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SEBASTIÃO NERY

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Data de Publicação: 12 de dezembro de 2006
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HISTÓRIAS DA POLÍTICA

São Lourenço (MG) - No Ceará não tem disso não, cantava o Gonzagão. Não tem mais, mas tinha. As eleições eram feitas nas igrejas. Retirava-se o Santíssimo Sacramento, levavam as imagens dos santos para a sacristia e o pau comia, começava a pancadaria. Sempre com mortes.

Nas eleições de 3 de novembro de 1896, na matriz de Sobral, a briga foi tão feia que acabaram quatro mortos e mais de 50 feridos. O massacre foi comandado por Vicente Gomes Parente, conhecido na região do Acaraú como "o capador", porque atingia os adversários com peixeiradas abaixo do umbigo.

Olhem o sobrenome dele: Gomes. Pois é. Parente do Ciro Gomes.

CEARÁ

Mas não eram só os Gomes de Sobral que matavam e morriam pela política. O Ceará é cheio de cidades com nomes beligerantes: Batalha, Tropas, Emboscadas, Trincheiras, Cruzes, Saco das Balas, Riacho do Sangue.

A partir de 1810, a guerra foi entre os Castro e os Moreira, iniciada entre o Padre Antonio José Moreira, deputado às Cortes de Lisboa, e o vereador Antonio José da Silva Castro, "protegido do governador Sampaio, que lhe deu muitos empregos e privilégios, origem de sua fortuna e de sua vida pública".

Os descendentes continuaram os métodos. Em 1841, o medico José Lourenço de Castro e Silva era presidente da Assembléia Provincial do Ceará, pelo Partido Liberal. Viu que ia ser derrotado pelos deputados do Partido Conservador. Por sugestão do primeiro, Major João Facundo de Castro Menezes, vice-presidente da Província, "colocou arsênico na água dos adversários, provocando um envenenamento coletivo". E ganhou a votação.

O excelente "Assassinatos na Academia", do Jô Soares, teve precedentes.

NEPOTISMO

O "nepotismo" vem desde Jesus Cristo, com os apóstolos mais velhos protegendo os irmãos mais novos, e o Pero Vaz de Caminha pedindo emprego para o genro na primeira e genial carta. No Brasil, o Ceará escancarava.

O Padre Tomaz Pompeu de Souza Brasil, o famoso senador Pompeu, chefe do Partido Liberal e o mais poderoso da Província durante muito tempo, e o primo, também senador, Vicente Alves de Paula Pessoa, deixaram vasta herança familiar e política. Todos os genros do senador Paula Pessoa eram "deputados gerais": "7 numa chapa de 12".

Morre o senador Pompeu, em 1877 e o Partido Liberal passou para o genro Antonio Pinto Nogueira Accioly, que "montou a maior oligarquia da historia política do Ceará". O secretario do Interior era o filho José Accioly, diretor da Faculdade de Direito, cujo vice era o cunhado Tomás Pompeu.

Outro filho, Tomás Accioly, era diretor do Liceu e o genro Jorge de Souza o vice-diretor. Tomás Accioly era também diretor da Escola Normal, onde ensinavam um sobrinho, a sobrinha e o irmão de Accioly. O Tomás era ainda senador da Republica pelo Ceará. Na Câmara Municipal, o secretario era Jobino Pinto, sobrinho de Accioly, e o procurador Antonio Accioly Filho.

O Exército lá era comandado por um genro de Accioly, capitão Borges. Outro genro, o mineiro Francisco Sá (o da rua do Rio), foi senador e ministro. O primo João Lopes foi deputado federal e o tio de uma das noras, Gonçalo Souto, também representava o Ceará na Câmara Federal. Tudo em casa.

JUAREZ TÁVORA

E o Ceará veio vindo. Em dezembro de 1934, depois da Constituinte de 34, o partido do governo (Partido Social Democrático, que em 45 se tornaria a UDN cearense), só elegeu para a Assembléia 13 deputados contra os 17 da oposição (da LEC, Liga Eleitoral Católica, que em 45 seria o PSD do Ceará).

Em 35, A Assembléia ia escolher o governador. Estava certa a vitória de Menezes Pimentel, da LEC, com 17 deputados, contra Juarez Távora com os 13 do PSD. Para facilitar a conquista de votos da oposição, trocaram Juarez (ele, o Vice-Rei do Norte), por José Accioly. O deputado Jorge Moreira Pequeno (olha o nome!) passou logo para o lado de Accioly e ficou 16 a 14.

O interventor Moreirinha, nomeado por Juarez e que apoiava Accioly, começou a fazer todo tipo de suborno e violência. As casas dos deputados Carlos Benevides (pai do depois senador Mauro Benevides) e Lourival Correia foram invadidas pela policia, porque apoiavam Menezes Pimentel.

JUAREZ LEITÃO

A ultima esperança de Accily era virar o voto do deputado Elpídio Prata Gomes (olha Ciro aí!). Se ele votasse em Accioly daria empate de 15 a 15 e, como Accioly era mais velho do que Pimentel, ganharia. Na hora da votação, o deputado Chico Monte (sogro do ministro e governador Parsifal Barroso), sentou ao lado de Elpídio e discretamente encostou um punhal nas costelas:

- Amigo Elpídio. Nós vamos ter 16 votos. Se não saírem os 16, você será um homem morto. Reze para que ninguém erre o voto. O azar será seu.

Saíram os 16 votos que elegeram Menezes Pimentel governador.

(Essas edificantes histórias, que reli aqui, deliciado, nesse fim de semana, sempre muito atuais porque muito brasileiras, estão em um livro de farta pesquisa e fino estilo, "Prediletos das Urnas", do jornalista, professor, pesquisador e primoroso escritor cearense Juarez Leitão, de quem falarei outro dia, se não me faltar espaço, engenho e arte).

www.sebastiaonery.com.br

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