Sarney de ontem: nem pobretão, nem arquimilionário*
Antes de ingressar na política e cumprir os numerosos mandatos que o povo maranhense, na sua boa-fé, lhe conferiu, o Sr. José Sarney não era nenhum pobretão. Mas, também, não era o arquimilionário de hoje, com um patrimônio de fazer inveja aos Onassis da vida. Com a diferença de que Onassis construiu sua fortuna através de negócios bem-sucedidos, sobretudo na área da navegação, onde acumulou muita experiência, a partir de sua convivência com os grandes armadores gregos. E Sarney, como explicaria sua fortuna se, pouco antes de aventurar-se pela política, não passava de um simples secretário do Tribunal de Justiça do Estado, cargo cuja maior parte do tempo exercia nas escadarias do Palácio Clovis Bevilácqua? Como explicar as mansões de hoje, a participação em empresas milionárias, o império de comunicação surgido da noite para o dia e tantos outros empreendimentos que formam os patrimônios seu e da deslumbrada família?
Ao se estabelecer um paralelo entre Sarney e os grandes vultos da recente história política maranhense, uma certeza fica evidente: quem mais se deu bem, economicamente, com a atividade política foi o maranhense que hoje é senador pelo Amapá. Clodomir Millet, Neiva Moreira, Henrique de La Rocque e Newton Bello, apenas para citar alguns, foram ou são políticos de patrimônios compatíveis com rendimentos correspondentes às suas atividades; modestos, por sinal. O próprio Vitorino Freire, que durante vários anos liderou a oligarquia que antecedeu à de Sarney, morreu praticamente pobre. Tudo o que possuía, ao falecer, era um apartamento no Rio de Janeiro, em área nem tão valorizada. Mas Sarney une ambição à vaidade e se apossou até mesmo do Convento das Mercês, pretendendo ali construir um mausoléu para que, após sua morte, “o povo vá reverenciá-lo”, conforme ele mesmo profetiza em seus delírios psicopatas.
Como candidata ao Governo do Estado, a filha do magnata Sarney, Roseana, foi obrigada a fazer sua declaração patrimonial à Justiça Eleitoral. Entre os bens declarados pela herdeira de José Sarney estão: imóvel residencial na ilha de Curupu (dizem que a mansão é coisa de cinema), 25% da Fazenda Curupu, na mesma ilha, encravada no município de Raposa, 2,7 milhões das cotas de capital da TV Mirante, 2,2 milhões de ações da Gráfica Escolar, que publica o jornal Estado do Maranhão, duas áreas rurais no Distrito Federal, uma área urbana, com 6,5 hectares - 65 metros quadrados – em São Luís, uma mansão na Quadra 11, no Lago Sul, em Brasília, dois automóveis e um imóvel localizado no Rio de Janeiro. Existem suspeitas de que a candidata pefelista tenha deixado de declarar outros bens. Mas a oposição exigia essa semana que Roseana cumprisse integralmente o que determina a legislação; ou seja, além de declarar o que possui, tem que informar a origem e o valor desses bens.
A exigência, conquanto seja uma norma geral, no caso específico da senadora, serve também para aclarar alguns pontos obscuros da polêmica levantada sobre os seus bens. Afinal de contas, ao término de dois mandatos consecutivos como governadora, atribuía-se à hoje candidata ao mesmo cargo a responsabilidade por numerosos e graves atos de corrupção. Ao contrário do governador José Reinaldo Tavares, que manda apurar todas as acusações contra sua administração, Roseana procedia exatamente na contra-mão da responsabilidade pública: não permitiu que nada fosse sequer investigado, permitindo à opinião pública a conclusão de que as denúncias realmente procedem. Num país sério, a filhinha mimada do Sr. José Sarney estaria alcançada pelos rigores da lei e não debochando da Justiça, pretendendo retornar ao Governo do Estado. Dançando e rindo à-toa diante das câmeras de suas emissoras de TV espalhadas pelo Estado (bem antes do tempo permitido para propaganda eleitoral), segura da impunidade, por conta do prestígio do seu pai junto aos principais poderes da República, por haver sido presidente de dois deles – o Executivo e o Legislativo – e ter nomeado vários ministros das mais importantes cortes de justiça do País, inclusive da principal, o Supremo Tribunal Federal.
Em todo o Maranhão admite-se que, nos dois mandatos que esteve “à frente” da administração estadual, quem governava, de fato, era o seu marido, o prepotente e mal- educado Jorge Murad. Deputados, prefeitos, enfim, políticos de um modo geral não tinham acesso ao gabinete de Roseana, porque Jorginho não deixava. Essa é, com efeito, a razão pela qual a imensa maioria dos tradicionais aliados da família Sarney, hoje nega apoio à candidata oligárquica, quer pelos ressentimentos acumulados com o tratamento recebido, quer por temerem uma nova era Jorginho Murad no Palácio Henrique de La Rocque.
Como governador plenipotenciário, no período Roseana, Jorginho Murad deveria também declarar os bens, para checar a evolução patrimonial verificada antes e depois da administração. Não na base do faz-de-conta, como se atribui à declaração atual da sua esposa. Seria, no mínimo, um meio legal de se formar um juízo mais consistente, se houve efetivamente apropriação indébita do erário e, sendo confirmado, quando foi o desvio dos recursos que deveriam ter sido aplicados no desenvolvimento sustentável do Maranhão.
A primeiro de outubro, José Sarney, através de sua filha Roseana e, por via de cumplicidade, do filhote adotado, Jorginho, tem uma conta a ajustar com a terra natal e os conterrâneos aviltados, saqueados e oprimidos durante quarenta longos e penosos anos. Será o fim da era de enriquecimento fácil e ilícito. Romper-se-á a fronteira para um novo tempo em que haja respeito à população, garantindo-se aos maranhenses e a tantos quantos se instalaram nesse solo acolhedor para trabalhar e viver honestamente, tratamento que corresponda à grandeza e à dignidade que eles comprovadamente merecem.
* A primeiro de outubro, o povo Brasileiro e, de modo especial, os conterrâneos maranhenses têm um compromisso com a Nação e com o seu Estado: não permitir que eles sejam conduzidos por quem, protegido, acobertado ou confiado na impunidade, não distinga a diferença entre os patrimônios público e privado. Por quem não dê satisfações convincentes sobre o paradeiro e a aplicação dos recursos oriundos da imensa carga tributária gerada coletivamente. Em nome das instituições republicanas, em respeito ao Estado Democrático de Direito, numa verdadeira demonstração de amor ao Brasil e, particularmente, ao Maranhão; pela felicidade geral, plena e irrestrita (urgentíssima) dos seus filhos, consideremos todos um dever de consciência e de honra que se nos impõe: Exigir que, em lugar de cadeira, banco dos réus para os políticos safados. E, ao invés de palácios, cadeia para os corruptos!!!
(othelinofilho@yahoo.com.br).