Os tribunais chilenos, que fracassaram em condenar a tempo Augusto Pinochet por violações dos direitos humanos, apesar da morte e do desaparecimento de 3.000 opositores, ainda têm a possibilidade de atingir sua família e pessoas próximas no caso de contas secretas mantidas em bancos no exterior e de fraude fiscal.
O braço da Justiça já alcançou o primeiro círculo do general Pinochet, morto domingo aos 91 anos das conseqüências de um infarto, já que sua esposa Lucia Hiriart e três de seus cinco filhos estão envolvidos em um processo relacionado a fraude fiscal, assim como sua secretária particular Monica Ananias e seu testamenteiro Oscar Aytken.
Estas investigações lançadas após a descoberta de quase cem contas bancárias no banco Riggs de Washington e em outros estabelecimentos bancários com cerca de US$ 27 milhões em depósitos devem prosseguir depois da morte do ditador e apontar diretamente a responsabilidade civil de sua família.
Ao contrário, os três outros processos que Pinochet devia encarar por crimes e violações dos direitos humanos praticados durante o regime militar (1973-1990) deverão ser suspensos.
"Qualquer responsabilidade penal que incidia sobre ele acabou com a sua morte", declarou o advogado da acusação, Hugo Gutierrez, lamentando que o ditador tenha morrido sem nunca ter sido condenado.
A ausência de condenação também foi lamentada por vários governos e organizações de defesa de direitos humanos como a Human Rights Watch (HRW) ou a Anistia Internacional (AI), assim como por Isabel Allende, deputada e filha do falecido presidente Salvador Allende, derrubado por Pinochet em 11 de setembro de 1973. Ela expressou o desejo de que as 400 investigações em curso sobre os crimes da ditadura continuem.
O presidente da Corte Suprema chilena, Marco Livedinsky, defendeu a ação dos tribunais afirmando que a justiça havia feito o possível. E rejeitou as acusações de laxismo e de lentidão.