Por: Waldemar Terr (Repórter de Política)
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A presidente da Escola de Psicanálise do Maranhão (EPM), Alayde Maria Ferreira Martins, contou que a entidade "vem empreendendo um combate contra grupos que se colocam de forma totalmente ilegítima na oferta de formação em psicanálise clínica, uma luta travada juntamente com as demais instituições psicanalíticas do Brasil que há mais de 50 anos assumiram a responsabilidade pela formação de analistas".
Ela contou que "existe um grupo denominado Articulação de Entidades Psicanalíticas que há seis anos assumiu a responsabilidade de tratar com estas questões e que vem enfrentando tanto as tentativas de regulamentação do campo quanto sua ocupação por grupos inescrupulosos que inclusive são a favor de uma regulamentação, pois esta lhes traria a oportunidade de obter uma legitimidade que hoje não possuem".
A presidente da EPM disse que "primeiramente a psicanálise não é exatamente uma profissão e quando nos referimos à psicanálise, não nos referimos a ela como uma profissão. O trabalho com a psicanálise exige uma formação contínua, na qual o analista se engaja por toda a vida, que parte da análise pessoal e inclui a supervisão e os estudos teóricos em instituições psicanalíticas, e que, na nossa instituição, se dá a partir do legado de Freud e Lacan. Aqueles que exercem a psicanálise têm, também, uma formação acadêmica - diferente da formação psicanalítica - que é regulada por leis específicas de cada profissão".
A seguir os principais trechos da entrevista.
JORNAL PEQUENO - Qual o desenvolvimento da psicanálise no Estado?
ALAYDE MARIA MARTINS - Eu só poderia responder pelo desenvolvimento da psicanálise, em São Luís, a partir das instituições às quais me dediquei e tenho me dedicado. Há vinte e um anos convidei algumas pessoas e formamos um grupo de estudos, este grupo se firmou e fundamos o Núcleo de Estudos Freudianos - NEF. Como o nome o indica, era um grupo formado por pessoas que queriam estudar psicanálise, basicamente Freud e Lacan. Nem todos eram analistas, mas todos, sem exceção, eram analisantes. Desde então, o próprio movimento de estudos e análise pessoal possibilitou o nascimento de outras instituições: o NEF gerou a Sociedade de Psicanálise do Maranhão, que gerou a Liça Freudiana e que, há dez anos, gerou a Escola de Psicanálise do Maranhão - EPM. Como se vê, até que pudéssemos nos propor como uma Escola de formação de analistas, levamos um longo tempo de estudos, dedicação à clínica psicanalítica e análise pessoal.
JP - Qual o tamanho do mercado no Estado e que áreas o profissional pode atuar?
ALAYDE - Ignoro o tamanho do mercado, mas, pelo surgimento acentuado de ofertas de formação, acredito que não deva ser nada insignificante. Aliás, como nos lembrou Lacan, há nesta questão um fator que subverte o mercado, qual seja, é a oferta que gera a demanda. Quanto à área de atuação, ela é a clínica psicanalítica. Por clínica psicanalítica entendemos que seja o lugar no qual o analista pode escutar uma demanda de análise. E uma demanda de análise não é apenas um pedido de ajuda. É um pedido que vem nos indagar sobre o sofrimento de um sujeito. E esse sofrimento não gera apenas uma queixa, mas o anseio por saber o que o ultrapassa. Quando um sujeito se dirige a um analista, ele não encontra um lugar no qual possa apenas se queixar, desabafar, ou se conhecer melhor. Ainda que possamos admitir que estas coisas aconteçam, o sujeito, na verdade, sabe, ou será levado a saber, que não é disso que se trata. A ele não restou outra saída para o seu sofrimento, para a sua angústia, a não ser a de se dirigir a um outro, supondo que este outro detém um saber sobre o que o causa. Saber que lhe escapa. Quando ele pede ao analista que o ajude, ele já sabe que não consegue, sozinho, recompor ou mesmo compor sua vida da forma como ele desejaria. Algo não funciona. O que ele não sabe é o que o impede de fazer o que gostaria, dizer o que gostaria a quem ele quer, sentir o que ele gostaria da forma como ele gostaria, enfim, ele não sabe por que sempre toma direções contrárias às que ele pensou tomar. Quando ele não consegue mais acreditar em suas desculpas de auto-engano, por exemplo, de que isto é por azar ou culpa de um outro, então, bem, ele está na boa direção. Ele começa a se tocar de que "ele não é o senhor em sua própria casa"...
JP - Quem pode exercer a profissão no Estado?
ALAYDE - Primeiramente, a psicanálise não é exatamente uma profissão. Quando nos referimos à psicanálise, não nos referimos a ela como uma profissão. O trabalho com a psicanálise exige uma formação contínua, na qual o analista se engaja por toda a vida, que parte da análise pessoal e inclui a supervisão e os estudos teóricos em instituições psicanalíticas, e que, na nossa instituição, se dá a partir do legado de Freud e Lacan. Aqueles que exercem a psicanálise têm, também, uma formação acadêmica - diferente da formação psicanalítica - que é regulada por leis específicas de cada profissão. E é exatamente para poder falar mais sobre estas questões, da situação da psicanálise e da formação dos psicanalistas, que começaremos a publicar quinzenalmente, neste jornal, uma série de artigos; série que se chamará: Psicanálise Hoje.
JP - A Escola de Psicanálise do Maranhão vem empreendendo um combate contra grupos que se colocam de forma totalmente ilegítima na oferta de 'formação em psicanálise clínica'. Qual tem sido o resultado desta luta?
ALAYDE - Na verdade a Escola de Psicanálise do Maranhão se junta, nesta luta, às demais instituições psicanalíticas no Brasil que, há mais de 50 anos, assumem a responsabilidade pela formação de analistas. Existe um grupo denominado Articulação de Entidades Psicanalíticas que, há 6 anos, assumiu a responsabilidade de tratar com estas questões e que vem enfrentando tanto as tentativas de regulamentação do campo quanto sua ocupação por grupos inescrupulosos que inclusive são a favor de uma regulamentação, pois esta lhes traria a oportunidade de obter uma legitimidade que hoje não possuem.
JP - Qual é o principal papel da psicanálise?
ALAYDE - No ano de 1900, portanto há mais de 100 anos, Freud descobriu que "não somos senhores em nossa própria casa". Isto quer dizer que o nosso 'eu' é apenas uma imagem superficial de nós mesmos e não o centro de nós mesmos. Não responde por nada além de nossas vontades, nossa percepção singular da realidade, e, na maioria das vezes, nos engana sobre nós mesmos. O que nos rege, nosso desejo, é inconsciente, é desconhecido. O desejo não se diz na primeira pessoa. Esta descoberta ficou conhecida como a terceira grande ferida narcísica perpetrada pelo conhecimento humano contra seu sentimento de grandeza e potência. As duas outras foram: o descentramento do universo, feito por Copérnico, ao mostrar que não era o sol que girava ao redor de nós, mas sim que a Terra gira ao redor do sol; e a origem do homem, dada por Darwin como advinda de outras espécies animais, e não à imagem e semelhança de Deus. Então, o principal papel da psicanálise foi, e continua sendo, permitir que a gente se aproxime daquilo que nos causa e que enquanto verdade sobre nós mesmos sempre nos escapa.O trabalho analítico é feito a partir do que chamamos de formações do inconsciente, as máscaras do desejo; essas formações se dão a partir dos sintomas, dos atos falhos, dos sonhos, dos chistes; esse trabalho é o que leva o sujeito a operar mudanças, a mudar de posição quanto ao seu sofrimento.
JP - Qual a necessidade do nascimento da psicanálise?
ALAYDE - Freud faz sua descoberta a partir de sua clínica, da escuta de seus pacientes neuróticos, que sofrem de sintomas que lhes escapam e sobre os quais não há controle nem tratamento possível. Então, sua descoberta não é um achado científico, de laboratório. Impôs-se ao clínico Freud, encontrar um tratamento para as neuroses. E ele teve um longo caminho a partir de sua descoberta, pois o inconsciente, desde Freud, não é apenas uma parte da mente que não é a consciência. Não. O inconsciente é o lugar de onde os desejos sexuais infantis regem o aparelho psíquico, fazem-no trabalhar. É o que Freud chamou a Outra Cena, e que Lacan demonstrou, seguindo Freud, ter a mesma estrutura da linguagem.
JP - Freud já explicou tudo ou a escola dele já perdeu terreno?
ALAYDE - Veja bem, não há a escola de Freud. Isto porque não há psicanálise que não seja freudiana! Quando das saídas de Adler e de Jung do Movimento Psicanalítico, Freud escreveu um lindo texto sobre a História do Movimento Psicanalítico. Pois bem, num momento deste texto ele usa uma metáfora sobre uma faca da qual primeiro, trocaríamos seu cabo, depois sua lâmina, e, no entanto, continuaríamos a dizer que é a mesma faca! Se Freud, que é o pai da Psicanálise, nos legou uma teoria que tem um eixo formado por conceitos fundamentais, nada que não seguir seus preceitos poderá ser considerado psicanálise. Este eixo da doutrina psicanalítica é formado pelo conceito de inconsciente, que engendra os demais, quais sejam: recalque, pulsões, libido, sexualidade, resistência, transferência, repetição, sintoma, desejo inconsciente, objeto parcial, são alguns dos mais axiais.
JP - Qual é o principal legado de Freud?
ALAYDE - - A Psicanálise! Se você quiser, podemos dizer que devemos a Freud a perda da inocência sobre nós mesmos. A principal resistência à descoberta de Freud não é a recusa do inconsciente, mas a recusa da sexualidade tal como ele a formulou. Quando ele afirmou, no século passado, que existe sexualidade nas crianças, foi um escândalo! Quando ele afirmou que nossa sexualidade, a qual permanece para sempre infantil, é nosso motor psíquico, foi uma ofensa! Quando nos mostrou que os desejos sexuais infantis colocam em movimento o aparelho psíquico, não foi sequer compreendido.
JP - Qual foi o efeito desta descoberta? E o que é a sexualidade para a psicanálise?
ALAYDE - Bem depois disto, muitos psicólogos e pedagogos se dedicaram a escrever rios de livros sobre sexualidade e de como ensiná-la às crianças, inclusive nas escolas, para que elas não ficassem traumatizadas, etc. Os sexólogos, (aliás, categoria inimaginável antes de Freud), dedicaram outros tantos rios de livros ao estudo da sexualidade humana e de técnicas e teorias que propunham o seu amadurecimento. Mas nada disto tem a ver com a psicanálise, embora tudo isto tenha derivado de sua descoberta. E como é para a psicanálise? A sexualidade, para nós, seres humanos, seres falantes, é traumática. Não somos seres regidos apenas por nossos instintos, mas por nossas pulsões. Somos seres de linguagem. Quando um animal nasce, ele vem, digamos assim, com um conhecimento pré-programado sobre seu comportamento sexual. Por exemplo, quando uma cadela entra no cio, ela "sabe" o que tem a fazer. Seu comportamento sexual irá se dirigir para um ser da mesma espécie e do sexo oposto e nenhuma outra cadela mais velha e experiente precisará ensinar a ela o que ela terá de fazer ou como seria melhor fazê-lo. Por outro lado, o cachorro só terá seu comportamento acionado diante de uma fêmea no cio, e este sinal será suficiente para acionar nele o comportamento adequado. Tudo isto em condições normais de temperatura e pressão...
JP - Mas o que acontece conosco, seres falantes?
ALAYDE - As crianças têm uma sexualidade que Freud chamou de perversa e polimorfa, e que é bifásica. Isto quer dizer que esta sexualidade que está presente nela desde o seu nascimento, aos 5, 6 anos, mais ou menos, adormece, ela entra no período de latência, se interrompe. É inclusive o momento no qual a sociedade, sabiamente, aproveita para colocá-las nas escolas, pois o investimento pulsional é desviado para a curiosidade de tudo querer saber e tudo querer aprender.
JP - E depois?
ALAYDE - Existe um segundo momento de despertar da sexualidade, na adolescência, quando o sujeito terá que responder por sua identidade sexual, isto é, reconhecer-se como mulher ou homem, e, além disto, reconhecer seu objeto sexual. Qualquer um que tenha contato com os adolescentes sabe o que isto lhes causa. Nossa identidade sexual, diferentemente dos animais, não está pré-determinada por nosso aparelho anatômico, assim como nosso objeto sexual não está colocado naturalmente no ser da mesma espécie e sexo oposto. Disto, nós sabemos todos. Apenas procuramos pensar que isto não é o normal. A angústia diante destas questões vira assunto dos nossos jovens, e, como na letra da canção, 'eles só querem, só pensam em namorar'. Aquela libido que fora investida no estudo, no querer aprender, concentra-se agora em querer saber sobre o sexo aliás, mais do saber é do fazer que se trata. Daí a nossa dificuldade em fazê-los querer estudar. Prestem atenção nisto: quando a um adulto começa a falar dos seus sintomas neuróticos, quase sempre ele reporta seu início ao final da infância, início da puberdade. Enfim, os sexos não se conjugam, e Lacan o soube teorizar muito bem, após mais de vinte anos de seu Seminário. A mulher permanecerá para o homem como sintoma e este será para ela uma devastação.
JP - Qual o balanço sobre o seminário realizado sobre os 150 anos de nascimento de Freud?
OBS - Na entrevista de Alayde Maria Ferreira Martins teve a participação da Comissão de Garantia da EPM, formada por Luiza Maria Castro Jansen Ferreira, Maria Sílvia Antunes Furtado e Márcia Teresa Ferreira Pinto.