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São Luís, por que Atenas brasileira?

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Data de Publicação: 16 de julho de 2006
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Opnião

Por: Jorge Leão*

O título de “Atenas brasileira” é concedido à cidade de São Luís. Mas, por que este título? Primeiramente, um breve resumo histórico, para que possamos compreender de onde partimos e onde estamos atualmente...

Após a pacificação da Balaiada em 1841, O Maranhão atravessou uma época de estabilidade e grande crescimento econômico. Os principais produtos maranhenses eram o algodão, a cana-de-açúcar e o arroz. Entretanto, o algodão se destacou como grande produto de exportação da província, já que, com a Guerra de Secessão, os Estados Unidos viram seu algodão entrar em decadência. Esta guerra ocorreu nos Estados Unidos entre os anos de 1861 e 1865, na qual se confrontaram os estados do sul contra os estados do norte. Os estados do sul tinham sua economia centrada na agricultura e lutavam pela continuidade da escravidão no país. Os estados do norte, por sua vez, eram industriais e queriam a abolição dos escravos. O conflito terminou com a vitória dos estados do norte. Logo, a preponderância do modelo industrial de produção.

Ora, sem a concorrência do algodão norte-americano, o algodão maranhense firmou-se como grande abastecedor do mercado mundial. Entretanto, com o fim da guerra, o algodão norte-americano revigora a sua força no mercado. Com isso, o produto maranhense entra em queda, com uma diminuição significativa de suas exportações. Também o açúcar maranhense segue o mesmo caminho, assim como os engenhos de cana e as fazendas de algodão. Instala-se em nosso estado um processo de falência progressiva.

Dentro deste contexto histórico, a vida cultural no Maranhão ganha em intensidade e expressividade. A literatura floresce com uma enorme quantidade de intelectuais e escritores. Nomes como os de Gonçalves Dias, João Lisboa, Cândido Mendes, Odorico Mendes, Sousândrade, Humberto de Campos e outros, constitui aquilo que fez do Maranhão o grande cenário da poesia, da prosa e da produção jornalística no século XIX. Mas, a riqueza da tradição literária maranhense não se limita apenas a este período. Na transição para o século XX, um outro grupo de intelectuais maranhenses destacou-se na vida cultural brasileira. Entre eles podemos citar nomes como os de Adelino Fontoura, Teófilo Dias, Raimundo Corrêa, Aluízio de Azevedo, Artur Azevedo, Coelho Neto, Graça Aranha, Teixeira Mendes, Nina Rodrigues.

Vale ressaltar também o surgimento de grandes músicos e compositores. São também dessa época realizações como a fundação da Biblioteca Pública Benedito Leite, do Colégio Liceu Maranhense, o Teatro Artur Azevedo, do Seminário Episcopal de Santo Antônio, da Associação Literária do Ateneu Maranhense, do Instituto de Humanidades, entre outros.

E mais recentemente, grandes poetas e escritores como Ferreira Gullar, Nauro Machado, Arlete da Cruz Machado e José Chagas (mesmo sem ter nascido no Maranhão, já mora nesta cidade há muitos anos), além, obviamente, da pena imortal do romancista Josué Montello (falecido recentemente), fazem de nossa literatura um marco na história da cultura brasileira.

Por toda esta riqueza e variedade intelectual e artística, São Luís entrou definitivamente no cenário de nosso país com o título de “Atenas brasileira”. Ainda com a existência de vários registros históricos, o acesso aos próprios leitores maranhenses é quase inacessível. É muito raro entrarmos em livrarias ou bibliotecas de nossa cidade e vermos disponíveis os livros de nossos autores. Uma pesquisa sobre a história do Maranhão ou de sua vastíssima produção literária parece, sem muito exagero, uma tarefa para o herói mitológico grego Hércules. Ora, uma cidade com o título de “patrimônio cultural da humanidade” não pode permitir que sua memória morra por falta de um projeto político-cultural de preservação. Já é hora de resgatarmos nossa dívida com os “imortais” de nossa cidade, cidade das ladeiras, dos azulejos, dos versos de amor, de lendas e segredos, mas também de descaso e ausência política pelo patrimônio que possui. Salvemos, portanto, esta memória, a fim de que este título não fique apenas, como se torna comum em nosso país, em nossa memória, sem registros, relatos ou projetos culturais de valorização e resgate histórico.

*Professor de Filosofia do Cefet-Ma

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