POR JOSÉ LINHARES JR.
Ao longo das últimas cinco semanas o Jornal Pequeno publicou uma série de matérias sobre as barreiras de acessibilidade. Aspectos arquitetônicos, comunicacionais, metodológicos, programáticos, e atitudinais foram mostrados e debatidos por autoridades no assunto. Nesta última reportagem serão mostrados locais na cidade onde a preocupação com a acessibilidade superou todas as barreiras.
Raridades - Faz três anos que um grupo empresarial de São Luís resolveu entrar no ramo de concessionárias. Antes mesmo de desenvolver o projeto inicial das instalações, já era consenso entre o grupo que o novo empreendimento deveria estar totalmente adequado ás normas de acessibilidade. "Esta concepção já acompanha a empresa desde muito tempo. Acreditamos que o livre acesso é fundamental para qualquer atividade empresarial", disse José Medeiros Filho, diretor da Taguatur Veículos.
Após uma série de delimitações ficou estabelecido que a concessionária teria dois banheiros para portadores de deficiência física, dois elevadores e vagas especiais no estacionamento. Além disso, o projeto levou em consideração a largura dos corredores. "Nossa meta era que portadores de deficiência, idoso ou pessoas com lesões temporárias pudessem locomover-se totalmente dentro da concessionária, e acredito que conseguimos", explicou José Medeiros.
Para Kátia Espíndola, do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência, o prédio da concessionária é um dos mais modernos de São Luís. "Pode-se notar a preocupação deles com os mínimos detalhes. Estão de parabéns".
Os restaurantes de São Luís são conhecidos nacionalmente pela sua culinária exótica. No entanto, o cadeirante Dílson Bessa revelou que existe uma outra fama não tão positiva: a inacessibilidade. "São pouquíssimos os lugares que se preocupam com a acessibilidade aqui em São Luís".
O Restaurante Dona Maria, no Calhau, é uma exceção. Com rampas, banheiros adaptados e, até mesmo, um elevador, o estabelecimento permite acesso fácil á todos os clientes. De acordo com a proprietária, Milagres Sousa dos Santos, foi a demanda que ditou a mudança na postura da administração e, consequentemente, as mudanças na estrutura do restaurante. "Notamos que pessoas com mobilidade reduzida e portadoras de deficiência tinham dificuldade em se locomover aqui dentro. Resolvemos adaptar tudo depois disso".
A iniciativa rendeu muitos elogios. "Depois de algum tempo começamos a receber um público diferente do que estávamos acostumados a atender. Além disso, os elogios por parte de turistas e outras pessoas aumentaram muito", relatou Milagres Sousa.
O Instituto Superior de Administração e Negócios (Isan), no Altos do Calhau, é um outro exemplo de como a cultura pode ser mudada. Vinculado à Fundação Getúlio Vargas, já conhecida por sua postura de vanguarda na educação, o Instituto também desenvolveu toda sua estrutura com metas a possibilitar o livre acesso dentro das instalações. "Até mesmo a largura de nossas portas foram criadas para possibilitar a entrada de cadeiras de rodas sem incômodo algum", explicou o diretor Benício Chagas.
Assim como a Taguatur Veículos e o Restaurante Dona Maria, o Isan possui banheiros adaptados e rampas.
Visão de futuro - Os três empresários revelaram que o fato de sua preocupação com a acessibilidade ser motivo de deslumbramento é algo ruim para a cidade. "É uma questão que deve ser tratada como fundamental. Afinal de contas, isso não é favor, mas uma obrigação social. Quando se cria a impressão de que os empresários daqui não são preocupados com isso, toda a cidade perde", disse Benício Chagas.
Milagres Sousa afirmou que o elevador instalado em seu restaurante causa surpresa. "Existem pessoas que não sabem nem o que é e pergunta com freqüência qual a utilidade. E olha que isso já é comum em outras capitais".
"Nós aqui da Taguatur Veículos temos certeza de que fizemos nosso trabalho. No entanto, entristece saber que nós nos tornamos acessíveis, mas a cidade ainda continua inacessível. Um cadeirante tem mobilidade total aqui dentro. Mas, até chegar aqui, ele enfrentará muitas barreiras do lado de fora", afirmou José Medeiros Filho. "Existem portadores de deficiência que são pessoas brilhantes. Quando uma sociedade se predispõe a não permitir que este brilhantismo aflore, todos perdem. E uma sociedade como a nossa, não pode se dar ao luxo de perder nada", concluiu Benício Chagas.