José de Oliveira Ramos
(joseoramos2006@ig.com.br)
No final da década de setenta e início da década de oitenta, ao final de mais um clássico envolvendo Moto Club de São Luís e Sampaio Corrêa, ainda nos arredores da Praça Catulo da Paixão Cearense, um grupo de desportistas abraçou a idéia de terminar com o sofrimento daqueles mais de vinte mil torcedores que se digladiavam para ter acesso ao Nhozinho Santos.
Dias depois, estava consumada a idéia e foi colocada em prática a necessidade urgente de construir um novo estádio, capaz de receber o público compatível aos três clássicos do emergente futebol maranhense.
Sem que qualquer clube local vislumbrasse a possibilidade de construir um estádio particular, como em Recife, onde o Sport tem o seu na Ilha do Retiro; o Náutico tem o Estádio dos Aflitos e o Santa Cruz tem o Arrudão; ou em Belém, onde o Paysandu tem a Curuzu; o Remo tem o Baenão e até a Tuna Luso tem o Francisco Vasquez, a solução foi tentar vender a idéia ao Governo do Estado.
Era Governador João Castelo Ribeiro Gonçalves. Se não era um desportista de carteirinha, era um governante de muita sensibilidade com capacidade para entender que a construção de um estádio de grande porte seria a alavanca de que o futebol maranhense precisava para alcançar etapas de crescimento e solidificação no cenário esportivo nacional.
As providências legais foram tomadas e, em poucos meses foi lançada a idéia da construção do hoje Castelão - homenagem mais que justa ao responsável direto pelo que deveria ter sido a redenção do futebol maranhense.
Em 1982 o Estádio Castelão foi inaugurado. É certo que, para tanto, foi feita uma grande maquiagem - que permanece até hoje - nos compartimentos que não seriam utilizados de imediato.
Embora alguns jogos tenham acontecido antes, a inauguração solene foi feita com a presença da seleção brasileira de futebol e com a primeira superlotação. Há quem ainda lembre que se "sentia o cheirinho da grama verdinha e da tinta fresca da pintura."
Os grandes artífices da construção: o povo, transformado em torcedor e ao mesmo tempo em eleitor; João Castelo, Olímpio Guimarães e o então secretário de esportes Ely de Jesus Gomes.
Depois veio o Governo Luiz Rocha, que teve como secretário Eleotério Nan Souza, mais tarde substituído por Biló Murad. No final da década de oitenta era Governador Epitácio Cafeteira e os secretários de esportes foram: Carlos Guterres e Cecília Moreira, esta falecida.
Cafeteira se candidatou ao Senado e foi substituído por João Alberto de Souza, que teve como secretários Sebastião Murad e Domingos Leal, este também falecido.
No início da década de noventa era Governador Edison Lobão, que teve como secretário Phil Camarão. Lobão candidatou-se ao Senado e foi substituído por Ribamar Fiquene, que teve como secretário Edson Caldeira.
De 1982, ano da inauguração, até 1995 se passaram treze anos. A maquiagem feita para a inauguração continuou intacta e todos os governantes sabiam disso - se não souberam, não cumpriram com a Constituição Estadual, que determina o zelo pela coisa pública.
Em 1995 assumiu o Governo do Estado Roseana Sarney, que teve como secretários Paulo Tinoco e Marly Abdala. Os problemas começaram a aparecer, fruto do comprometimento crescente da drenagem. A única preocupação, entretanto, foi com o extermínio das "paquinhas", que se reproduziam aos milhares, nas comprometidas galerias de drenagem.
Quando foi concebido, o projeto de construção do estádio decidiu carrear a principal demanda de drenagem para um dos afluentes do Rio Anil, para onde o volume d´água correria na maré baixa.
Mas, no início da década de noventa foi consolidada e aceita a invasão do bairro Barreto. Para construir suas casas, os invasores acabaram promovendo aterros e mais aterros, fechando, definitivamente, os canais da drenagem. O tiro de misericórdia foi dado não faz muito tempo, com a construção de um muro de arrimo de concreto para recebimento de uma das cabeceiras do elevado Alcione Nazaré.
Veio o segundo mandato de Roseana Sarney e, mais uma vez, nada foi feito - até porque, talvez não se conhecesse a necessidade que hoje é do conhecimento público. A tão necessária Secretaria de Esportes passou a ser um apêndice da Secretaria de Educação e as praças de esportes e o próprio esporte contrastando com o crescimento dos Jogos Escolares, ficaram em segundo plano. Depois Luís Godinho foi transformado em Secretário e, melhorando a maquiagem superior, realizou a única construção desde 1982: três ou quatro camarotes.
Veio finalmente o Governo José Reinaldo e, sem suportar mais maquiagens os problemas vieram à tona. O Castelão foi interditado antes mesmo de ser concluído. Desde então, não se moveu uma palha e a maquiagem para o abandono está sendo a justificativa de que o atual estágio técnico do futebol maranhense não exige a recuperação imediata do Castelão. Como se o estádio não fosse um patrimônio público que, sem qualquer atitude para recuperação, pode causar um problema maior.
Os laudos técnicos comprovam que a interdição foi uma medida emergencial e necessária, da mesma forma que recomendam a urgente recuperação, sob pena de não se ter mais o que recuperar.
Conversas com engenheiros especialistas em concreto que conhecem o laudo e a situação do estádio desde a sua construção, revelaram que o Castelão tem uma das melhores fundações da construção civil brasileira, mas os problemas com a drenagem podem levá-las ao comprometimento.
Cálculos otimistas apontam para uma grande soma de dinheiro apenas com a indenização e retirada das casas do Barreto construídas sobre os canais de drenagem, para que possa acontecer a desobstrução, sem a qual nenhuma obra conseguirá levar a bom termo a recuperação.
Mas o Castelão tem jeito sim. Desde que o patrimônio público passe a merecer respeito e os impostos pagos pelos cidadãos, desportistas ou não, tenham uma real e respeitosa destinação.