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O corpo anoréxico e a anorexia da alma

O corpo anoréxico e a anorexia da alma

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Data de Publicação: 20 de novembro de 2006
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Por: Eudes Oliveira de Alencar

E-mail: eudesalencar@hotmail.com

Esta semana que passou o assunto veio à baila muitas vezes em quase todos os jornais. Foi motivo para debates, desculpa para ouvir especialistas de várias profissões, os psicólogos e assemelhados à frente da fila. A bela Ana Carolina, 21, modelo de sucesso, malas arrumadas para Paris para vários desfiles agendados, morreu de infecção generalizada em virtude de seus acanhados 40 quilos para uma mulher de 1,74m. Começou a trabalhar muito cedo, aos treze anos, como costuma acontecer nestes casos. Diagnóstico: anorexia e bulimia.

Poucas semanas atrás, na Espanha, o governo instituiu que modelos deverão ter um índice de massa corporal que não represente perigo para a saúde. Todos os desfiles devem ser antecedidos de exames médicos das modelos. Várias moças já foram dispensadas pela excessiva magreza, o que atraiu a ira de promotores deste tipo de evento. A morte da modelo brasileira provou que o governo espanhol está certo.

Nem bem a morte de Ana Carolina “esfriava” no noticiário e já se tinha uma outra triste história para contar. Foi identificada apenas como C.S.C., estudante paulista, 21. Morreu de parada cardíaca. Diagnóstico: anorexia.

Falando sobre ética no Fantástico do dia 29 do mês passado, Viviane Mosé, mostrou uma foto de um jornal em que se via um corpo no chão, envelopado por aqueles sacos pretos. Transitando ao lado, procurando o melhor ângulo para fotos da Praia Vermelha, cartão postal do Rio, pessoas sorriam fazendo o famoso “xis” para contar depois a história da viagem. Diriam eles com horror que ali ao lado, estava estendido um corpo de um homem, turista como eles, cego, que morrera afogado naquelas águas? Seus sorrisos despreocupados, indiferentes, diziam que não.

As duas situações denunciam um estado de coisas que encontra suas raízes nos profundos escaninhos da alma da sociedade que aprendeu uma nova forma de (des)valorizar a vida humana hoje. Estamos beirando o paroxismo. Tanto o morto jogado no chão como as meninas que saracoteiam corpos envelopados por outras roupas se encontram no mesmo ponto: as pessoas estão sendo coisificadas e tratadas como tal. Um corpo, que parece vivo, tem seu valor enquanto os poucos anos sustentarem um milimétrico padrão de beleza adoecedor. O outro corpo, morto, é apenas um pacote à espera da burocrática e incompetente ação de servidores públicos, calejados, insensíveis, eles mesmos peças numa máquina colossal movida a carimbos, papéis, registros infindáveis e inúteis. Lembro de Kafka e seu romance “O processo”. Profético.

Num caso, um padrão de beleza ditado pelo mercado e por conveniência industrial, brutaliza corpos minguando-os até caberem nos apertados estilos de roupas, depois vendidos a uma patuléia que passará o ridículo que for para estar na moda. Noutro caso a indiferença nos move tocados pela violência cotidiana como forma de sobreviver à crueldade do mundo. Que mais dá se na calçada da praia está uma pessoa(?) estendida? Isto revela que perdemos os marcos morais. Não os antigos que, certamente, estavam de acordo com a sociedade da época e cada uma criou a sua. Mas com o marco fundamental que as originou: o ser humano tem um valor intrínseco que precisa ser respeitado sob pena de, em pouco tempo, perdermos os referenciais básicos de humanidade. E quando isso acontece é de Deus que nos esquecemos.

Então, é disso que se trata. Isso devia nos mover. Alguém foi aviltado em sua condição de ser humano? A um qualquer, que se quer conheço, foi negado um direito básico, alimentar-se, por exemplo? A uma pessoa lhe foi tirada a voz, a casa, a dignidade? Há esperança. Ainda bem que a reportagem revelou pessoas engajadas no propósito de não se deixar animalizar.

Preocupa-me o foco que este tempo exige de cada um de nós. Uma sobrevivência a qualquer custo. Um silêncio catatônico. Não se questiona as regras, como gado tangido ao matadouro aceitamos nossa sina. Queremos aproveitar o máximo enquanto não chega a nossa vez. Foi o que Jesus disse. “Todos comiam e bebiam, e os homens e as mulheres casavam, até o dia em que Noé entrou na barca. Depois veio o dilúvio e matou todos.” (Lc 17:27 – NTLH). O que caracterizava aquela geração era uma vida desconectada de Deus. Vida represada no aqui e agora, incapaz de transcender a obviedade das obrigações e das relações, das satisfações do prazer que gera insatisfação quando acaba que move a pessoa a nova busca. A crítica do Senhor está no vazio daquela gente. Podia-se dizer: de suas almas anoréxicas.

Pegue-se um encontro qualquer de Jesus nos evangelhos, qualquer pessoa, até mesmo quem O trata como inimigo. Sempre há respeito ao ser humano. Ninguém é despojado de sua humanidade, mas revestido dela. A um dá-lhe o direito de se manifestar e expor seu desejo: Que queres que te faça? A outra é apenas uma conversa que lhe devolve o status de criatura de Deus, sua imagem e semelhança. Ele se importa. Ele se envolve. Ele toca as pessoas, até os intocáveis. Lembro Chaplin em seu famoso discurso: “não sois máquinas, homens é o que sois.”

Nós, seres humanos, fomos feitos para funcionar de determinado modo que está para além do biomecânico. Uma anta nasce assim e agirá de acordo com seu programa interno. Um rato será rato até morrer. Um homem nasce homem, mas deve fazer escolhas entre o bestializar-se e tornar-se homem ao longo de sua existência. Todas nossas ações devem se mover por este princípio. Quando uma modelo aceita emagrecer de maneira absurda, aquilo que chamam de profissionalismo, capacidade, não passa de subserviência, o aceitar passivamente a desconstrução da humanidade naquela moça, porque se torna um bibelô. Assim também quem se prostitui, que cumpre tarefas na repartição. Cada um que não significa o que faz.

Do mesmo modo quando se ignora o outro, seja morto ou vivo, reduzimo-lo a menos que humano. Quando coisificamos, somos ao mesmo tempo igualados ao outro. Assim é o pai que esquece o filho ainda bebê no carro e este morre de calor e sem ar porque aquele homem perdeu as ações próprias de humano: a afetividade racional, o cuidar, o preocupar-se com o outro. E nós penalizamo-nos dele e dizemos: podia ter sido eu. Acusam o estresse, a vida sem tempo. Acuso nossa escolha como comunidade.

Novamente Jesus. Tocado pela mulher com fluxo de sangue, pára, procura saber quem é, fala com ela (Mc 5.25-34). O momento era delicado por todos os pontos de vista, não mais do que o fato de deixar-se tocar e conversar com uma pessoa que se tornara excluída daquela sociedade. Delegamos a instituições o fazer estas coisas, até cuidar daqueles que nos pariram. Tratamos tudo pela lógica do mercado, por atacado. Por economia de tempo e dinheiro. Por eficácia e eficiência.

Nisto se resume a vida de quase todos: Anseiamos e esperamos por dias melhores como canta a música. Hoje, bem... vamos nos aguentando e esquecendo de nós com a frase já desbotada na boca: amanhã será melhor!

“Se a nossa esperança em Cristo só vale para esta vida, nós somos as pessoas mais infelizes deste mundo.” 1 Coríntios 15:19 – NTLH.

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