Eudes Oliveira de Alencar
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Preparava-me para uma viagem rápida e quando ele soube ficou muito triste. Não liguei muito. Minutos depois percebi-o chorando. Chamei-o e ele veio rápido se aninhar no meu colo. Colocou a cabeça no meu ombro e chorou com a força do sentimento de muitas dores. As lágrimas correram sem peias que molharam minha camisa. Perguntei-lhe porque chorava e ele disse que não queria que eu viajasse.
Ainda tocado pela sua reação pedi-lhe que olhasse para mim e lhe falei que era uma viagem rápida. Dois dias, apenas. Fiz com que contasse os dias para que percebesse como o tempo passaria logo. Faríamos um programa qualquer quando eu voltasse, prometi-lhe. Pouco a pouco o choro foi acabando e ele rapidamente se recompôs. Saiu correndo do meu colo dizendo que ia ajudar a arrumar minha bagagem.
A cada minuto chegava perguntando se colocava tal coisa dentro da mala. E eu, meio indiferente, respondia que sim. Então, ele chegou com dois carrinhos bem pequenos e perguntou se podia colocá-los também. Ri. Perguntei-lhe por que queria colocar aqueles carrinhos e ele respondeu sério: “Pro senhor se lembrar de mim.” Fiquei comovido. Abracei-lhe fortemente e segredei-lhe ao ouvido que eu nunca poderia esquecê-lo.
Dei me conta depois, ele havia dado um salto fantástico em seu desenvolvimento psíquico-emocional. Certamente não seu primeiro vôo, mas para mim o mais significativo. Ele saíra do chão, da concretude da realidade para o mundo do simbolismo. Era uma linda afirmação de identidade, de um que não se confunde com o outro que sente a falta de quem ama, mas preocupa-se também em ser esquecido. De certo modo, um vislumbre de seu próprio fim, ainda que não saiba elaborar esta verdade em toda a sua extensão.
Evidente, ele sabia que o carrinho era só um carrinho. Não era ele mesmo, mas lhe pertencia, se identificava com ele, objeto de seu cotidiano, impregnado de seus afetos, seus sonhos, suas relações com o mundo. O carrinho tornou-se um símbolo dele mesmo, parte sua que viajou comigo. Soube depois, pela sua mãe, que ficara chateado e impaciente e perguntou inúmeras vezes quando eu voltaria.
Quando voltei devolvi-lhe os carrinhos em tom de surpresa por tê-los encontrado entre minhas coisas. Queria ver qual reação teria. Ele sorriu maroto, como se tivesse feito algo grande, e afirmou que havia colocado lá para que eu lembrasse dele. Sim, derreti-me de novo pela sua tão delicada demonstração de afeição e o amei ainda mais.
Pergunto-me se não há algo desta pequena história em nossa relação com Deus, digo, a minha própria. Pessoalmente, sinto-me, tantas vezes, como aquele menino de cinco anos. Tenho saudade do Pai. Diante do abismo, sinto-me desamparado, sinto vertigem. É o duro caminho em direção à maturidade quando um caminha, não só, mas com seus próprios pés. A diferença é que sou eu/menino quem viaja e não tenho carrinhos para deixar, afinal, sou eu quem parte quando me alheio ou deambulo por vãos caminhos. Mas se parto, o que levo para matar a saudade? Entre lutas e dúvidas, como um vagalume teimoso que quer iluminar a noite, sou invadido da certeza, não estou só, mas logo ali, uma curva perigosa, pergunto-me: quem está dirigindo?
Sombras e abismos se alternam cada dia. Seriam seus próprios males de que fala o Mestre? A paisagem parece monótona e a grande arte é descobrir e viver e festejar as frestas de raios de sol que vazam as nuvens baixas formando pequenas ilhas de luz no chão. E como um menino que pula amarelinha, de ilha em ilha – cancão, que é como a conhecia quando criança –, olho o céu ao final e enquanto pulo as casas numa perna só ou com duas onde é possível, tento acertar a troca das pernas para manter o equilíbrio. Devo confessar que tenho tomado mais tombos que saltos bons. O menino está lá, mas meu cérebro excessivamente adulto desaprendeu a brincar.
Apesar do conselho de Jesus, não tenho os olhos de criança e, averso a afirmações triunfalistas de fé, perco-o de vista e tenho que espremer os olhos como quem está no sol a pino ou quer divisar uma imagem ao longe. Aceito isso como parte da jornada e evito dizer assertivas tolas como se Deus tivesse certas obrigações que, de fato, o limitam. Pequena fé, diriam. É possível. Ou simplesmente impaciência daquele que espera, que crê lá com suas fragilidades, mas não suporta separação. É engolfado por este relativismo do tempo que só um Deus pode fazer. Um dia como mil anos e mil anos como um dia.
Que é, para mim, o carrinho que me fará lembrar e acalentar a alma? O que trará lembranças, cheiros, ecos de risos e se transformarão em certezas para hoje? Não serve para amanhã, porque este tipo de esperança, como o maná que caía para alimentar o povo no deserto, estraga se armazenado. Para cada dia a porção certa que dará forças para caminhar um dia apenas. Não desejo mais que isso.
Me vem à mente um salmo que é a declaração de um homem calejado, experimentado, melhor seria dizer.
“SENHOR, não é soberbo o meu coração, nem altivo o meu olhar; não ando à procura de grandes coisas, nem de coisas maravilhosas demais para mim. Assim, como a criança desmamada fica quieta nos braços da mãe, assim eu estou satisfeito e tranqüilo, e o meu coração está calmo dentro de mim.”
Ele não luta mais com a realidade, ele a aceita. Antes de ser uma declaração de alguém que desistiu de lutar e seria certamente, neste mundo de superhomens, tido como um perdedor que se acomoda a seu destino, suas palavras afirmam uma esperança alimentada pela confiança no Pai. Ele, ao contrário, se faz criança, sina e história nas mãos do Pai que a imagem poética descreve como uma mãe que amamenta.
Satisfeito e tranquilo, deixa-se carregar docemente. Está reconciliado consigo mesmo, todos os desejos subjugados, os julgamentos dos outros não lhe afetam, ele mesmo não julga os demais. Este homem achou a paz. Abandona-se ao milagre da presença de Deus que garante o rumo da (sua) história.
“Espera, ó Israel, no SENHOR, desde agora e para sempre.” (citações do Salmo 131 nas versões ARA e NTLH) Esta resignação tem sua dinâmica própria, caminha humilde entre os gigantes, avista o céu logo ali, a alguns passos, enquanto saltita numa perna só, às vezes, duas.