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SaúdeViroses respondem por 85% das doenças febris

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6 de novembro de 2006
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CLÁUDIA COLLUCCI

Quatro idas ao hospital em uma semana e o mesmo diagnóstico: ‘É virose’. A experiência é relatada pela economista Sandra Regina Santos, mãe de Clara, 3. Em setembro último, durante oito dias, a menina teve febre e vômitos.

O diagnóstico pouco específico costuma provocar desconfiança nos pais. “Antigamente, as doenças causadas por vírus tinham nome. Agora, a resposta é sempre a mesma: Todo mundo está pegando, é virose. Os próprios médicos não sabem o que é”, queixa-se Sandra.

Em geral, os médicos dão essa resposta quando não é possível identificar o vírus causador do mal-estar. Apesar de inespecífica, não está errada. Toda infecção viral é uma virose. Por haver inúmeros tipos de vírus, é difícil identificar qual o responsável pela infecção.

“Com bactéria é mais fácil. Colho a cultura, tenho o nome e sobrenome da bactéria e sei qual antibiótico indicar. Com vírus, isso não faz parte da rotina. Precisa de laboratório especializado para a análise. E, como a maioria das viroses são benignas, desaparecem em até cinco dias, não vale a pena investir para saber o nome do vírus”, explica a infectologista Rosana Richtmann, do Instituto Emílio Ribas.

Diferentemente das bactérias que podem ser combatidas por uma gama enorme de antibióticos, os vírus têm tratamento mais limitado. Os antivirais são indicados somente para casos mais graves, como em alguns casos mais severos de catapora, herpes e hepatites.

Segundo Richtmann, no caso de algumas viroses, é preferível investir em prevenção, por meio das vacinas.

Em hipótese alguma as infecções virais devem ser tratadas com antibióticos, alerta o pediatra Eitan Berezin, presidente do departamento de infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria. “Além de serem inócuos, provocam resistência em relação aos remédios.”

Porém, é justamente nas doenças virais que ocorre o maior uso inadequado de antibióticos, segundo Richtmann. “Muitas vezes, por pressão dos pais, os médicos receitam o antibiótico. A criança melhora não por causa do antibiótico, mas porque as viroses passam espontaneamente”, diz.

Para o pediatra Berezin, muitas vezes o médico resume o diagnóstico na frase ‘é virose’ e não dá mais explicações por desconhecer o tema virologia. “Há poucas aulas sobre virose na faculdade.”Ele diz que isso acontece mais freqüentemente nos prontos-socorros em que os médicos não conhecem o seu paciente e, às vezes, dão antibióticos sem necessidade.

Até 85% das doenças febris na infância são de origem viral, segundo dados da SBP. A partir de um ano, as crianças já perderam a imunidade adquirida da mãe e estão desenvolvendo os seus próprios anticorpos. Ao freqüentar as escolinhas e se relacionar com outras crianças, acabam infectadas.

A maior parte das viroses benignas tem origem em duas ‘famílias’ de vírus: a dos adenovírus (que causam resfriados, conjuntivites e problemas respiratórios em geral) e a dos enterovírus (responsáveis por problemas intestinais, lesões na pele e até meningites).

O vírus influenza, causador da gripe, e o rotavírus também são freqüentes.

Algumas viroses são mais freqüentes em determinada época do ano principalmente por causa das características do vírus que a desencadeia, como maior resistência ao calor e ao ambiente. No caso do verão, as mais comuns são dengue, conjuntivite, hepatite A, meningites virais e doenças diarréicas.

“Deve-se lavar bem frutas e verduras, além das mãos, que são um grande veículo de contaminação”, explica Charlotte Marianna Hársi, diretora da Sociedade Brasileira de Virologia. “Na hora de entrar na piscina, é preciso ver bem se a água está limpa para evitar pegar conjuntivite”. Após o diagnóstico de virose, o melhor, então, é dar condições para o corpo reagir, como mantê-lo hidratado, já que o organismo consegue combatê-la, explica Hársi.

Segundo os médicos, no entanto, se os sintomas persistirem além de uma semana, o quadro pode indicar que a infecção pode não ser tão inofensiva. “Passado esse período, se o paciente não melhorar, deve voltar ao consultório para nova avaliação”, adverte o pediatra Eitan Berezin.

Na opinião de Berezin, em hipótese alguma deve haver auto-medicação. “Uma gripe pode ter sintomas semelhantes ao da pneumonia. O medicamento pode mascarar o quadro clínico e retardar a ida ao médico” afirma Fernanda Calgaro.

PERGUNTAS E RESPOSTAS

1. As viroses devem ser tratadas com antibióticos?

Não. Eles não surtem efeito nesses casos e podem causar reações alérgicas e alterar a flora bacteriana normal do indivíduo, propiciando infecções. Para a saúde coletiva, pode levar ao desenvolvimento de germes cada vez mais resistentes

2. Os antigripais podem ser usados sem problemas?

Recomenda-se cautela, sobretudo entre idosos, porque podem aumentar a pressão arterial. Para qualquer virose respiratória é recomendável limpar nariz com soro fisiológico, usar antitérmico em caso de febre, beber líquido e evitar esforço físico.

3. Como posso saber se a viroses se transformou em infecção bacteriana?

Embora tenham sintomas semelhantes, as viroses costumam acabar no período de uma semana. Convulsões, secreção amarelada, dor torácica, dificuldade para respirar ou o retorno da febre depois de ter regredido podem ser indicativos de infecção bacteriana.

4. Por que a queda da temperatura favorece as viroses?

A temperatura baixa contribui para que os microorganismos fiquem mais tempo no ambiente. E como as pessoas tendem a ficar em locais fechados, ocorre a contaminação.

Depoimento

Chega a dar raiva a falta de um diagnóstico

As viroses perturbam os meus filhos o ano todo. Na semana passada, os dois ficaram doentes, com febre e outros sintomas de resfriado. ‘É virose’, disse o médico. No sábado, os sintomas continuavam. Voltei ao PS, e de novo: ‘É virose’. Na segunda-feira, eles continuavam com febre. Voltei ao PS e, diante do óbvio diagnóstico de virose, pedi que fizessem todos os exames para investigar melhor o quadro. Estava preocupada porque tinha tido um caso recente de meningite na escola da Maria Julia.

Eles fizeram exames de sangue e de imagem, raio-X da face e do tórax. Não deu nada. ‘É virose’, reforçou o médico. Mas e essa febre que não passa? Vai dando uma angústia não ter um nome mais específico. Talvez até por ignorância, você pensa que o médico não sabe identificar o problema. Chega a dar uma certa raiva essa falta de um diagnóstico mais claro.

A Maria Julia nunca teve nada até entrar na escolinha no mês de agosto. Desde então, mais falta do que freqüenta as aulas por conta das viroses. Ela vai três dias, pega uma virose e passa mais duas semanas em casa. Ela já é magrinha e, com tanta virose, fica ainda mais abatida. É bem estressante.

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