornal uma reportagem que tratava e informava sobre o assunto e comecei a participar, a discutir o problema e foi crescendo em mim, cada vez mais, esse ideal, desejo vivo de me entregar à causa. Comecei como voluntária na GDS (Gerência de Desenvolvimento Social), no Projeto Um dia Especial na Escola – que levava portadores de deficiência para dar palestras nas escolas. Outras entidades se juntaram a nós e tivemos a idéia de criar um FORUM. Começamos a discutir uma política pública em favor do deficiente. E vieram as promotorias, as audiências públicas, as passeatas etc., sempre chamando a atenção da comunidade para a questão da inclusão social. Depois de dois anos, passei a trabalhar na FUMCAS (ganhando um salário mínimo – um órgão federal gerencia a distribuição para a entidade, num convênio entre o Ministério Federal e o Município)”.

No trabalho, para onde se encaminha todas as tardes, em carro especial, ela se sente valorizada e respeitada, convivendo num ambiente de companheirismo excelente. Ali, pôde conhecer criaturas maravilhosas: deficientes visuais, auditivos, portadores de paralisia cerebral, pessoas idosas, outras saudáveis, com as quais tem aprendido muito, nesse clima de interação. Como ela diz, “é muito importante a gente se sentir protagonista de nossa própria história”. E lembra: “Seria bom que o governo criasse um programa de doação e/ou sorteio de computadores para os portadores de deficiência” – diz isso a propósito da vantagem que tem de contar com um aparelho desses, em mesa adaptada pelo Sara. “Gosto de bater papo e de pesquisar pela Internet” – informa.

Acompanhemos nossa entrevistada, agora, num ritmo mais dinâmico de perguntas e respostas:

Deline, nessa tua caminhada de lutas pela causa, pela afirmação dos teus ideais, você encontrou alguém assim especial, que te desse aquela força, que mereça ser citado, aqui, à guisa de homenagem? “O doutor Maciel Júnior – advogado. Considero-o um amigo, uma pessoa muito sensível e consciente do valor da pessoa humana. Ele procurou o movimento e começou a trabalhar com a gente, incansavelmente”. Mais alguém? “A Professora Marilda, do Núcleo de Educação Inclusiva da UEMA. Uma pessoa muito comprometida e incrivelmente dedicada a nossa causa, grande incentivadora, que me anima a ir em frente, ir para a Universidade”. Como é o teu olhar para o mundo a tua volta? “Olho o mundo com muita vontade de viver, de ser eu mesma, na plenitude da minha essência humana e divina, eterna, infinita. Não tenho depressão. Superei, há muito, essa fase. Tenho consciência de que sou apenas portadora de deficiência e isso é circunstancial, não é uma verdade absoluta, compreende? Dependo dos outros e isso pra mim é um exercício de humildade, um aprendizado de convivência fraterna, um voto de confiança e esperança no próximo. Assim, me sinto pequenina, como uma criança que precisa de todos e estou sempre grata por isso. Gosto de passear no Reviver, me encontrar com amigos, tomar uma cervejinha, ir ao teatro, cinema, shows, ver o pôr-de-sol”... E o amor, como é a relação a dois para o portador de deficiência, o cadeirante, no caso? “Normal, como com as pessoas saudáveis. O cadeirante tem coração, sentimentos e emoções como qualquer um. Somos capazes de amar, de sentir ciúmes... Nos apaixonamos, nos alegramos ou entristecemos, sofremos decepção ou decepcionamos, podemos, também, trair ou sermos traídos... Mas, para amar e ser amado, primeiro (e isso vale para todos) a gente tem que gostar de si mesmo, se respeitar, aceitar-se como é. Depois dessa conscientização, tudo se torna mais fácil ”. Você tem namorado? “Tenho sim e já tive vários”. Deficientes? “Deficientes, saudáveis... (não tenho preconceitos). Como já dei a entender, sou uma pessoa que aprendeu a buscar, a valorizar o essencial, o que está além das aparências... (por isso me considero plena, eterna, imortal, inatacável)”. Você gosta de ler, produzir textos? Qual o seu autor predileto? “Gosto de ler, de fazer poemas... Meu autor preferido é Paulo Freire, pela sua proposta de libertação, sobretudo no livro Pedagogia do oprimido”. Projetos para o futuro? “Formar-me em Pedagogia, de preferência pela UEMA, e trabalhar na área de Educação Inclusiva”. Uma última reivindicação? “Que a sociedade nos veja como seres humanos e não nos trate com desreipeito. Que não nos exclua, mas nos acolha, com tolerância e carinho. Que o mundo se conscientize de que o portador de deficiência é um filho de Deus, que tem direito a viver com dignidade, a ter lazer, trabalho, constituir família”...

Atualmente, Deline Cutrim de Lima é Presidente do Conselho Municipal de Direitos das Pessoas Portadoras de Deficiências e Coordenadora do Fórum de Entidades de Pessoas Portadoras de Deficiências e Patologias (Rua dos Afogados, 325 – Casa dos Conselhos).

1 E-mail: dinaletras@ ig. com. br

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